Nota do Editor: Nas décadas de 1850 e 1860 os espíritos anunciaram: "Os tempos marcados por Deus são chegados, ... nos quais grandes acontecimentos vão realizar-se para a regeneração da Humanidade.", "...reboará o trovão. Sede firmes!", "o mundo terreno vai elevar-se na hierarquia dos mundos." Algumas dessas comunicações nunca foram publicadas por Allan Kardec em vida, sendo isso feito
pelos seus sucessores, 21 anos após a sua morte,
com a publicação do livro Obras Póstumas, em 1890. Assim como é difícil precisar o momento exato de um anoitecer ou de um amanhecer, também é difícil precisar uma data exata para o início e o fim dessa transformação da Humanidade. Entre esses acontecimentos estavam previstas violentas convulsões sociais, que não tinham data exata para se realizarem. Mas pensamos que podemos arriscar, ao menos simbolicamente, marcar o início dessas convulsões no ano de 1914, com
a explosão da Primeira Guerra Mundial, passando pelo seu período mais negro durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, onde morriam assassinadas, em
média, mais de 23000 pessoas por dia nos seis anos que perdurou a guerra, e poderíamos igualmente arriscar (quem sabe precipitação nossa?) marcar o seu fim na reunificação do mundo após a queda
do Muro de Berlim, em 1989. Não estamos querendo dizer com isso que já vivemos o paraíso na Terra, longe disso, mas as disposições morais da Humanidade
se modificaram já sensivelmente.
Hoje, mesmo quando há guerras, toma-se geralmente o cuidado em preservar a população civil (há exceções), a crueldade foi proibida e quando eventualmente ocorre,
é punida como crimes contra a humanidade (relembrem do caso, por exemplo, dos prisioneiros iraquianos sendo maltratados por
soldados americanos, que foram imediatamente punidos), e vários
outros avanços decorrentes da reforma das instituições. Dizemos, portanto, que a tempestade passou,
mas que ainda resta uma chuva fina e que esperamos não se demore a dispersar.
Esse artigo de Kardec, publicado na Revista Espírita de out/1866, procura explicar o como e os "porquês" de a Humanidade precisar experimentar esse período de transformação por que passaria, período esse que também já havia sido previsto nos Evangelhos e pelos profetas antigos (ver notas no final do texto) e que representaria um divisor de águas entre o "Velho Mundo", que acaba, e o "Novo Mundo", melhor e mais justo, onde o bem predomina, que neste momento se levanta.
Os tempos marcados por Deus são chegados, dizem-nos de todos os lados, nos quais grandes acontecimentos vão realizar-se para a regeneração da Humanidade [1].
Em que sentido devem ser entendidas essas palavras proféticas? Para os incrédulos não têm a menor importância. Aos
seus olhos não passam da expressão de uma crença pueril sem fundamento. Para a maioria dos crentes elas têm algo de místico e
de sobrenatural, que lhes parece ser o precursor da perturbação das leis da Natureza. Estas duas interpretações são igualmente
errôneas: a primeira, por implicar na negação da Providência e porque os fatos realizados provam a veracidade dessas palavras; a
segunda, por não anunciar a perturbação das leis da Natureza, mas a sua realização. Procuremos-lhes, pois, o sentido mais racional.
Tudo é harmonia na obra da Criação, tudo revela uma previdência que não se desmente nem nas menores, nem nas
maiores coisas. Em primeiro lugar, devemos afastar toda idéia de capricho inconciliável com a sabedoria divina; em segundo lugar, se
nossa época está marcada pela realização de certas coisas, é que elas têm sua razão de ser na marcha geral do conjunto.
Isto posto, diremos que o nosso globo, como tudo o que existe, está submetido à lei do progresso. Progride fisicamente
pela transformação dos elementos que o compõem, e moralmente pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o
povoam. Esses dois progressos se seguem e marcham paralelamente, porque a perfeição da habitação está em relação
com o habitante. Fisicamente, o globo sofreu transformações, constatadas pela Ciência, e que sucessivamente o tornaram
habitável por seres cada vez mais aperfeiçoados; moralmente a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do
senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo tempo que se opera a melhoria do globo, sob o império das forças
materiais, os homens a isso concorrem pelos esforços de sua inteligência: saneiam regiões insalubres, tornam mais fáceis as
comunicações e a terra mais produtiva.
Esse duplo progresso se realiza de duas maneiras: uma lenta, gradual e insensível; outra por mudanças mais bruscas, em
cada uma das quais se opera um movimento ascensional mais rápido, que marca, por caracteres distintos, os períodos
progressivos da Humanidade. Esses movimentos, subordinados nos detalhes ao livre-arbítrio dos homens, são de certo modo fatais em
seu conjunto, porque estão submetidos a leis, como os que se operam na germinação, no crescimento e na maturação das plantas,
considerando-se que o objetivo da Humanidade é o progresso, não obstante a marcha retardatária de algumas individualidades. Eis por
que o movimento progressivo algumas vezes é parcial, isto é, limitado a uma raça ou a uma nação, outras vezes geral. O
progresso da Humanidade se efetua, pois, em virtude de uma lei. Ora, como todas as leis da Natureza são a obra eterna da sabedoria
e da presciência divinas, tudo quanto seja efeito dessas leis é o resultado da vontade de Deus, não de uma vontade acidental e
caprichosa, mas de uma vontade imutável. Então, quando a Humanidade está madura para transpor um degrau, pode-se dizer
que os tempos marcados por Deus são chegados, como se pode dizer também que em tal estação eles chegaram para a maturação
dos frutos e para a colheita.
Pelo fato de o movimento progressivo da Humanidade ser inevitável, porque está na Natureza, não se segue que Deus a
isso seja indiferente, e que, depois de ter estabelecido leis, tenha entrado em inação, deixando as coisas ir sozinhas. Suas leis são
eternas e imutáveis, sem dúvida, mas porque sua própria vontade é eterna e constante e seu pensamento anima todas as coisas sem
interrupção; seu pensamento, que tudo penetra, é a força inteligente e permanente que mantém tudo na harmonia; se esse
pensamento deixasse de agir um só instante, o Universo seria como um relógio sem o pêndulo regulador. Deus vela incessantemente
pela execução de suas leis, e os Espíritos que povoam o espaço são seus ministros encarregados dos detalhes, conforme as atribuições
relativas ao seu grau de adiantamento.
O Universo é, ao mesmo tempo, um mecanismo incomensurável, conduzido por um número não menos
incomensurável de inteligências, um imenso governo em que cada ser inteligente tem sua parte da ação, sob o olhar do soberano
Senhor, cuja vontade única mantém a unidade por toda parte. Sob o império desse vasto poder regulador, tudo se move, tudo funciona
numa ordem perfeita; o que nos parece perturbações são movimentos parciais e isolados, que só nos parecem irregulares
porque nossa visão é circunscrita. Se pudéssemos abarcar o seu conjunto, veríamos que essas são apenas aparentes e que se
harmonizam no todo.
A previsão dos movimentos progressivos da Humanidade nada tem de surpreendente para os seres
desmaterializados, que vêem o fim para onde tendem todas as coisas, alguns dos quais possuem o pensamento direto de Deus, e
que julgam, pelos movimentos parciais, o tempo no qual poderá realizar-se um movimento geral, como se julga previamente o
tempo necessário para uma árvore dar frutos, como os astrônomos calculam a época de um fenômeno astronômico pelo tempo
requerido por um astro para fazer a sua revolução.
Mas, certamente, nem todos os que anunciam tais fenômenos, os autores de almanaques que predizem os eclipses e
as marés, por exemplo, estão em condições de fazer os cálculos necessários. Não passam de ecos. Assim, há Espíritos secundários,
cuja vista é limitada, e que apenas repetem o que aos Espíritos superiores aprouve lhes revelar.
A Humanidade realizou até agora incontestáveis progressos. Por sua inteligência, os homens chegaram a resultados
jamais atingidos em relação às ciências, às artes e ao bem-estar material; resta-lhes ainda uma imensidão a realizar: é fazer reinar
entre si a caridade, a fraternidade e a solidariedade, para assegurar o seu bem-estar moral. Não o podiam com suas crenças, nem com
suas instituições antiquadas, resquícios de uma outra idade, boas numa certa época, suficientes para um estado transitório, mas que,
tendo dado o que comportavam, seriam hoje um ponto de parada. Tal uma criança estimulada por móbiles, impotentes quando ela
chega à idade madura. Já não é apenas o desenvolvimento da inteligência que é necessário aos homens, é a elevação do
sentimento e, para tanto, é preciso destruir tudo quanto neles pudesse excitar o egoísmo e o orgulho.
Tal o período em que agora vão entrar, e que marcará uma das fases principais da Humanidade. A fase que neste
momento se elabora é o complemento necessário do estado precedente, como a idade viril é o complemento da juventude; ela
podia, pois, ser prevista e predita por antecipação, e é por isto que se diz que os tempos marcados por Deus são chegados.
Neste tempo não se trata de uma mudança parcial, de uma renovação limitada a um país, a um povo, a uma raça; é um
movimento universal, que se opera no sentido do progresso moral. Uma nova ordem de coisas tende a se estabelecer e os homens que
a ela são mais opostos nela trabalham mau grado seu; a geração futura, desembaraçada das escórias do velho mundo e formada de
elementos mais depurados, achar-se-á animada de idéias e sentimentos completamente diversos da geração presente, que
desaparece a passos de gigante. O velho mundo estará morto e viverá na História, como hoje os tempos medievais, com seus
costumes bárbaros e suas crenças supersticiosas.
Aliás, cada um sabe que a ordem de coisas atual deixa a desejar. Depois de haver, de certo modo, esgotado o bem-estar
material, que é produto da inteligência, chega-se a compreender que o complemento desse bem-estar não pode estar senão no
desenvolvimento moral. Quanto mais se avança, mais se sente o que falta, sem, contudo, poder ainda o definir claramente: é o efeito
do trabalho íntimo que se opera para a regeneração; tem-se desejos, aspirações que são como o pressentimento de um estado melhor.
Mas uma mudança tão radical quanto a que se elabora não pode realizar-se sem comoção; há luta inevitável entre as idéias,
e quem diz luta, diz alternativa de sucesso e de revés. Entretanto, como as idéias novas são as do progresso e o progresso está nas leis
da Natureza, estas não deixam de triunfar sobre as idéias retrógradas. Desse conflito nascerão, forçosamente, perturbações temporárias, até que o terreno esteja livre dos obstáculos que se opõem à construção do novo edifício social. É, pois, da luta das
idéias que surgirão os graves acontecimentos anunciados, e não de cataclismos, ou catástrofes puramente materiais. Os cataclismos
gerais eram conseqüência do estado de formação da Terra; hoje não são mais as entranhas do globo que se agitam, são as da
Humanidade.
A Humanidade é um ser coletivo, no qual se operam as mesmas revoluções morais que em cada ser individual, mas com
esta diferença: umas se realizam de ano a ano, e as outras de século em século. Quem as seguir em suas evoluções através dos tempos
verá a vida das diversas raças marcada por períodos que dão a cada época uma fisionomia particular.
Ao lado dos movimentos parciais há um movimento geral, que dá impulso à Humanidade inteira; mas o progresso de
cada parte do conjunto é relativo ao seu grau de adiantamento. Tal seria uma família composta de vários filhos, dos quais o mais jovem
está no berço e o mais velho com dez anos, por exemplo. Em dez anos, o mais velho terá vinte e será um homem; o mais jovem terá
dez e, embora mais adiantado, será ainda uma criança; mas, por sua vez, se tornará homem. Dá-se o mesmo com as diversas frações da
Humanidade; os mais atrasados avançam, mas não atingem de um salto o nível dos mais adiantados.
Tornando-se adulta, a Humanidade tem novas necessidades, aspirações mais largas, mais elevadas; compreende o
vazio das idéias com que foi embalada, a insuficiência das instituições para a sua felicidade; não mais encontra no estado de
coisas as satisfações legítimas a que se sente chamada. Eis por que sacode as fraldas e se lança, impelida por uma força irresistível, para
as margens desconhecidas, à descoberta de novos horizontes menos limitados. E é no momento em que se encontra muito
confinada em sua esfera material, onde a vida intelectual transborda, onde se expande o sentimento da espiritualidade, que
homens, pretensos filósofos, esperam encher o vazio pelas doutrinas do niilismo e do materialismo! Estranha aberração! Esses
mesmos homens que pretendem empurrá-la para frente, esforçam-se por circunscrevê-la no estreito círculo da matéria, de onde aspira
a sair; fecham-lhe o aspecto da vida infinita, e lhe dizem, mostrando-lhe o túmulo: Nec plus ultra!
Como dissemos, a marcha progressiva da Humanidade se opera de duas maneiras: uma gradual, lenta, insensível, se se
consideram as épocas mais próximas, que se traduz por sucessivas melhoras nos costumes, nas leis, nos usos, e não se percebe senão
com o tempo, como as mudanças que as correntes de água trazem à superfície do globo; a outra, por um movimento relativamente
brusco, rápido, semelhante ao de uma torrente rompendo seus diques, que lhe faz transpor em alguns anos o espaço que teria
levado séculos a percorrer. É então um cataclismo moral que, em alguns instantes, devora as instituições do passado, e ao qual sucede
uma nova ordem de coisas, que se assenta pouco a pouco, à medida que a calma se restabelece e se torna definitiva.
Para quem vive bastante para abarcar os dois aspectos da nova fase, parece que um mundo novo saiu das ruínas do antigo;
o caráter, os costumes, os usos, tudo é mudado. É que, com efeito, homens novos, ou, melhor, regenerados, surgiram. As idéias
varridas pela geração que se extingue deram lugar a idéias novas, na geração que se ergue.
Foi a um desses períodos de transformação ou, se quiserem, de crescimento moral, que chegou a Humanidade. Da
adolescência passa à idade viril; o passado já não pode bastar às suas novas aspirações, às suas novas necessidades; não pode mais
ser conduzida pelos mesmos meios; não mais se permite ilusões e sortilégios: sua razão amadurecida exige alimentos mais
substanciais. O presente é por demais efêmero; sente que seu destino é mais vasto e que a vida corporal é muito restrita para a
encerrar toda inteira. Eis por que ela mergulha o olhar no passado e no futuro, a fim de aí descobrir o mistério de sua existência e
haurir uma segurança consoladora.
Quem quer que haja meditado sobre o Espiritismo e suas conseqüências e não o tenha circunscrito à produção de alguns
fenômenos, compreende que ele abre à Humanidade uma nova via e lhe desdobra os horizontes do infinito. Iniciando-os nos mistérios
do mundo invisível, mostra-lhe seu verdadeiro papel na Criação, papel perpetuamente ativo, tanto no estado espiritual quanto no
estado corporal. O homem não marcha mais às cegas: sabe de onde vem, para onde vai e por que está na Terra. O futuro se lhe mostra
em sua realidade, isento dos preconceitos da ignorância e da superstição; já não é uma vaga esperança: é uma verdade palpável,
tão certa para ele quanto a sucessão dos dias e das noites. Sabe que seu ser não está limitado a alguns instantes de uma existência, cuja
duração está submetida ao capricho do acaso; que a vida espiritual não é interrompida pela morte; que já viveu, que reviverá ainda e
que de tudo que adquire em perfeição pelo trabalho, nada fica perdido; encontra em suas existências anteriores a razão do que é
hoje, e do que hoje a si faz, pode concluir o que será um dia.
Com o pensamento de que a atividade e a cooperação individuais na obra geral da civilização são limitadas à vida
presente, que nada se foi e nada se será, que interessa ao homem o progresso ulterior da Humanidade? Que lhe importa que no futuro
os povos sejam mais bem governados, mais ditosos, mais esclarecidos, melhores uns para os outros? Uma vez que disso não
tira nenhum proveito, para ele esse progresso não está perdido? De que lhe serve trabalhar para os que vierem depois, se jamais os
deverá conhecer, se são seres novos que, eles também, pouco depois, entrarão no nada? Sob o império da negação do futuro
individual, tudo se reduz, forçosamente, às mesquinhas proporções do momento e da personalidade.
Mas, ao contrário, que amplitude dá ao pensamento do homem a certeza da perpetuidade de seu ser espiritual! que força,
que coragem, não haure ele contra as vicissitudes da vida material! Que de mais racional, de mais grandioso, de mais digno do Criador
que esta lei, segundo a qual a vida espiritual e a vida corporal não passam de dois modos de existência, que se alternam para a
realização do progresso! Que de mais justo e mais consolador que a idéia dos mesmos seres progredindo sem cessar, primeiro através
das gerações de um mesmo mundo e, depois, de mundo em mundo, até a perfeição, sem solução de continuidade! Assim, todas
as ações têm um objetivo, porquanto, trabalhando para todos, trabalha-se para si, e reciprocamente, de tal sorte que o progresso
individual e o progresso geral jamais são estéreis; aproveitam às gerações e às individualidades futuras, que outra coisa não são que
as gerações e as individualidades passadas, chegadas a um mais alto grau de adiantamento.
A vida espiritual é a vida normal e eterna do Espírito e a encarnação é apenas uma forma temporária de sua existência.
Salvo a vestimenta exterior, há, pois, identidade entre os encarnados e os desencarnados; são as mesmas individualidades
sob dois aspectos diversos, ora pertencendo ao mundo visível, ora ao mundo invisível, encontrando-se ora num, ora noutro,
concorrendo, num e noutro, para o mesmo objetivo, por meios apropriados à sua situação.
Desta lei decorre a da perpetuidade das relações entre os seres; a morte não os separa, não põe termo às suas relações
simpáticas e nem aos seus deveres recíprocos. Daí a solidariedade de todos para cada um, e de cada um para todos; daí, também, a
fraternidade. Os homens só viverão felizes na Terra quando esses dois sentimentos tiverem entrado em seus corações e em seus
costumes, porque, então, a eles sujeitarão suas leis e suas instituições. Será este um dos principais resultados da
transformação que se opera.
Mas, como conciliar os deveres da solidariedade e da fraternidade com a crença de que a morte torna os homens para
sempre estranhos uns aos outros? Pela lei da perpetuidade das relações que ligam todos os seres, o Espiritismo funda esse duplo
princípio sobre as próprias leis da Natureza; disto faz não só um dever, mas uma necessidade. Pela lei da pluralidade das existências
o homem se liga ao que está feito e ao que será feito, aos homens do passado e aos do futuro; não mais poderá dizer que nada tem de
comum com os que morrem, pois uns e outros se encontram incessantemente, neste e no outro mundo, para subirem juntos a
escada do progresso e se prestarem mútuo apoio. A fraternidade não está mais circunscrita a alguns indivíduos, que o acaso reúne
durante uma vida efêmera; é perpétua como a vida do Espírito, universal como a Humanidade, que constitui uma grande família,
cujos membros, em sua totalidade, são solidários uns com os outros, seja qual for a época em que tenham vivido.
Tais são as idéias que ressaltam do Espiritismo, e que ele suscitará entre todos os homens, quando estiver universalmente
espalhado, compreendido, ensinado e praticado. Com o Espiritismo a fraternidade, sinônimo da caridade pregada pelo Cristo, não é
mais uma palavra vã; tem a sua razão de ser. Do sentimento da fraternidade nasce o da reciprocidade e dos deveres sociais, de
homem a homem, de povo a povo, de raça a raça. Destes dois sentimentos bem compreendidos sairão, forçosamente, as mais
proveitosas instituições para o bem-estar de todos.
A fraternidade deve ser a pedra angular da nova ordem social. Mas não haverá fraternidade real, sólida e efetiva se não for
apoiada em base inabalável; esta base é a fé; não a fé em tais ou quais dogmas particulares, que mudam com os tempos e os povos
e se atiram pedras, porque, anatematizando-se, entretêm o antagonismo; mas a fé nos princípios fundamentais que todo o
mundo pode aceitar: Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinido, a perpetuidade das relações entre os seres.
Quando todos os homens estiverem convictos de que Deus é o mesmo para todos, que esse Deus, soberanamente justo e bom,
nada pode querer de injusto, que o mal vem dos homens e não dele, olhar-se-ão como filhos de um mesmo pai e se darão as mãos. É
esta fé que dá o Espiritismo e que, de agora em diante, será o pivô sobre o qual se moverá o gênero humano, sejam quais forem sua
maneira de adorar e suas crenças particulares, que o Espiritismo respeita, mas das quais não deve se ocupar. Somente desta fé pode
sair o verdadeiro progresso moral, porque só ela dá uma sanção lógica aos direitos legítimos e aos deveres; sem ela, o direito é o que
é dado pela força; o dever, um código humano imposto pela violência. Sem ela que é o homem? um pouco de matéria que se
dissolve, um ser efêmero que apenas passa; o próprio gênio não é senão uma centelha que brilha um instante, para extinguir-se para
sempre; por certo não há nisto muito para o erguer aos seus próprios olhos. Com tal pensamento, onde estão, realmente, os
direitos e os deveres? qual o objetivo do progresso? Somente esta fé faz o homem sentir sua dignidade pela perpetuidade e pela
progressão de seu ser, não num futuro mesquinho e circunscrito à personalidade, mas grandioso e esplêndido; seu pensamento o
eleva acima da Terra; sente-se crescer, pensando que tem seu papel no Universo, e que esse Universo é o seu domínio, que um dia
poderá percorrer, e que a morte não fará dele uma nulidade, ou um ser inútil a si mesmo e aos outros.
O progresso intelectual realizado até hoje nas mais vastas proporções é um grande passo, e marca a primeira fase da
Humanidade, mas, apenas ele, é impotente para a regenerar. Enquanto o homem for dominado pelo orgulho e pelo egoísmo,
utilizará sua inteligência e seus conhecimentos em benefício de suas paixões e de seus interesses pessoais, razão por que os aplica no
aperfeiçoamento dos meios de prejudicar os outros e de se destruírem mutuamente. Só o progresso moral pode assegurar a
felicidade dos homens na Terra, pondo um freio nas más paixões; somente ele pode fazer reinarem a concórdia, a paz, a fraternidade.
É ele que derrubará a barreira dos povos, que fará caírem os preconceitos de casta e calar os antagonismos de seitas, ensinando
os homens a se olharem como irmãos, chamados a se ajudarem mutuamente, e não a viverem uns à custa dos outros. É ainda o
progresso moral, aqui secundado pelo progresso da inteligência, que confundirá os homens numa mesma crença, estabelecida sobre
verdades eternas, não sujeitas à discussão e, por isto mesmo, por todos aceitas. A unidade de crença será o laço mais poderoso, o
mais sólido fundamento da fraternidade universal, em todos os tempos quebrada pelos antagonismos religiosos, que dividem os
povos e as famílias, que fazem ver no próximo inimigos que é preciso fugir, combater, exterminar, em vez de irmãos que devem
ser amados.
Tal estado de coisas supõe uma mudança radical no sentimento das massas, um progresso geral que não poderia
realizar-se senão saindo do círculo das idéias estreitas e terra-aterra, que fomentam o egoísmo. Em diversas épocas, homens de
escol procuraram impelir a Humanidade nessa via; mas, ainda muito jovem, a Humanidade ficou surda, e seus ensinamentos
foram como a boa semente caída sobre a pedra. Hoje ela está madura para lançar suas vistas mais alto do que o fez, a fim de
assimilar idéias mais largas e compreender o que não havia compreendido. A geração que desaparece levará consigo os seus
preconceitos e os seus erros; a geração que surge, temperada numa fonte mais depurada, imbuída de idéias mais justas, imprimirá ao
mundo o movimento ascensional, no sentido do progresso moral, que deve marcar a nova fase da Humanidade. Esta fase já se revela
por sinais inequívocos, por tentativas de reformas úteis, pelas idéias grandes e generosas que vêm à tona e que começam a encontrar
eco. É assim que se vê fundar-se uma porção de instituições protetoras, civilizadoras e emancipadoras, sob o impulso e pela
iniciativa de homens evidentemente predestinados à obra da regeneração; que as leis penais diariamente se impregnam de um
sentimento mais humano. Os preconceitos de raça se enfraquecem, os povos começam a olhar-se como membros de uma grande
família; pela uniformidade e facilidade dos meios de transação, suprimem as barreiras que os dividem de todas as partes do mundo,
reúnem-se em comícios universais para os torneios pacíficos da inteligência. Mas faltam a essas reformas uma base para se
desenvolverem, para se completarem e se consolidarem, uma predisposição moral mais geral para frutificarem e se fazerem
aceitas pelas massas. Isto não é menos um sinal característico do tempo, o prelúdio do que se realizará em mais vasta escala, à
medida que o terreno se tornar mais propício.
Um sinal não menos característico do período em que entramos, é a reação evidente que se opera no sentido das idéias
espiritualistas, uma repulsa instintiva contra as idéias materialistas, cujos representantes se tornam menos numerosos ou menos
absolutos. O espírito de incredulidade que se havia apoderado das massas, ignorantes ou esclarecidas, e as tinha feito repelir, com a
forma, o próprio fundo de toda crença, parece ter sido um sono, ao sair do qual se experimenta a necessidade de respirar um ar mais
vivificante. Involuntariamente, onde se fez o vazio procura-se algo, um ponto de apoio, uma esperança.
Neste grande movimento regenerador, o Espiritismo tem um papel considerável, não o Espiritismo ridículo, inventado
pela crítica zombeteira, mas o Espiritismo filosófico, tal qual o compreende quem quer que se dê ao trabalho de procurar a
amêndoa dentro da casca. Pelas provas que ele traz das verdades fundamentais, preenche o vazio que a incredulidade faz nas idéias
e nas crenças; pela certeza que dá de um futuro conforme à justiça de Deus e que a mais severa razão pode admitir, ele tempera as
amarguras da vida e previne os funestos efeitos do desespero. Tornando conhecidas novas leis da Natureza, o Espiritismo dá a
chave de fenômenos incompreendidos e problemas até agora insolúveis, e mata, ao mesmo tempo, a incredulidade e a
superstição. Para ele não há sobrenatural nem maravilhoso; tudo se realiza no mundo em virtude de leis imutáveis. Longe de substituir
um exclusivismo por outro, arvora-se como campeão absoluto da liberdade de consciência; combate o fanatismo sob todas as formas
e o corta pela raiz, proclamando a salvação para todos os homens de bem, e a possibilidade, para os mais imperfeitos, de chegarem,
por seus esforços, pela expiação e pela reparação, à perfeição, pois só ela conduz à suprema felicidade. Ao invés de desencorajar o
fraco, encoraja-o, mostrando-lhe o fim que pode atingir.
Não diz: Fora do Espiritismo não há salvação, mas, com o Cristo: Fora da caridade não há salvação, princípio de união, de
tolerância, que congraçará os homens num sentimento comum de fraternidade, em vez de os dividir em seitas inimigas. Por este outro
princípio: Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade, destrói o império da fé cega, que aniquila a razão, da obediência passiva, que embrutece; emancipa a inteligência do homem e levanta o seu moral.
Conseqüente consigo mesmo, não se impõe; diz o que é, o que quer, o que dá e espera que a ele venham livremente,
voluntariamente; quer ser aceito pela razão, e não pela força. Respeita todas as crenças sinceras e não combate senão a
incredulidade, o egoísmo, o orgulho e a hipocrisia, que são as chagas da sociedade e os mais sérios obstáculos ao progresso moral; mas
não lança o anátema a ninguém, nem mesmo aos seus inimigos, porque está convencido de que o caminho do bem está aberto aos
mais imperfeitos e que, mais cedo ou mais tarde, nele entrarão.
Se imaginarmos a maioria dos homens imbuídos desses sentimentos, facilmente poderemos figurar as modificações que
trarão às relações sociais: caridade, fraternidade, benevolência para todos, tolerância para todas as crenças, tal será sua divisa. É o fim
para o qual, evidentemente, tende a Humanidade, o objeto de suas aspirações, de seus desejos, sem que se dê muita conta dos meios
de as realizar; ela ensaia, hesita, mas é detida pelas resistências ativas ou pela força da inércia dos preconceitos, das crenças estacionárias e refratárias ao progresso. São essas resistências que devem ser vencidas e isto será a obra da nova geração. Se seguirmos o curso atual das coisas, reconheceremos que tudo parece predestinado a lhe abrir a estrada; ela terá por si o duplo poder do número e das
idéias, além da experiência do passado.
Assim, a nova geração marchará para a realização de todas as idéias humanitárias compatíveis com o grau de
adiantamento a que tiver chegado. O Espiritismo, marchando para o mesmo objetivo e realizando seus planos, eles se encontrarão no
mesmo terreno, não como concorrentes, mas como auxiliares, prestando-se mútuo apoio. Os homens de progresso encontrarão
nas idéias espíritas uma poderosa alavanca e o Espiritismo encontrará nos homens novos espíritos inteiramente dispostos a
acolhê-lo. Nesse estado de coisas, que poderão fazer os que quisessem opor obstáculos?
Não é o Espiritismo que cria a renovação social, é a maturidade da Humanidade que faz desta renovação uma
necessidade. Por seu poder moralizador, por suas tendências progressivas, pela amplidão de suas vistas, pela generalidade das
questões que abrange, o Espiritismo é, mais que qualquer outra doutrina, apto a secundar o movimento regenerador, razão por que
é seu contemporâneo. Veio no momento em que podia ser útil, porque também para ele os tempos são chegados; mais cedo, teria
encontrado obstáculos intransponíveis; inevitavelmente teria sucumbido, porque os homens, satisfeitos com o que tinham, ainda
não sentiam a necessidade do que ele traz. Hoje, nascido com o movimento das idéias que fermentam, encontra o terreno
preparado para recebê-lo. Cansados da dúvida e da incerteza, apavorados com o abismo que se abre diante deles, os espíritos o
acolhem como uma tábua de salvação e uma suprema consolação.
Dizendo que a Humanidade está madura para a regeneração, isto não quer dizer que todos os indivíduos o sejam no
mesmo grau, mas muitos têm, por intuição, o germe das idéias novas, que as circunstâncias farão eclodir; então eles se mostrarão
mais adiantados do que se pensava, e seguirão com ardor o impulso da maioria.
Há, entretanto, os que são refratários por natureza, mesmo entre os mais inteligentes e que, certamente, jamais se ligarão, pelo menos nesta existência, uns de boa-fé, por convicção, outros por interesse. Aqueles cujos interesses materiais estão
ligados ao estado presente das coisas, e que não são bastante adiantados para dele fazer abnegação, que o bem geral toca menos
que o seu bem pessoal, não podem ver sem apreensão o menor movimento reformador; para eles a verdade é uma questão
secundária ou, melhor dito, a verdade está toda inteira no que não lhes causa nenhuma perturbação; aos seus olhos, todas as idéias
progressivas são subversivas, razão por que lhes votam um ódio implacável e lhes fazem uma guerra encarniçada. Muito inteligentes
para não ver no Espiritismo um auxiliar dessas idéias e os elementos da transformação, que temem porque não se sentem à
sua altura, esforçam-se para o abater; se o julgassem sem valor e sem alcance, com ele não se preocupariam. Aliás já o dissemos:
“Quanto maior é uma idéia, mais adversários encontra, e pode medir-se a sua importância pela violência dos ataques de que ela é
objeto.”
O número dos retardatários sem dúvida ainda é grande, mas que podem contra a onda que sobe, senão lançar-lhe algumas
pedras? Essa onda é a geração que surge, enquanto eles desaparecem com a geração que vai a largos passos. Até lá
defenderão o terreno palmo a palmo. Há, pois, uma luta inevitável, mas desigual, porque é a do passado decrépito, que cai em farrapos,
contra o futuro juvenil; da estagnação contra o progresso; da criatura contra a vontade de Deus, porque os tempos por ele
marcados são chegados.
Nota – As reflexões que precedem são o desenvolvimento das instruções dadas pelos Espíritos sobre o
mesmo assunto, num grande número de comunicações, seja a nós, seja a outras pessoas. A que publicamos a seguir é o resumo de
várias conversas que tivemos, através de dois dos nossos médiuns habituais, em estado de sonambulismo extático, e que, ao
despertarem, não conservam nenhuma lembrança. Coordenamos metodicamente as idéias, a fim de lhes dar mais seqüência, suprimindo
todos os detalhes e acessórios supérfluos. Os pensamentos foram reproduzidos rigorosamente, e as palavras também são textuais, tanto
quanto foi possível recolhê-las pela audição.
(Paris, abril de 1866 – Médium: Srs. M. e T., em sonambulismo)
Os acontecimentos se precipitam com rapidez, de modo que não vos dizemos mais, como outrora: “Os tempos estão
próximos”; agora dizemos: “Os tempos são chegados.”
Por estas palavras não entendais um novo dilúvio, nem um cataclismo, nem uma perturbação geral. Convulsões parciais do
globo ocorreram em todas as épocas e ainda se produzem, porque inerentes à sua constituição, mas são sinais dos tempos.
Entretanto, tudo quanto está predito no Evangelho deve realizar-se e se cumpre neste momento, como reconhecereis
mais tarde [2]. Mas não tomeis os sinais anunciados senão como figuras, dos quais é preciso captar o espírito, e não a letra. Todas as Escrituras encerram grandes verdades sob o véu da alegoria, e é porque os exegetas se apegaram à letra que se extraviaram.
Faltou-lhes a chave para a compreensão de seu verdadeiro sentido. Esta chave está nas descobertas da Ciência e nas leis do mundo
invisível, que o Espiritismo vos vem revelar. Doravante, com o auxílio desses novos conhecimentos, o que era obscuro torna-se
claro e inteligível.
Tudo segue a ordem natural das coisas e as leis imutáveis de Deus não serão alteradas. Assim, não vereis milagres,
nem prodígios, nem nada de sobrenatural, no sentido vulgar ligado a estas palavras.
Não olheis o céu para aí buscar sinais precursores, pois não os vereis e os que vo-los anunciam vos enganarão; mas olhai
em torno de vós, entre os homens; é aí que os encontrareis.
Não sentis como um vento que sopra na Terra e agita todos os Espíritos? O mundo está à espera e como tomado por um
vago pressentimento à aproximação da tempestade.
Contudo, não acrediteis no fim do mundo material; a Terra progrediu desde a sua transformação; deve progredir ainda, e
não ser destruída. Mas a Humanidade chegou a um de seus períodos de transformação e a Terra vai elevar-se na hierarquia dos
mundos.
Não é, pois, o fim do mundo material que se prepara, mas o fim do mundo moral; é o velho mundo, o mundo dos
preconceitos, do egoísmo, do orgulho e do fanatismo que se desmorona; cada dia leva consigo os seus destroços. Tudo acabará
para ele com a geração que se vai, e a geração nova erguerá o novo edifício que as gerações seguintes consolidarão e completarão.
De mundo de expiação, a Terra está fadada a tornar-se um dia um mundo feliz, e nela habitar será uma recompensa, ao
invés de uma punição. O reinado do bem aí deve suceder o do mal.
Para que os homens sejam felizes na Terra, é necessário que esta só seja povoada de Espíritos bons, encarnados e
desencarnados, que não quererão senão o bem. Sendo chegado esse tempo, uma grande emigração se realiza neste momento entre
os que a habitam; os que fazem o mal pelo mal e não são tocados pelo sentimento do bem por não serem dignos da Terra
transformada, dela serão excluídos, porque aí trariam novamente a perturbação e a confusão e seriam um obstáculo ao progresso. Irão
expiar seu endurecimento nos mundos inferiores, para onde levarão os conhecimentos adquiridos e terão por missão fazê-los
progredir. Serão substituídos na Terra por Espíritos melhores, que farão reinar entre eles a justiça, a paz e a fraternidade.
Já dissemos que a Terra não deve ser transformada por um cataclismo, que aniquilaria subitamente uma geração. A geração
atual desaparecerá gradualmente, e a nova a sucederá, sem que nada seja mudado na ordem natural das coisas. Tudo se passará, pois,
exteriormente, como de hábito, com uma única diferença, mas esta diferença é capital: uma parte dos Espíritos que aí se encarnavam
não mais encarnarão. Numa criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e devotado ao mal que tivesse encarnado, será um
Espírito mais adiantado e devotado ao bem. Trata-se, pois, muito menos de uma nova geração corporal que de uma nova geração de
Espíritos. Assim, os que esperavam ver a transformação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos ficarão decepcionados.
A época atual é de transição; os elementos das duas gerações se confundem. Colocados em ponto intermediário,
assistis à partida de uma e à chegada da outra, e cada um já se assinala no mundo pelos caracteres que lhes são próprios.
As duas gerações que sucedem uma à outra têm idéias e pontos de vista opostos. Pela natureza das disposições morais,
mas, sobretudo, das disposições intuitivas e inatas, é fácil distinguir a qual das duas pertence cada indivíduo.
Devendo fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por uma inteligência e uma razão geralmente
precoces, aliadas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é sinal indubitável de certo grau de progresso
anterior. Não será composta exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas daqueles que, tendo já progredido,
estão predispostos a assimilar todas as idéias progressivas, e aptos a secundar o movimento regenerador.
Ao contrário, o que distingue os Espíritos atrasados é, primeiro, a revolta contra Deus pela negação da Providência e de
todo poder superior à Humanidade; depois, a propensão instintiva às paixões degradantes, aos sentimentos antifraternos do egoísmo,
do orgulho, do ódio, do ciúme, da cupidez, enfim, a predominância do apego a tudo o que é material.
Tais os vícios de que a Terra deve ser expurgada pelo afastamento dos que se recusam a emendar-se, porque são
incompatíveis com o reinado da fraternidade e porque os homens de bem sempre sofrerão com o seu contato. A Terra ficará livre
deles e os homens marcharão sem entraves para o futuro melhor, que lhes está reservado aqui, como prêmio por seus esforços e por
sua perseverança, esperando que uma depuração ainda mais completa lhes abra a entrada dos mundos superiores.
Por esta emigração de Espíritos não se deve entender que todos os Espíritos retardatários serão expulsos da Terra e
relegados a mundos inferiores. Muitos, ao contrário, a ela voltarão, porque muitos cederam ao arrastamento das circunstâncias e do
exemplo; neles a casca era pior que a essência. Uma vez subtraídos à influência da matéria e dos preconceitos do mundo corporal, a
maioria verá as coisas de maneira completamente diferente do que quando vivos, do que tendes numerosos exemplos. Nisto são
ajudados pelos Espíritos benevolentes, que por eles se interessam e que se desvelam em os esclarecer e em lhes mostrar o falso
caminho que seguiram. Por vossas preces e exortações, vós mesmos podeis contribuir para sua melhoria, porque há
solidariedade perpétua entre os mortos e os vivos.
Aqueles, pois, poderão voltar, com o que serão felizes, pois isto será uma recompensa. Que importa o que tiverem sido ou
feito, se forem animados de melhores sentimentos! Longe de serem hostis à sociedade e ao progresso, serão auxiliares úteis, porque
pertencerão à nova geração.
Assim, só haverá uma exclusão definitiva para os Espíritos rebeldes por natureza, aqueles que o orgulho e o egoísmo,
mais que a ignorância, tornam-se surdos à voz do bem e da razão. Mas, mesmo estes não estão votados a uma inferioridade perpétua,
e dia virá em que repudiarão o seu passado e abrirão os olhos à luz.
Orai, pois, por esses endurecidos, a fim de que se emendem enquanto é tempo, pois o dia da expiação está próximo.
Infelizmente, por desconhecer a voz de Deus, a maioria persistirá em sua cegueira e sua resistência marcará o fim de seu
reino por lutas terríveis. Em seu desvario, eles próprios cavarão a sua ruína; impelirão à destruição, que engendrará uma porção de
flagelos e calamidades, de sorte que, sem o querer, apressarão o advento da era da renovação.
E como se a destruição não marchasse bastante depressa, ver-se-ão os suicídios multiplicando-se em proporção
nunca vista, até entre as crianças. A loucura jamais terá ferido maior número de homens que, mesmo antes da morte, serão riscados do
número dos vivos. São estes os verdadeiros sinais dos tempos. E tudo isto se realizará pelo encadeamento das circunstâncias, assim
como dissemos, sem que em nada sejam derrogadas as leis da Natureza.
Todavia, através da nuvem sombria que vos envolve, e em cujo seio brame a tempestade, já vedes surgirem os primeiros
raios da era nova! A fraternidade assenta os seus fundamentos em todos os pontos do globo e os povos se estendem as mãos; a
barbárie se familiariza ao contato da civilização; os preconceitos de raças e de seitas, que derramaram rios de sangue, se extinguem; o
fanatismo e a intolerância perdem terreno, enquanto a liberdade de
consciência introduz-se nos costumes e se torna um direito [3]. Por
toda parte fermentam as idéias; vê-se o mal e experimentam-se os
remédios, mas muitos marcham sem bússola e se perdem nas
utopias. O mundo está num imenso processo de gestação, que
durará um século. Nesse trabalho, ainda confuso, vê-se, no entanto,
dominar uma tendência para um objetivo: o da unidade e da
uniformidade que predispõem à fraternização.
São ainda sinais do tempo. Mas, enquanto os outros são
os da agonia do passado, estes últimos são os primeiros vagidos da
criança que nasce, os precursores da aurora que o próximo século
verá levantar-se, porque, então, a nova geração estará em toda a sua
força. Tanto a fisionomia do século dezenove difere da do século
dezoito, sob certos pontos de vista, quanto a do século vinte será
diferente da do dezenove, sob outros pontos de vista.
Um dos caracteres distintivos da nova geração será a fé
inata; não a fé exclusiva e cega, que divide os homens, mas a fé
raciocinada, que esclarece e fortifica, que os une e os confunde
num comum sentimento de amor a Deus e ao próximo. Com a
geração que se extingue desaparecerão os últimos vestígios da
incredulidade e do fanatismo, igualmente contrários ao progresso
moral e social.
O Espiritismo é o caminho que conduz à renovação,
porque destrói os dois maiores obstáculos que a ela se opõem: a
incredulidade e o fanatismo. Dá uma fé sólida e esclarecida;
desenvolve todos os sentimentos e todas as idéias que
correspondem às vistas da nova geração. Por isto é como que inato
e em estado de intuição no coração de seus representantes. A era
nova vê-lo-á, pois, crescer e prosperar pela força mesma das coisas.
Tornar-se-á a base de todas as crenças, o ponto de apoio de todas
as instituições.
Mas, daqui até lá, quantas lutas terá ainda de sustentar
contra os seus dois maiores inimigos: a incredulidade e o fanatismo,
que, coisa bizarra, se dão as mãos para o abater! Eles pressentem
seu futuro e sua ruína, razão por que o temem, pois já o vêem
plantar, sobre as ruínas do velho mundo egoísta, a bandeira que
deve unir todos os povos. Na divina máxima: Fora da caridade não há salvação, lêem sua própria condenação, porque é o símbolo da
nova aliança fraternal proclamada pelo Cristo [4].Ela se lhes mostra
como as palavras fatais do festim de Baltazar [5]. E, contudo, deviam
bendizer esta máxima, porque os garante contra todas as represálias
da parte dos que perseguem. Mas não, uma força cega os impele a
rejeitar a única coisa que os poderia salvar!
Que poderão eles contra o ascendente da opinião que
os repudia? O Espiritismo sairá triunfante da luta, não o duvideis,
porque, estando nas leis da Natureza é, por isto mesmo,
imperecível. Vede por que multidão de meios a idéia se espalha e
penetra em toda parte; crede bem que esses meios não são
fortuitos, mas providenciais; aquilo que, à primeira vista, pareceria
dever prejudicá-lo, é precisamente o que ajuda a sua propagação.
Logo verá surgirem campeões altamente reconhecidos
entre os homens mais considerados e mais acreditados, que o
apoiarão com a autoridade de seu nome e de seu exemplo, e
imporão silêncio aos seus detratores, porque não ousarão tratá-los
de loucos. Esses homens o estudam no silêncio e se mostrarão
quando chegar o momento propício. Até lá, convém que se
mantenham afastados.
Logo também vereis as artes aí beber, como numa
fonte fecunda, e traduzir seus pensamentos e os horizontes que
descobre pela pintura, a música, a poesia e a literatura. Já vos foi
dito que haveria um dia a arte espírita, como houve a arte pagã e a
arte cristã, e é uma grande verdade, porque os maiores gênios nele
se inspirarão. Em breve vereis os seus primeiros esboços, e mais
tarde ele ocupará o lugar que deve ter.
Espíritas, o futuro é vosso e de todos os homens de
coração e devotamento. Não vos assusteis com os obstáculos, pois
nenhum deles poderá entravar os desígnios da Providência.
Trabalhai sem descanso e agradecei a Deus por vos ter
colocado na vanguarda da nova falange. É um posto de honra
que vós mesmos pedistes, e do qual vos deveis tornar dignos
por vossa coragem, perseverança e devotamento. Ditosos os que
sucumbirem nesta luta contra a força; mas a vergonha será, no
mundo dos Espíritos, para os que sucumbirem pela fraqueza ou
pela pusilanimidade. Aliás, as lutas são necessárias para fortificar a
alma; o contato do mal faz apreciar melhor as vantagens do bem.
Sem as lutas que estimulam as faculdades, o Espírito deixar-se-ia
arrastar por uma indiferença funesta ao seu adiantamento. As lutas
contra os elementos desenvolvem as forças físicas e a inteligência;
as lutas contra o mal desenvolvem as forças morais.
Observações – 1o – A maneira pela qual se opera a
transformação é muito simples e, como se vê, é toda moral e em
nada se afasta das leis da Natureza. Por que, então, os incrédulos
repelem essas idéias, já que nada têm de sobrenatural? É que,
segundo eles, a lei de vitalidade cessa com a morte do corpo, ao
passo que para nós ela prossegue sem interrupção; eles restringem
sua ação e nós a estendemos. Eis por que dizemos que os
fenômenos da vida espiritual não saem das leis da Natureza. Para
eles o sobrenatural começa onde acaba a apreciação pelos sentidos.
2o – Quer os Espíritos da nova geração sejam novos
Espíritos melhores, quer os antigos Espíritos melhorados, o
resultado é o mesmo. Desde o instante que trazem melhores
disposições, é sempre uma renovação. Os Espíritos encarnados
formam, assim, duas categorias, conforme suas disposições
naturais: de uma parte, os Espíritos retardatários que partem; de
outra, os Espíritos progressistas que chegam. O estado dos
costumes e da sociedade estará, pois, num povo, numa raça ou no
mundo inteiro, na razão do das duas categorias que tiver a
preponderância.
Para simplificar a questão, consideremos um povo, num
grau qualquer de adiantamento, e composto de vinte milhões de
almas, por exemplo. Fazendo-se a renovação dos Espíritos à
medida das extinções, isoladas ou em massa, necessariamente
houve um momento em que a geração dos Espíritos retardatários
ultrapassava em número a dos Espíritos progressistas, que apenas
contavam raros representantes sem influência, e cujos esforços
para fazer predominar o bem e as idéias progressistas estavam
paralisados. Ora, partindo uns e chegando outros, após um dado
tempo as duas forças se equilibram e sua influência se
contrabalança. Mais tarde, os recém-chegados são maioria e sua
influência torna-se preponderante, conquanto ainda entravada pela
dos primeiros; estes, continuando a diminuir, enquanto os outros se
multiplicam, acabarão por desaparecer. Chegará, então, o momento
em que a influência da nova geração será exclusiva.
Assistimos a esta transformação, ao conflito que resulta
da luta das idéias contrárias, que procuram implantar-se. Umas
marcham com a bandeira do passado, outras com a do futuro. Se se
examinar o estado atual do mundo, reconhecer-se-á que, tomada
em seu conjunto, a Humanidade terrestre ainda está longe do
ponto intermediário, em que as forças se contrabalançam; que os
povos, considerados isoladamente, estão a uma grande distância
uns dos outros, nesta escada; que alguns alcançam este ponto, mas
nenhum ainda o ultrapassou. Aliás, a distância que o separa dos
pontos extremos está longe de ser igual em duração, e uma vez
transposto o limite, o novo caminho será percorrido com tanto
mais rapidez, quanto uma imensidão de circunstâncias o virão
aplainar.
Assim se realiza a transformação da Humanidade. Sem
a emigração, isto é, sem a partida dos Espíritos retardatários, que
não devem voltar, ou que só voltarão depois de se terem
melhorado, nem por isto a Humanidade terrena ficará
indefinidamente estacionária, porque os Espíritos mais atrasados
por sua vez progridem; mas, teriam sido precisos séculos, talvez
milhares de anos, para atingir o resultado que meio século bastará
para realizar.
Uma comparação vulgar fará se compreenda melhor
ainda o que se passa nessa circunstância. Suponhamos um
regimento, em sua grande maioria composto de homens
turbulentos e indisciplinados: estes provocarão incessantes
desordens, que a severidade da lei penal muitas vezes terá
dificuldade em reprimir. Esses homens são os mais fortes, porque
mais numerosos; sustentam-se, encorajam-se e se estimulam pelo
exemplo. Os poucos bons não têm influência; seus conselhos são
desprezados; são ultrajados, maltratados pelos outros e sofrem este
contato. Não é a imagem da sociedade atual?
Imaginemos que tais homens sejam retirados do
regimento, um a um, cem a cem, e substituídos por igual número
de bons soldados, mesmo pelos que tiverem sido expulsos, mas que
se tenham emendado seriamente: ao cabo de algum tempo ter-se-á
sempre o mesmo regimento, mas transformado; a boa ordem nele
terá sucedido a desordem. Dar-se-á o mesmo com a Humanidade
regenerada.
As grandes partidas coletivas não apenas terão como
objetivo ativar as saídas, mas transformar mais rapidamente o
espírito da massa, desembaraçando-a das más influências, e dar
maior ascendente às idéias novas.
Eis por que muitos partem, a despeito de suas
imperfeições, a fim de se retemperarem numa fonte mais pura,
porque estão maduros para esta transformação. Se tivessem ficado
no mesmo meio e sob as mesmas influências, teriam persistido em
suas opiniões e em sua maneira de ver as coisas. Basta uma estada
no mundo dos Espíritos para lhes abrir os olhos, porque aí vêem o
que não podiam ver na Terra. O incrédulo, o fanático, o absolutista
poderão, assim, voltar com idéias inatas de fé, de tolerância e de
liberdade. Em seu regresso, encontrarão as coisas mudadas e
sofrerão o ascendente do novo meio onde nascerem. Em vez de
fazer oposição às idéias novas, serão seus auxiliares.
Assim, a regeneração da Humanidade não necessita
absolutamente da renovação integral dos Espíritos: basta uma
modificação em suas disposições morais. Esta modificação se
opera em todos os que a isto forem predispostos, quando
subtraídos à influência perniciosa do mundo. Nem sempre os que
voltarem serão outros Espíritos, mas, muitas vezes, os mesmos
Espíritos, pensando e sentindo diversamente.
Quando essa melhora é isolada e individual, passa
desapercebida e não tem influência ostensiva no mundo. Outro
será o efeito, quando operada simultaneamente em grandes massas,
porque, então, conforme as proporções, em uma geração as idéias
de um povo ou de uma raça poderão ser modificadas
profundamente.
É o que se nota quase sempre depois dos grandes
abalos que dizimam as populações. Os flagelos destruidores só
destroem o corpo, mas não atingem o Espírito; ativam o
movimento de vaivém entre o mundo corporal e o mundo
espiritual e, em conseqüência, o movimento progressivo dos
Espíritos encarnados e desencarnados.
É um desses movimentos gerais que se opera neste
momento, e que deve desencadear o remanejamento da
Humanidade. A multiplicidade das causas de destruição é um sinal
característico dos tempos, porque deve apressar a eclosão dos
novos germes. São as folhas de outono que caem, e às quais
sucederão novas folhas, cheias de vida, pois a Humanidade tem as
suas estações, como os indivíduos as suas idades. As folhas mortas
da Humanidade caem, levadas pela ventania, para renascer mais
vivazes, sob o mesmo sopro de vida, que não se extingue, mas se
purifica.
Para o materialista, os flagelos destruidores são
calamidades sem compensação, sem resultados úteis, porquanto,
segundo ele, aniquilam os seres sem retorno. Mas para o que sabe que
a morte apenas destrói o envoltório, eles não têm as mesmas
conseqüências e não lhe causam o menor pavor, porque
compreende o seu objetivo e sabe também que os homens não
perdem mais morrendo em conjunto do que isoladamente, uma
vez que, de uma ou de outra maneira, é preciso sempre lá chegar.
Os incrédulos rirão destas coisas e as tratarão como
quimeras. Mas, digam o que disserem, não escaparão à lei comum;
cairão por sua vez, como os outros e, então, o que acontecerá?
Dizem: nada. Mas viverão, a despeito de si mesmos, e um dia serão
forçados a abrir os olhos.
Nota – A comunicação seguinte nos foi dirigida durante
a viagem que acabamos de fazer, da parte de um de nossos caros
protetores invisíveis. Embora tenha um caráter pessoal, também se
liga à grande questão que acabamos de tratar, e que a confirma. Por
isso é colocada aqui. As pessoas perseguidas em razão de suas
crenças espíritas nela encontrarão úteis encorajamentos.
“Paris, 1o de setembro de 1866.
“Já faz bastante tempo que não me mostro em vossas
reuniões, dando uma comunicação assinada com o meu nome. Não
julgueis, caro mestre, que seja por indiferença ou por esquecimento,
mas eu não via necessidade de manifestar-me e deixava a outros
mais dignos o cuidado de vos dar instruções úteis. Entretanto lá
estava e seguia com o maior interesse os progressos desta cara
Doutrina, à qual devo a felicidade e a calma dos últimos anos de
minha vida. Eu lá estava, e o meu bom amigo, o Sr. T... vos deu
mais de uma vez a certeza, durante as suas horas de sono e de
êxtase. Ele inveja minha felicidade e também aspira a vir para o
mundo que habito agora, quando o contempla brilhando no céu
estrelado e refere o seu pensamento às suas rudes provas.
“Eu também as tive muito penosas. Graças ao
Espiritismo eu as suportei sem me queixar e as bendigo agora, pois
lhes devo o meu adiantamento. Que ele tenha paciência. Dizei-lhe
que para cá virá um dia, mas que antes ainda deve voltar à Terra,
para vos ajudar na inteira realização de vossa tarefa. Mas, então,
como tudo estará mudado! Imaginar-vos-ei ambos num mundo
novo.
“Meu amigo, enquanto puderdes, repousai o espírito e
o cérebro fatigados pelo trabalho; reuni forças materiais, pois em
breve muito tereis que gastar. Os acontecimentos, que de agora em
diante vão suceder-se com rapidez, vos chamarão à liça. Sede firme
de corpo e de espírito, a fim de estardes em condições de lutar com
vantagem. Então será preciso trabalhar sem descanso. Mas, como
já vos disseram, não estareis só para levar o fardo; auxiliares sérios
aparecerão, quando for tempo. Escutai, pois, os conselhos do bom
doutor Demeure e evitai toda fadiga inútil ou prematura. Aliás, lá
estaremos para vos aconselhar e advertir.
“Desconfiai dos dois partidos extremos que agitam o
Espiritismo, quer para o prender ao passado, quer para precipitar
sua corrida para frente. Temperai os ardores prejudiciais e não vos
deixeis sofrear pelas tergiversações dos timoratos, ou, o que é mais
perigoso, mas que infelizmente é muito verdadeiro, pelas sugestões
dos emissários inimigos.
“Marchai com passo firme e seguro, como tendes feito
até agora, sem vos inquietar com o que digam à direita ou à
esquerda, seguindo a inspiração dos vossos guias e da vossa razão,
e não vos arriscareis fazer sair dos trilhos o carro do Espiritismo.
Muitos empurram esse carro cobiçado, para precipitarem sua
queda. Cegos e presunçosos! ele passará, apesar dos obstáculos, e
não deixará no abismo senão os seus inimigos e os que o invejam,
embaraçados por terem servido ao seu triunfo.
“Os fenômenos vão surgir de todos os lados, sob os
mais variados aspectos, e já surgem. Mediunidade curadora,
moléstias incompreensíveis, efeitos físicos inexplicáveis pela
Ciência, tudo se reunirá num futuro próximo, para assegurar nossa
vitória definitiva, para a qual concorrerão novos defensores.
“Mas, quantas lutas ainda a sustentar e, também,
quantas vítimas! não sangrentas, sem dúvida, mas feridas em seus
interesses e em suas afeições. Mais de um desfalecerá ao peso das
inimizades, desencadeadas contra tudo quanto leve o nome de
espírita. Mas, também, ditosos os que tiverem conservado sua
firmeza na adversidade! Por isto serão bem recompensados,
mesmo aqui, materialmente. As perseguições são as provas da
sinceridade de sua fé, de sua coragem e de sua perseverança. A
confiança que tiverem posto em Deus não será vã. Todos os
sofrimentos, todos os vexames, todas as humilhações que tiverem
suportado pela causa serão títulos, dos quais nenhum será perdido.
Os Espíritos bons velam por eles e os contam, e saberão bem
separar os devotamentos sinceros das dedicações artificiais. Se a
roda da fortuna os trair momentaneamente e os lançar no pó, logo
os erguerá mais alto que nunca, dando-lhes a consideração pública
e destruindo os obstáculos amontoados em seu caminho. Mais
tarde se regozijarão por terem pago seu tributo à causa, e quanto
maior esse tributo, mais bela será sua parte.
“Nesses tempos de provas será preciso que
prodigalizeis a todos vossa força e vossa firmeza; a todos serão
precisos encorajamentos e conselhos. Também se faz necessário
fechar os olhos sobre as defecções dos tíbios e dos covardes. Por
vossa própria conta, também tereis muito a perdoar...
“Mas eu paro aqui, porque se posso adivinhar o
conjunto dos acontecimentos, nada me é permitido precisar. Tudo
quanto vos posso dizer é que não sucumbiremos na luta. Podem
cercar a verdade com as trevas do erro, mas é impossível sufocá-la.
Sua chama é imortal e, cedo ou tarde, aparecerá.”
Viúva F...
Allan Kardec
Fonte: Revista Espírita out/1866 - Os Tempos são Chegados - Editora FEB, tradução Evandro Noleto Bezerra.
Versão de download:
http://www.opiniaoespirita.org/downloads/re_1866_feb.pdf
Notas do Editor deste site (Opinião Espírita):
(Clique nos números das notas para encontrar a localização do texto que gerou a nota)
[1] - Como complemento de estudo, ler também http://www.opiniaoespirita.org/acontecimentos_ak.htm.
[2] - Ler, entre outras passagens, o cap. 24 do livro de Mateus.
[3] - Talvez pudesse parecer ao leitor que haja um pouco de excesso de otimismo de nossa parte com relação à nossa constatação da evidente reforma moral da Humanidade. Algumas pessoas parecem enxergar, pelo contrário, uma degradação moral do homem. A fim de tentar persuadí-las do contrário, ilustraremos dois quadros de um mesmo local, mas pintado em duas épocas diferentes:
Na França do fim do século XVIII temos que:
"Os guilhotinamentos eram verdadeiros espetáculos populares. A multidão, desprovida de circos, de estádios, de qualquer outro lazer, transformou a freqüência à praça do cadafalso num programa patriota e familiar.
De certa forma o cenário inteiro, a prisão dos suspeitos, a denúncia sem provas, as vítimas expostas à execração pública, seguida da profanação dos corpos lembravam muito aos autos-de-fé dos tempos da Inquisição católica.
As crianças eram erguidas sobre os ombros para que vissem o estertor dos inimigos da revolução. Bem perto da máquina ficavam as tricoteuses, as tricoteiras, mulheres envoltas em linhas e agulhas que, próximo das vítimas, as injuriavam. Exultavam com o olhar de desespero dos adversários quando contemplavam aquela porta-sem-batente, aquela magnífica exatidão das paralelas, a impecável geometria, armada por um triângulo negro, carrancuda, gotejando sangue em seu gume, exigindo justiça social." (grifo nosso)
Fonte:
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/guilhotina2.htm (consultado em 03/10/2009)
E na mesma França, mas dessa vez no século XX, temos que:
Eugen Weidmann, nascido em 5 de fevereiro de 1908 em Frankfurt (Alemanha), morto em 17 de Junho de 1939 em Versalhes (França), foi um criminoso alemão, célebre por ter sido a última pessoa a ser guilhotinada em público na França.
Ele foi julgado culpado do assassinato de seis pessoas, todas mortas com um tiro na nuca...
Ele foi guilhotinado em Versalhes, na via pública, no exterior da prisão Saint-Pierre, como era comum até então. O comportamento dos espectadores durante a execução tendo sido julgado «histérico», o presidente da República Albert Lebrun convenceu o governo da época a proceder às execuções no interior da prisão onde se encontra o condenado à morte, longe das possíveis «emoções populares». (grifo nosso)
A utilização da guilhotina para execuções «privadas» continuou, mas cada vez mais raras, até o 10 de Setembro de 1977, quando foi executado Hamida Djandoubi. Finalmente, a pena de morte foi abolida na França em 30 de Setembro de 1981, através de decreto do presidente François Mitterrand.
Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Eugen_Weidmann (consultado em 03/10/2009)
Repare o leitor que no primeiro quadro, que chamaríamos de pré-regeneração, no fim do século XVIII, existia uma espécie de prazer sinistro no sofrimento alheio, e as execuções eram feitas em público para o deleite do povo com respaldo legal. Cento e quarenta anos mais tarde, contudo, a população desse mesmo país, constituída de elementos novos, já não mais tolerava assistir esse tipo de espetáculo bárbaro. Mais tarde a nova população desse mesmo país não toleraria sequer que esse tipo de barbarismo fosse feito, mesmo longe das vistas. Isso é, sem dúvida, um sinal claro de melhoria moral, e poderíamos citar muitos outros exemplos como esse. Repare também o leitor que nos dois casos estamos nos referindo à violência legal, e não àquela violência que ocorre fora da lei.
[4] - Nota de Allan Kardec: Vide O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XV.
[5] - O Festim de Baltazar é uma alusão a uma história da Bíblia em Daniel cap. 5.