Ultimamente, sempre que temos entrado em discussões sobre o Espiritismo envolvendo pessoas não espíritas, um tema que vem sempre recorrendo, de forma até irritante, e que tem desviado o curso dos debates sérios, é o caso supostas fraudes das materializações de Uberaba, sustentado com fotos da época que parecem evidenciar conivência do médium Chico Xavier com essa suposta fraude e com um aparente ridículo. Essas fotos foram provenientes de um mesmo evento que resultou em uma série de reportagens da Revista O Cruzeiro, entre janeiro e maio de 1964, e que se propunha a desmoralizar todos os envolvidos no caso, resvalando evidentemente no Movimento Espírita Brasileiro e no próprio Espiritismo.
O autor espírita Jorge Rizzini (1924-2008) investigou a fundo a questão e tomou para si o encargo de demonstrar que o que teria havido de fato foi uma manifestação de má fé dos repórteres sensacionalistas que escreveram as matérias em O Cruzeiro. O repórter José Franco prometeu aparecer em Uberaba com apenas mais uma testemunha, mas apareceu com uma tropa de 7 repórteres e fotógrafos (Jorge Audi, Henri Ballot, José Franco, Mário Moraes, Paulo Miranda, José Nicolau e Nilo Oliveira) (págs. 25 e 26 do livro) com a intenção prévia de desmascarar uma fraude. Eles controlaram inteiramente todas as fases da experimentação, tiveram todas as chances possíveis de desmascararem a fraude caso ela realmente tivesse ocorrido, saíram do local manifestando certo espanto e admiração frente aos fenômenos observados, mas ao editarem a reportagem, preferiram a verossimilhança à verdade. No final da sessão, cinco deles emitiram os seguintes depoimentos no gravador do dr. Eurípedes Tahan Vieira (nas págs. 32 e 33 do livro):
"Eu, Nilo Oliveira (que era ex-repórter policial), posso declarar que algemei a dna. Otília, médium que atuou nesta sessão, rubriquei e colei o esparadrapo na fechadura dos cadeados e tomei conta do exterior da casa onde se realizava esta sessão. Não observei absolutamente nada de anormal por fora. E terminada a sessão, penetrei na sala E ENCONTREI TUDO COMO HAVIA DEIXADO: a dna. Otília algemada, tendo eu desfeito a algema, aberto os cadeados e encontrado as rúbricas que havia feito anteriormente."
"Eu (diz agora Mário Moraes) repórter de 'O Cruzeiro', declaro que assisti uma experimentação realmente estranha: NUNCA HAVIA VISTO NADA IGUAL, e é lógico que não sendo estudioso da matéria, NÃO TENHO EXPLICAÇÃO PARA O QUE VI. Passo a partir desse momento a me interessar pelo problema: procurarei no futuro próximo talvez dar uma explicação para o fato."
"É difícil (confessa Henri Ballot) dar uma explicação... É a primeira vez que eu assisti a uma sessão assim... Eu fiquei SURPREENDIDO pelo fenômeno, que à primeira vista não se vê uma explicação plausível... Deve haver uma, não há dúvida. Eu tenho algumas ideias a respeito disso. Mas eu não tenho autoridade para falar."
"Sinceramente (diz o repórter José Franco) após essa reunião não sei o que dizer; fiquei bastante IMPRESSIONADO COM O FENÔMENO, mas ainda não tenho uma explicação a respeito."
"Eu assisti a uma dessas sessões realizadas aqui em Uberaba (diz Jorge Audi) e é REALMENTE ESPETACULAR; nós procuramos de toda forma encontrar alguma falha, algum defeito, alguma coisa que pudesse denunciar anormalidade. E, naturalmente, vai depender de algum raciocínio e, se possível, uma outra oportunidade em que a gente possa ter mais chance de observar melhor o fenômeno. No momento, o que eu posso dizer é que, para mim, FOI UMA COISA INÉDITA! EU JAMAIS HAVIA ASSISTIDO COISA IGUAL, embora na vida de um repórter essas emoções são quase que diárias. Essas emoções novas e violentas são já um lugar comum na vida de um repórter. Posso afirmar que é realmente QUALQUER COISA ASSIM EMOCIONANTE. Agora, eu gostaria de ter mais contato e mais oportunidade PARA PODER FAZER UM RACIOCÍNIO MAIS ABSOLUTO."
Essas foram as declarações de cinco dos sete repórteres logo após a sessão. Depois porém...
Os detalhes do caso são em grande parte desconhecidos dos espíritas, o que dificulta a abordagem quando o assunto é usado em discussões, geralmente com o fim de esparramar o ridículo sobre o Movimento Espírita. Nós mesmos não conhecíamos bem os detalhes do caso e nos vimos obrigados a pesquisar devido à recorrência do uso dessas fotos acompanhadas das acusações de fraude contra Chico Xavier. Para tentar sanar essa deficiência de material de resposta, estamos publicando uma cópia (fotografada) do livro Sr. Rizzini, Materializações de Uberaba, que hoje é bastante difícil de se encontrar em meios físicos e já é considerada uma obra rara, e que conta o que realmente aconteceu naqueles dias.
Com base no que é exposto no livro e em outros fatos históricos, hoje não temos nenhuma dúvida a respeito da veracidade daqueles fenômenos, o que, caso verdadeiro, refuta por completo as acusações de fraude a Chico Xavier. Mas caso ainda reste no leitor alguma dúvida sobre essa veracidade, lembramos que caso realmente tivesse havido a fraude (repetimos: não cremos nessa hipótese), ela foi tão bem feita que conseguiu iludir os 7 repórteres e fotógrafos de O Cruzeiro, a ponto de os fazer emitirem os depoimentos transcritos acima, e já não se pode mais afirmar com absoluta certeza a conivência de Chico Xavier com a suposta fraude, pois ele poderia ter sido tão vítima de ilusão quanto os repórteres. De uma forma ou de outra, portanto, está refutada a única suposta evidência de conivência de Chico Xavier com fraudes em sessões espíritas.
Tínhamos a intenção de publicar um trabalho mais completo, com comentários adicionais ao livro, mas os nossos afazeres não têm permitido dedicar a este assunto a atenção que ele merece, e esperar pelo trabalho perfeito seria retardar muito a disponibilização dessa obra, que consideramos de grande interesse para o leitor espírita. Então preferimos fazer por ora uma simples disponibilização da obra original, para todos os interessados, aperfeiçoando o trabalho com tempo, de acordo com a nossa disponibilidade e com as eventuais contribuições que recebermos para melhorá-lo. Qualquer pessoa é convidada a contribuir para o tema através do nosso canal fale conosco. Desejamos a todos uma boa leitura.
Atenção: Um leitor gentilmente nos informou que faltavam as páginas 30 e 31 do livro anteriormente publicado. Corrigimos a omissão, mas quem fez o download antes de 16/04/2011 precisará refazê-lo para obter as páginas que faltavam.
Rafael Gasparini Moreira
Paulínia/SP
e-mail: rafael.gasparini@gmail.com
set/2010 (revisado abr/2011)