Por Ricardo M. Damasceno
<--VoltarNa edição de março de 1863, da Revue Spirite, pode-se encontrar cautelosa e enérgica inferência de Allan Kardec1 acerca das comunicações mediúnicas:
(...) Nenhum espírita ignora que os Espíritos estão longe de possuir a soberana ciência; muitos dentre eles sabem menos que certos homens e, como certos homens também, têm a pretensão de tudo saber. Sobre todas as coisas têm sua opinião pessoal, que pode ser justa ou falsa. Ora, ainda como os homens, em geral os que têm ideias mais falsas são os mais obstinados. Esses pseudo-sábios falam de tudo, constroem sistemas, criam utopias ou ditam as coisas mais excêntricas, sentindo-se felizes quando encontram intérpretes complacentes e crédulos que lhes aceitam as elucubrações de olhos fechados. Esse tipo de publicação tem grave inconveniente, pois o médium, iludido e muitas vezes seduzido por um nome apócrifo, tem-na como coisa séria, de que se apodera a crítica prontamente para denegrir o Espiritismo, ao passo que, com menos presunção, bastaria que se tivesse aconselhado com os colegas para ser esclarecido (...). (grifo nosso)
Tais assertivas denotam a maneira sóbria e austera com que o nobre Pedagogo francês enfrentara o grave problema das dissertações espíritas, não havendo, pois, utilizado meias palavras. Outrossim, já na edição de novembro de 1858 da mesma publicação, pudera ele enunciar2: “(...) Entretanto, há polêmica e polêmica; uma há diante da qual não recuaremos jamais: a defesa séria dos princípios que professamos”.
Logo, quando se põe em risco a inteireza do pensamento espírita, não há outro recurso senão examinar a mais não poder a ideia esdrúxula a pôr-se como autêntico joio em meio ao trigo. Nesse campo, a omissão de quem defende a fidelidade doutrinária vem representar assentimento silencioso à falsa tese e conivência pusilânime com quem, em palestras, seminários e congressos, visa a divulgar um artefato. Vale, no caso, o brocardo latino qui tacet consentire videtur, isto é, quem cala consente.
Nas hostes espíritas, ainda remanescem defensores de teses estranhas aos mais elementares conceitos de Doutrina, as quais têm exemplos nas ideias do corpo fluídico e não carnal de Jesus durante a sua experiência terrena, do retrocesso evolutivo, da evolução em linha reta e da reencarnação como exceção e punição, dentre outras afirmativas antiespíritas e contradoutrinárias. Eis quatro dos malsináveis artefatos de Os Quatro Evangelhos, trazidos à baila pelo advogado e bastonário de Bordéus, Jean-Baptiste Roustaing (1805-1879), cuja insistência em pespegar à sociedade francesa o pretensioso ensaio não encontrou óbice mesmo na demolidora análise de Allan Kardec3.
Publicada em 1866, na Cidade Luz, a obra Os Quatro Evangelhos devera-se à atuação psicográfica de Émile-Aimé-Charlotte Bréard Collignon (1820-1902), de origem belga, por quem se haveriam supostamente manifestado os quatro evangelistas sob assistência de Moisés, segundo enunciado pelos mesmos Espíritos em dezembro de 18614. Aliás, foram eles próprios que se referiram à obra como a Revelação da Revelação5, fato por si mesmo suficiente a demonstrar toda a pretensão de que se revestiam.
Evidentemente, cada indivíduo tem o inalienável direito subjetivo de acreditar em qualquer coisa, por menos razoável que se lhe afigure, porém não lhe pode ser lícito adulterar uma doutrina vazada no método experimental, do qual resultaram implicações filosóficas e ético-morais necessárias à evolução da humanidade. Desse modo, o equívoco não está, à primeira vista, na ideia tomada em si mesma, antes na tentativa de compatibilizá-la com o Espiritismo e de entranhá-la no pensamento doutrinário, qual se aquela possuísse o mesmo status lógico-racional. Outrossim, o mesmo se admita relativamente a outros festejados autores espiritualistas, cujas obras, publicadas à margem do contexto doutrinário, não chancelam senão obliquamente os conceitos espíritas.
Na maioria das aproximações conceptuais, não há identidade senão aparente, tangencial e essencialmente alheia aos núcleos doutrinários, a exemplo do propalado monismo, a cuja tentação filosófica não logrou escapar nem Herculano Pires6. No entanto, para atingir-se a verdade narrativa, mister assinalar um detalhe: o brilhante defensor da fidelidade doutrinária e indefesso crítico do roustainguismo, cujas obras deveriam ser lidas por todos os espíritas, pareceu aderir a uma espécie de monismo idealista7, espécie não equivalente ao monismo substancial de Os Quatro Evangelhos de Roustaing e de A Grande Síntese de Pietro Ubaldi (1886-1972). Por outro lado, o brilhante filósofo de Avaré pareceu contradizer-se na análise do filosofema, uma vez que, em outros instantes da obra, ele enuncia uma percepção dualística do universo8.
Por outro lado, alguns autores têm chegado a ponto de atribuir ao Codificador ideias monistas, em uma análise bastante superficial de alguns excertos, sem delineamento do filosofema. A questão monista liga-se, a priori, não à ideia de que tudo se encontra submetido às mesmas Leis Divinas, mas à tese de que o princípio inteligente universal decorre do princípio material, sendo aquele epifenômeno deste. Ora! Espírito e matéria, conquanto relacionados um ao outro nas faixas da evolução anímica, não têm natureza idêntica e não pertencem à mesma ontologia9. Assim em Roustaing como em Ubaldi (Grande Equação da Substância), mutatis mutandis, o princípio inteligente universal advém do princípio material por evolução sistêmica.
Alguns autores até se arriscam a sustentar o monismo substancial roustanguista e ubaldista, em distintas versões, como Freire10, a quem, dentre algumas coisas boas e outras bastante ruins, parece lógico ostentar uma exegese monista, desmerecendo a Obra Inaugural da Doutrina Espírita e referindo-se mesmo à errada tradução, feita por Guillon Ribeiro11, da questão 540. Vale assinalar que no equívoco não incorreu Evandro Noleto Bezerra, na mais nova tradução editada pela Federação Espírita Brasileira, em tardio, mas oportuno mea culpa institucional, assim como nele não incidira Júlio de Abreu Filho12. Em sentido doutrinário e oposto à adulteração do Espiritismo, posiciona-se lucidamente Incontri13:
Seja por conta de nossas heranças culturais ou das naturais imperfeições humanas, o movimento espírita se encontra numa encruzilhada e, se não corrigirmos certos desvios, corremos o risco de trairmos a obra de Kardec, da mesma forma que traímos, no passado, a mensagem de Jesus. (grifo nosso)
Aliás, grande expressão dos roustainguistas tem-se inclinado, em mixórdia filosófica, a ser também defensora da cosmogonia do pensador italiano, a qual, a bem da verdade, não pode ser identificada com a sistemática roustainguista senão em dados aspectos, à maneira de Procusto. Nessa esteira, Martins e Damasceno14 alcançam o cúmulo de parecer inferiorizar o Espiritismo para enaltecer o filósofo de Foligno:
Que fique registrado, então, este bilhete fraterno – simples, rápido, conciso, objetivo como todos os bilhetes, redigido a quatro mãos apenas para dizer a todos o bem que hoje nos tem feito essa doutrina espírita tão maior, tão mais profunda e bonita, exata infinitude onde encontramos Kardec e Ubaldi juntos.
Logo, somente a forçada ausência de discernimento ou a (des)propositada falta de atenção aos textos, associadamente mais ao interesse do que à convicção15, pode induzir confrades e confreiras, até intelectivamente respeitáveis sob dado ângulo acadêmico, a confundir aipim e inhame, abóbora e abricó, acelga e alface. Eis a grande ilação acerca da drolática mundividência de quem supõe encontrar na Doutrina Espírita apoio às teses roustainguistas, repassando ao movimento uma falsa ideia de compatibilidade. Entre o modelo evolucional de Os Quatro Evangelhos e o modelo evolucional do Espiritismo, existem irrefutáveis diferenças ontológicas, semelhantes àquelas entre o pensamento de Nietzsche e o pensamento de Sócrates.
Todavia, não se trata de água e óleo, líquidos naturalmente imiscíveis, pois a técnica dos autores espirituais da então denominada Revelação da Revelação era produzir o arremedo e o simulacro, através de vocabulário subtraído ao Espiritismo. Então, sob a roupagem da aparência, até a de Jesus, o Cristo, tenta-se repassar as ideias mais antinaturais e antagônicas ao bom senso. Aliás, sem maiores escrúpulos, muitos espíritas procuram encaixar o Espiritismo em alguma escola filosófica, na expectativa de laicizá-lo e de aproximá-lo de um nível de compreensão acadêmica. Por óbvio, corre-se aí o grande risco de esquartejá-lo para, desse modo, submetê-lo a pinças históricas, tal qual pretende vê-lo o laicismo da Confederação Espírita Panamericana (CEPA).
A academia não tem nenhuma autoridade para submeter o Espiritismo a qualquer avaliação intrassistêmica (salvo se, inicialmente, ela o admitisse por filosofia em si), pois, em rigor, além de não atestar oficialmente a fonte gnoseológica do pensamento espírita (a mediunidade), os seus métodos laboratoriais ainda estão limitados aos contornos do experimento material e reducionista. Nesse ínterim, assiste pleníssima razão a Curti16, para quem o Espiritismo não é dialético, não é existencialista, não é monista, não é idealista, não é absolutista. De mais a mais, na defesa do roustainguismo, particularmente da tese do corpo fluídico, há quem se louve em desmerecer o Codificador, desautorizando-o, no intento de relativizar o Caráter da Revelação Espírita17 e o Controle Universal do Ensino dos Espíritos18 (CUEE).
Allan Kardec19, em valioso ensaio científico-filosófico da obra derradeira, tivera ensejo de ponderar sobre a verdadeira natureza dos fluidos espirituais:
A qualificação de fluidos espirituais não é rigorosamente exata, já que, em última análise, eles são sempre matéria mais ou menos quintessenciada. De realmente espiritual, só mesmo a alma ou o princípio inteligente. Dá-se-lhes essa denominação por comparação apenas e, sobretudo, pela afinidade que eles guardam com os Espíritos. Pode-se dizer que são a matéria do mundo espiritual, razão por que são chamados fluidos espirituais. (grifo nosso em negrito)
Logo, mesmo no último livro da Codificação, de 1868, o Mestre de Lyon não transigiu na concepção de que o princípio inteligente universal e o princípio material são independentes e não advêm um do outro. Em outras palavras: o princípio inteligente universal, normalmente designado espírito, não compõe epifenômeno ou fenômeno consequente do princípio material. Assim, anda em erro quem se apropria do conceito de matéria para, ainda que aproximadamente, referir-se à natureza do ser espiritual tomado em si próprio. Filosoficamente, o espírito – grafado com inicial minúscula (questão 23 de O Livro dos Espíritos) – tem um ontós (natureza essencial) distinto daquele do princípio material. Há, nesse ínterim, minudência sobremodo importante ao deslinde do problema assim diagnosticado, à qual o Lionês20 não tergiversou em aludir:
Observação – Deste modo a alma é um ser simples, o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. Seria, pois, mais exato reservar o vocábulo alma para designar o princípio inteligente e o Espírito para o ser semimaterial, formado por aquela e pelo corpo fluídico. Como, porém, não pode conceber-se o princípio inteligente completamente despido da matéria, nem o perispírito sem estar animado pelo princípio inteligente, os vocábulos alma e Espírito, na linguagem comum, são empregados indistintamente, verificando-se a figura que consiste em tomar a parte pelo todo, do mesmo modo que se diz que uma cidade tem uma população de tantas almas, que uma aldeia que se compõe de tantos. Mas filosoficamente é essencial estabelecer a diferença. (grifo nosso em negrito)
Então, há de questionar-se: por que razão Allan Kardec inferiu ser “filosoficamente (...) essencial estabelecer a diferença” entre alma e Espírito, nas acepções em que ele os compreendeu?! Por filigrana conceitual desnecessária à inteligência do Espiritismo?! Antes de outra premissa, imperioso notar a finalidade teórica da obra referenciada, ou seja, a de ser explicativa da Doutrina Espírita através de uma síntese filosófico-científica. Portanto, aí não existem palavras desconexas ou vãs. O Mestre de Lyon insistiu em estabelecer distinção entre o princípio inteligente universal em si mesmo e o princípio material. Tão clara a distinção, que, em nótula à resposta da questão 76 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec postulou: “NOTA – A palavra Espírito é empregada aqui para designar as individualidades dos seres extracorpóreos e não mais o elemento inteligente universal” (grifo nosso).
Por evidente, as individualidades estão sempre, por assim dizer, perispiritizadas, tal qual aduzem as eloquentes passagens da Codificação: questão 186 de O Livro dos Espíritos; questão 5, item 74, cap. IV, parte II, de O Livro dos Médiuns; item 55, cap. I, parte II de O Livro dos Médiuns; item 24, cap. IV, de O Evangelho Segundo o Espiritismo; e item 5, cap. XIV, de A Gênese. Desse modo, a nota do Mestre de Lyon explica muito bem o sentido da questão 82 da Obra Inaugural, sobretudo no alusivo a não ser propriamente imaterial o Espírito, mas incorpóreo. Uma interpretação desatenta à resposta conduz a uma falsa conclusão.
Sob ângulo de uma interpretação assistêmica, a resposta dos Espíritos teria sido contraditória, pois, em sendo o Espírito a própria individualidade, princípio inteligente individualizado e envoltório, não parece lógico associar-lhe mesmo uma natureza incorpórea. Ora! O Espírito, assim compreendido, possui um corpo anímico com que se manifesta, de tal modo que a noção de incorporeidade se relaciona, no ponto, apenas à ideia positivista de matéria (massa, extensão, impenetrabilidade, densidade, movimento, maleabilidade, ductibilidade etc). Na questão 88, por exemplo, a pergunta liga-se ao princípio inteligente individualizado de que se compõe o Espírito, a tal ponto que a resposta se atém à noção de centelha, de clarão, de flama. Evidentemente, se o perispírito exibe a forma antropológica (humana), embora não fixa, segundo enunciado, por exemplo, no item 56 de O Livro dos Médiuns21, não se está na espécie analisando a natureza do ser duplo e sim a do ser em si ou singular.
Isto se encontrava tão evidente na intelecção do Codificador, que, no item 55 de O Livro dos Médiuns22, ele veio a postular:
Disseram que o Espírito é uma chama, uma centelha. Isto se deve entender com relação ao Espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, ao qual não se poderia atribuir forma determinada. Mas, qualquer que seja o grau em que se encontre, o Espírito está sempre revestido de um envoltório, ou perispírito, cuja natureza se eteriza à medida que ele se depura e se eleva na hierarquia espiritual. Para nós, portanto, a ideia de forma é inseparável da da ideia de Espírito, de sorte que não podemos conceber uma coisa sem conceber a outra. Desse modo, o perispírito faz parte integrante do Espírito, assim como o corpo faz parte integrante do homem. (grifo nosso)
Bem! Tal exame preambular serve a desfazer o engano de uma exegese monista substancial do Espiritismo, sobretudo a constante de Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing, na sua prosopopéia. Infelizmente, o equívoco dos “Evangelistas” já decorreu da afirmativa de que o fluido universal “toca de perto a Deus e dele faz parte”23, pois, no item 74 de O Livro dos Médiuns24, os Espíritos da Codificação responderam peremptoriamente o contrário, ou seja, o fluido cósmico universal não constitui emanação de Deus. Impressiona, nesse contexto, a facilidade com que se esmagaram os mais elementares conceitos doutrinários, quando se introduziram as bases do monismo roustainguista25:
O Espírito, na origem da sua formação, como essência espiritual, princípio da inteligência sai do todo universal. O que chamamos “o todo universal” é o conjunto dos fluidos existentes no espaço. Estes fluidos são a fonte de tudo o que existe, quer no estado espiritual, quer no estado fluídico, quer no estado material.
O Espírito, na sua origem, como essência espiritual, princípio de inteligência, se forma da quinta-essência desses fluidos, elemento tão sutil que nenhuma expressão pode dar dele idéia, sobretudo às vossas inteligências restritas. A Vontade do Senhor Deus todo poderoso, única essência de vida no infinito e na eternidade, anima esses fluidos para lhes dar o ser, isto é, para mediante uma combinação sutilíssima, cuja essência só nas irradiações divinas se encontra, fazer deles essências espirituais, princípios primitivos do Espírito em gérmen e destinados à sua formação. (grifos nosso em negrito e original em itálico)
Aqui já se entorna o indigesto caldo da Revelação da Revelação e também se pode entender, em parte, o motivo de muitos roustainguistas entronizarem o ubaldismo, embora, à evidência, não se trate de cosmogonias idênticas26. Logicamente, avolumam-se as confusões de pensamento às quais são levados os que, no cadinho das conveniências (questão 798), misturam Espiritismo, Roustainguismo e Ubaldismo. Na questão 25 de O Livro dos Espíritos, obteve-se resposta clara e indisfarçável:
25. O espírito é independente da matéria ou é apenas uma propriedade desta, como as cores são propriedades da luz e o som uma propriedade do ar?
“Ambos são distintos; mas a união do espírito e da matéria é necessária para dar inteligência à matéria”.
Na mesma lógica, pode colher-se, à vista da questão 27, a irreprochável distinção ontológica ou essencial entre espírito e matéria. Em nótula à referida seção, Allan Kardec manteve a sobriedade intelectual e não se arvorou, a priori, em defensor de ideias preconcebidas, havendo optado por aguardar o desenvolvimento da própria doutrina. Uma coisa, porém, não passa despercebida: o pensamento do Mestre de Lyon começara por identificar-se com uma solar distinção entre princípio inteligente e princípio material, a qual se veio comprovar no decurso da edificação doutrinária.
Enquanto o Espiritismo ainda se encontrava em movimento embrionário, os “Evangelistas”, através de Madame Collignon e por iniciativa editorial de Jean-Baptiste Roustaing, viriam pretensamente trazer à baila, já em 1861, cerca de quatro anos após a Obra Inaugural, apressadas respostas ao grave busílis da evolução anímica. Tem-se, igualmente, a diagnose de que, materializando-se o espírito e atribuindo-se-lhe a mesma substância originária, a natureza do princípio inteligente se torna, então, alcançável pela razão encarnada. Engraçado: tanto uns quanto outros, roustainguistas e ubaldistas, também autoproclamados espíritas, soem ignorar o conteúdo das questões 17 e 26 da Obra Inaugural:
17. É dado ao homem conhecer o princípio das coisas?
Não. Deus não permite que tudo seja revelado ao homem neste mundo.
26. Poder-se-á conceber o espírito sem a matéria e a matéria sem o espírito?
Pode-se, sem dúvida, pelo pensamento.
Não há, portanto, nenhuma convergência doutrinária em uma percepção monossubstancial dos princípios inteligente e material. De não ignorar a alusão da questão 27 da Obra Inaugural ao conceito de matéria positiva, isto é, de matéria na acepção convencional. Eis a razão de, na questão 82, embora os Espíritos não admitam a propriedade semântica da palavra imaterial, atribuírem eles à natureza do Espírito uma incorporeidade, uma vez que, no excerto, existe referência a uma corporeidade positiva, isto é, a uma corporeidade da matéria assim considerada portadora de massa, de extensão, de densidade, de opacidade, de maleabilidade, de ductibilidade etc.
Logo, na questão 82, os Espíritos não se reportaram ao ser singular e sim ao ser duplo, tal qual o Codificador sempre assim preferiu. Tanto verdade, que a pergunta se refere a Espíritos, à semelhança da questão 76. Do contrário, não haveria sentido na resposta, à qual, então, faleceria lógica, uma vez que os Espíritos têm corpo espiritual e não são incorpóreos quanto ao perispírito. Igualmente, não se pode ignorar a límpida utilização do vocáculo Espíritos, da questão 76 à 83, na acepção de seres inteligentes da criação a povoarem o universo fora do mundo material.
Isto de monismo roustainguista ou ubaldista não se conforma à natureza principiológica da Doutrina, visto, por exemplo, o elegante comentário de Allan Kardec, no item 50 de O Livro dos Médiuns, ao tratar do sistema da alma material, no qual alma e perispírito seriam componentes indiferentes um ao outro relativamente à natureza ontológica. Eis, desse modo, um dos aspectos fulcrais em que o Espiritismo não endossa a tese roustainguista.
As ideias novidadeiras do Roustainguismo esfacelam o sentido lógico da Doutrina Espírita, porque, em uma interpretação materialista do princípio inteligente universal, cuja origem seria a mesma do princípio material, elas vão produzindo um sistema evolucional distinto e incompossível com o pensamento doutrinário do espírito ensaiando-se no bojo da matéria. Ao fim, reafirme-se: o princípio inteligente e o princípio material não têm a mesma causa e apenas o segundo decorre do fluido cósmico universal (FCU).
Em termos mais exatos, o princípio material acaba sendo o mesmo fluido cósmico universal (FCU), porquanto toda a matéria do universo exsurgiu dele. Todavia, a confusão está em atribuir a origem do princípio inteligente a uma superessência ou a um anteprincípio do qual espírito e matéria se haja assim derivado. Em primeira análise, acolher a tese da origem comum equivale a igualar espírito e matéria em um nível de identidade causal, a qual a Doutrina Espírita realmente não defende e efetivamente repele. Eis o porquê de as teses roustainguista e ubaldista acatarem o denominado monismo substancial, em contraposição a uma evidente natureza dualista consistente com o pensamento espírita.
Ademais, o palmar equívoco soi defluir de uma distorção do filosofema ao qual se liga a questão monista, por evidente inapreensão de sentido e de conceito doutrinário. Nesse comenos, alguns espíritas hão defendido uma percepção monista do Espiritismo, baseados no supositício entendimento da resposta à questão 82 da Obra Inaugural. Não obstante o meritório esforço intelectivo, a leitura da referida pergunta exige maior sinergia interpretativa, considerada, para tanto, a sua própria localização conceitual na topologia da obra, consoante retro se examinou: a questão 82 está situacionalmente ligada ao conceito expendido na 76, razão por que lá se há usado a ideia de Espírito como um ser inteligente da criação, o qual povoa o universo além da matéria condensada. Outrossim, a mesma necessidade há de ser observada, por exemplo, no âmbito da questão 23, considerada a própria advertência de Kardec na subpergunta da questão 25.
Desse modo, o ser inteligente da criação, assim reputado um indivíduo a povoar o cosmos (perseidade espiritual), não pode ser outro senão a individualização do princípio inteligente universal revestida pelo seu corpo anímico (perispírito). Isto se encontra fixado em vários momentos da Codificação27, uma vez não haver Espírito sem perispírito:
5. O homem compõe-se de corpo e Espírito; o Espírito é o ser principal, racional, inteligente; o corpo é o envoltório material que reveste o Espírito temporariamente, para o cumprimento de sua missão na Terra e a execução do trabalho necessário ao seu adiantamento. O corpo, gasto, se destrói e o Espírito sobrevive à sua destruição. Sem o Espírito, o corpo não passa de matéria inerte, qual instrumento privado da mola que o faz agir; sem o corpo, o Espírito é tudo: a vida, a inteligência. Ao deixar o corpo, retorna ao mundo espiritual, de onde havia saído para reencarnar.
Então, se o homem, enquanto ser triplo28, está composto por espírito individualizado (princípio inteligente universal individuado), perispírito (corpo anímico) e corpo material (mais denso), o Espírito, a que o excerto se refere, corresponde ao ser duplo29 e não apenas ao princípio inteligente universal30 (espírito). Trata-se aí de uma ilação mais que evidente, em uma exegese lógico-sistêmica, haja vista alusão do entrecho a corpo e a Espírito. Logo, o ente a manter-se vivo após o decesso orgânico só pode ser duplo, porque o corpo espiritual (anímico) integra o ser espirítico e dele não se aparta31. A mesma concepção também se pode constatar em excertos doutrinários tão eloquentes quanto o retro citado:
Entretanto, a crença de muita gente não passa desse ponto; admitem a existência das almas e, conseguintemente, a dos Espíritos, mas negam a possibilidade de nos comunicarmos com eles, pela razão, dizem, de que seres imateriais não podem atuar sobre a matéria. A dúvida tem como causa a verdadeira ignorância da natureza dos Espíritos, dos quais em geral fazem idéia muito falsa, supondo-os seres abstratos, vagos e indefinidos, o que não é verdade.
Figuremos, primeiramente, o Espírito em sua união com o corpo. Ele é o ser principal, pois é o ser que pensa e sobrevive. O corpo não passa de um acessório do Espírito, de um envoltório, de uma veste, que ele deixa quando está usada. Além desse envoltório material, o Espírito tem um segundo, semimaterial, que o liga ao primeiro. Por ocasião da morte, despoja-se deste, porém não do outro, a que damos o nome de perispírito. Esse envoltório semimaterial, que tem a forma humana, constitui para o Espírito um corpo fluídico, vaporoso, mas que, pelo fato de nos ser inivisível no seu estado normal, não deixa de ter algumas propriedades da matéria. O Espírito não é, pois, uma abstração, mas um ser limitado e circunscrito, ao qual só falta ser vísivel e palpável para se assemelhar aos seres humanos. (grifo nosso em negrito e originário em itálico)
Logo, induvidosa a natureza do Espírito, nas referidas passagens, como a de ser duplo, nos termos do exposto até o momento. De mais a mais, o Espírito, como algo predefinido, tem (contém) o corpo semimaterial sem o qual a existência do princípio inteligente individualizado não passa de uma abstração intelectual. Isto, porém, não implementa o raciocínio de que, por ser abstração, o princípio inteligente não tenha uma natureza essencialmente singular e causalmente revel à do princípio material. Desse modo, a ideia de o princípio material ser uma conditio sine qua non da manifestação do princípio inteligente no âmbito universal32 aduz exatamente a concepção distintiva de ambos os princípios, não sendo, pois, categorias filosoficamente indistinguíveis ou elementos ontologicamente identificados entre si. Também não se trata de simples paralelismo psicofísico, em que espírito e matéria não interagem em uma realidade existencial.
O eminente Mestre de Lyon afirmara ser o princípio inteligente sem a matéria uma abstração, razão por que, ipso facto, o notável Pedagogo não parece havê-lo causalmente vinculado ao princípio material. Por outro lado, quando se afirmara, no excerto de O Livro dos Médiuns, não ser o Espírito uma abstração, aí se estava considerando o ser duplo, sem cujo perispírito a essência mesma do elemento espiritual em si há de manter-se num dado plano zetético, isto é, no plano de um conceito ainda (?) inalcançável pela razão encarnada, porque, nessa condição, a faculdade específica ainda lhe falta. Evidentemente, mesmo sendo alguma coisa, o princípio inteligente universal não necessita de originar-se de uma superessência ou de um anteprincípio, do qual se haja criado o princípio material, ao argumento de que o primeiro se constituiria um outro tipo de matéria. Outrossim, à luz da sua particular metafísica, o Espiritismo vale-se do conceito filosófico de Deus, mas, nem por esse motivo, os Espíritos luminares vieram a reputá-Lo uma espécie de matéria ou um Ser de natureza concretamente apreensível.
Conseguintemente, para não ser apenas uma abstração existencial, o princípio inteligente sempre se manifesta pelo princípio material, na sua primordial função evolutiva de intelectualizar a matéria inerte após a vitalização33. Eis outra passagem34 em que se extrai expressa noção de Espírito como ser duplo, nas palavras de São Luís:
24. A bem dizer, a encarnação não tem limites nitidamente traçados, quando nos referimos ao envoltório que constitui o corpo do Espírito, tendo em vista que a materialidade diminui à proporção que o Espírito se purifica. Em certos mundos mais adiantados do que a Terra, o corpo já é menos compacto, menos pesado e menos grosseiro e, por conseguinte, menos sujeito a vicissitudes. Em grau mais avançado, é diáfano e quase fluídico. Vai-se desmaterializando de grau em grau e acaba por se confundir com o perispírito.
Clara está a referência ao Espírito como um ser duplo, pois, ao fim do parágrafo, não haveria sentido em que outro corpo, senão o denso, viesse a confundir-se com o perispírito. Dessa maneira, o envoltório denso do Espírito, suscetível de confundir-se com o corpo anímico, vai-se desmaterializando à proporção da evolução da individualidade, nos termos da definição da questão 76 de O Livro dos Espíritos. Igualmente, não se lê na passagem textual nenhuma alusão particular ao princípio inteligente em si, antes ao próprio ser pensante circunscrito e delineado pelo corpo espirítico, motivo por que, no início do entrecho, restou supressa a menção ao perispírito.
Logo, mesmo concomitantes e paralelos no ser espiritual, o princípio inteligente e o princípio material não se misturam, não se identificam causalmente, não se trocam um pelo outro, no âmbito de uma equívoca interpretação monista substancial. Malgrado nascida há 153 anos, a Doutrina Espírita, em que se contém a Terceira Revelação, continua uma grande desconhecida dos autoproclamados espíritas, cuja atividade se há voltado a fastidioso igrejismo, a controles meramente políticos, a coronelismo (in)disfarçado e a mistifório ideológico.
1 KARDEC, Allan. Falsos Irmãos e Amigos Inábeis. In: REVUE SPIRITE. Journal d’Études Psychologiques. Rio de Janeiro: FEB, 2004, p. 111.
2 KARDEC Allan. Polêmica Espírita. In: REVUE SPIRITE. Journal d’Études Psychologiques. Rio de Janeiro: FEB, 2004, p. 443.
3 KARDEC, Allan. A Gênese. 1. ed. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2009, itens 64‐67, cap. XV, pp. 449-453.
4 ROUSTAING, Jean‐Baptiste. Os Quatro Evangelhos. Revelação da Revelação. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1999, vol. 1, pp. 57-66.
5 Op. cit., p. 65.
6 PIRES, José Herculano. O Espírito e o O Tempo. Introdução antropólogica ao Espiritismo. 8. ed. São Paulo: Paidéia, 2005, pp. 134-136.
7 Monismo. In: ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
8 Vide por exemplo, pp. 144-149, op. cit..
9 Vide questão 25 de O Livro dos Espíritos, por exemplo.
10 FREIRE, Gilson. Arquitetura Cósmica. Dos mitos da criação à visão unitária do universo. 1. ed. Belo Horizonte: INEDE, 2006, vol. I, pp. 183-184.
11 Em francês: (...) qui lui-même a commencé par l’atome. Desse modo, o Espírito não começou por ser átomo. Ele começou pelo átomo, em uma acepção totalmente distinta e elisiva de qualquer interpretação monista. Uma coisa é afirmar o início do princípio inteligente pelo átomo, no bojo das elaborações evolutivas do princípio material; outra assaz distinta é atestar a identidade entre o espírito e o átomo. Logo, o princípio inteligente não foi átomo, mas começou por ele. Até alcançar-se a individualização espiritual, admite-se, desse modo, o ensaio do princípio inteligente universal no âmbito do princípio material.
12 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1. ed. Tradução de Júlio de Abreu Filho. São Paulo: Pensamento, s.d., p. 195.
13 INCONTRI, Dora. Para Entender Allan Kardec. 1. Ed. Bragança Paulista: Lachâtre, 2004, p. 127.
14 DAMASCENO, Júlio Couto e MARTINS, Jorge Damas. Para Entender Pietro Ubaldi. 1. ed. Niterói: Lachâtre, 2002, p. 14.
15 Vide questão 798 de O Livro dos Espíritos.
16 CURTI, Rino. Espiritismo e Conhecimento. 1. ed. São Paulo: LAKE, 1991, pp. 132-140.
17 Op. cit.
18 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1. ed. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2009, introdução, parte II, pp. 25-35.
19 KARDEC, Allan. A Gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. 1. ed. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2009, cap. XIV, item I, subitem 4, in fine, p. 351.
20 KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Introdução ao conhecimento do mundo invisível pelas manifestações dos espíritos. Resumo dos princípios da Doutrina Espírita e resposta às principais objeções. 1. ed. São Paulo: Cultrix, 2003, cap. II, p. 118.
21 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Guia dos médiuns e dos evocadores. 1. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009, cap. IV, p. 93.
22 Op. cit, p. 93.
23 ROUSTAING, Jean-Baptiste. Os Quatro Evangelhos. Revelação da Revelação. 9. Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1999, vol. I, p. 288.
24 Op. cit., p. 110.
25 Op. cit., p. 289.
26 Nessa direção, caminham Jorge Damas Martins e Júlio Couto Damasceno em Para Entender Pietro Ubaldi (op. cit., p. 85): “Este é o monismo ubaldiano. O espírito (α) se transforma em energia (β) e esta se condensa em matéria (γ) no processo evolutivo”. Ubaldi assim esclarece a denominada Grande Equação da Substância, segunda cuja expressão se relacionam espírito, energia e matéria como oriundos da mesma substância, através de modificações. Também se há de recordar a percepção de Gílson Freire em Arquitetura Cósmica (op. cit., vol. II, p. 588): “Assim, uma mesma superessência forma o espírito, a energia e a matéria, as três manifestações fenomênicas prototípicas do universo em que respiramos, estabelecendo‐se, em suas inter-relações dinâmicas, a unidade substancial da criação”. Monismo a mais não poder.
27 KARDEC, Allan. O Céu e O Inferno. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. 1. ed. Tradução de Evandro Noleto Bezerra.
28 KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Introdução ao conhecimento do mundo invisível pelas manifestações dos espíritos. Resumo dos princípios da Doutrina Espírita e resposta às principais objeções. 1. ed. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2003, cap. II, p. 118.
29 Idem.
30 Ibidem.
31 Vide item 55 de O Livro dos Médiuns.
32 Vide questão 71 de O Livro dos Espíritos, in fine.S
33 Vide questão 63 e seguintes de O Livro dos Espíritos.
34 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1. ed. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2009, p. 104.
Nota (Opinião Espírita): O artigo foi extraído e republicado com pequenas alterações de forma a partir dos seguintes originais disponibilizados pelo autor:
1. PATOLOGIAS CONCEITUAIS DO MOVIMENTO ESPÍRITA I
2. PATOLOGIAS CONCEITUAIS DO MOVIMENTO ESPÍRITA II
3. PATOLOGIAS CONCEITUAIS DO MOVIMENTO ESPÍRITA III
Fevereiro/2010