Para uns, a questão parece estar definitivamente
resolvida pela negativa. Como vêem o Espiritismo como mais uma variação do misticismo
e do ocultismo, pensam que este se opõe ao positivismo da ciência. Que essa
afirmação venha de materialistas obstinados, de fanáticos de outras religiões
ou de pessoas que ignoram os fundamentos da doutrina espírita, é de se
esperar. Mas o que não deveríamos esperar é que muitos dos que se dizem
espíritas, muitas vezes até conhecedores de toda a obra de Kardec, tivessem
esse tipo de dúvida. Esperamos com esse texto contribuir para a elucidação
definitiva da questão, se não para o primeiro grupo, mas pelo menos para o
segundo.
Um dos significados da palavra "ciência"
é conhecimento. Mas para o conhecimento ser ciência, é preciso tratar-se de um
conhecimento verdadeiro ou, como normalmente ocorre, pelo menos um conhecimento
que pode ser verdadeiro. A partir do momento que determinado conhecimento é
descoberto falso, deixa de ser conhecimento para tornar-se fábula, estória,
mito.
Após essa análise preliminar, vamos analisar o caso
espírita: O Espiritismo se baseia, entre outras coisas, na existência dos
espíritos e na sua relação com o mundo material. O simples fato de os
espíritos existirem e o Espiritismo estudá-los com método próprio, já faz este
tornar-se uma ciência, na completa acepção da palavra e não seria preciso
dizer mais nada. Se, ao contrário, os espíritos não existissem, o Espiritismo
não só não seria uma ciência, como também não seria filosofia nem tampouco
religião. Seria apenas uma falácia bem estruturada, como muitas de que
temos conhecimento. Portanto, a solução da questão se o Espiritismo é ou não
uma ciência, reside na resposta da questão: existem ou não espíritos?
Ao redor do mundo, em todos os povos, em todos os
tempos, em todas as culturas, podemos encontrar relatos de pessoas que
mantiveram contatos com seres que poderiam ser enquadrados no conceito espírita
de "Espírito". Na atualidade, temos diversos médiuns ativos
atuando e escrevendo milhares de livros que eles afirmam terem sido ditados por
espíritos. Chico Xavier diz ter psicografado mais de 410 obras, onde pode-se reconhecer
claramente o estilo de cada um dos autores. Os estilos de Emmanuel e
Humberto de Campos, por exemplo, são inconfundíveis. Dizem os
incrédulos que ele poderia ter falsificado os estilos, que ele não era tão
ignorante quanto aparentava ser, etc... Concordamos que impossível, impossível
não é que ele, ao longo dos seus 75 anos de trabalho espírita, enganasse a
todos, com as condições que tinha, e não levasse vantagem material alguma,
assim como também não é impossível que a mesma combinação de números da Mega
Sena ocorra por 10 vezes consecutivas. Mas é preciso uma "fé"
muito forte para crer nisso. Mas não é só
ele. Há vários outros em vários lugares que trabalham voluntariamente em
vários centros espíritas. Mas dirão: "esses são adeptos da doutrina e podem
ser manipulados". Mas e quanto aos milhares de outros relatos de
assombrações e aparições descritas por pessoas refratárias à idéia
espírita? Esses o Espiritismo não pode manipular.
De todos esses relatos, decerto, não podemos
considerar tudo verdadeiro. Com certeza, encontraremos muita ilusão,
alucinação e charlatanismo. Mas será que em nenhum caso poderíamos
encontrar boa-fé e lucidez? Será que podemos considerar todos os relatos
falsos, inclusive os que foram testemunhados por várias pessoas? Será que
as mesas girantes, que se deram por toda a Europa por mais de 5 anos
ininterruptos e estão registrados em vários jornais da época, eram todas fruto
de ilusão e charlatanismo coletivo? Desses milhões de relatos, se um único
contiver uma informação verdadeira, a existência dos espíritos estaria
positivamente e irrefutavelmente comprovada. Quando tratamos da
mediunidade paga, é fácil desconfiarmos do charlatanismo. Mas e quando são
pessoas dignas de fé que nos relatam? E quando são considerados
sábios? Numa pesquisa recentemente realizada em 2004 com 115 médiuns
ativos em São Paulo, quase a metade (45,5%) possuía pelo menos o curso
superior; e mais de 74% pelo menos o segundo grau; todos eles levam uma vida
normal, com atividades normais e praticam a mediunidade em momentos de folga
(1). Toda essa gente é iludida? Toda essa gente é
alucinada? Toda essa gente é charlatã?
Uma recente estatística da Federação Espírita
Brasileira (2) mostra que existem aproximadamente 10.000 centros afiliados à
instituição. Sabemos que os centros normalmente possuem pelo menos 1
médium ativo. Além dos associados à Federação Espírita Brasileira existem
vários outros centros que, por motivos diversos, decidiram não se afiliar à
instituição, mas que também cada qual possui pelo menos 1 médium ativo.
Todos eles afirmam manter contatos com seres que se autodenominam
"espíritos". Será que 100% desses médiuns mentem? A troco
de que, se a maioria trabalha voluntariamente, e muitas vezes com grandes
sacrifícios? Volto a repetir que uma única verdade no meio disso tudo
comprova o fato.
Portanto, vasta documentação existe e, baseada
nela, já podemos considerar a existência espiritual um fato. E como o
Espiritismo trata do estudo desse fato, ou seja, dessa verdade, o Espiritismo
pode ser considerado ciência. A ciência dita oficial é que ainda não
descobriu isso. Mas para aqueles que ainda assim duvidam, dizemos que a
quantidade de relatos existentes produzem elementos mais do que suficientes
para dúvida razoável. Ora, como com esses relatos podemos pelo menos
considerar a existência dos espíritos uma hipótese válida, então o seu estudo e
pesquisa pode igualmente ser considerado ciência. Aos materialistas, que
parecem estar convictos do contrário, ou seja, da não existência dos espíritos,
pediríamos que se esforçassem mais para nos provar isso positivamente e nos
ajudar a abrir os olhos, levando o Espiritismo de uma vez por todas para o
domínio das fábulas. Temos certeza de que quem se lançar nesta busca,
neste objetivo, vai encontrar as convicções de que necessita.
No dicionário (3), encontramos também a seguinte definição para ciência:
"Conjunto organizado de conhecimentos
relativos a um determinado objeto, especialmente os obtidos mediante a
observação, a experiência dos fatos e um método próprio."
Ora, o Espiritismo é um conjuto organizado de
conhecimentos (a codificação espírita) relativos a um determinado objeto (os
espíritos e suas relações com o mundo material), especialmente os obtidos
mediante a observação (dos fenômenos espontâneos e dos provocados, como as
mesas girantes e as psicografias), a experiência dos fatos (pela identificação
das características comuns a todos os eventos) e um método próprio (como os
descritos em O Livro dos Médiuns). Mais uma vez, a dificuldade da questão reside
no "objeto", que já discutimos acima. Atestada a realidade do
"objeto", o Espiritismo torna-se automaticamente uma ciência na
acepção completa da palavra, gritem o quanto quiserem os seus opositores.
Também no mesmo dicionário encontramos os diversos
ramos da ciência: Ciências Exatas (a matemática); Ciências Experimentais
(aquelas cujo método exige o recurso da experimentação); Ciências Humanas (as
que estudam o comportamento do homem individual ou coletivamente); Ciências
Morais (as que estudam os sentimentos, pensamentos e atos do homem), etc...
O Espiritismo não pode, certamente, ser considerado
uma ciência exata. Mas é, definitivamente, uma ciência experimental,
humana e moral, embora essas os materialistas afirmem que, em última
instância, não existem de fato e que podem ser reduzidas às ciências
exatas. Dizem que o determinismo da genética, criado pelo indeterminismo
do acaso, é capaz de prever quando vamos nos irritar, nos sentir felizes,
prejudicar alguém, roubar um banco, etc... Fazem de conta que a realidade
metafísica não existe, quando esta salta aos olhos dos menos clarividentes, e
descartam uma parte da realidade simplesmente por não conseguirem modelá-la e
circunscrevê-la com se faz com formulações químicas comuns. E são esses cegos
voluntários que comumente chamamos, impropriamente, de "sábios".
Acham que porque já sabem explicar meia dúzia de mecanismos físicos já são
igualmente capazes de explicar toda a natureza e o universo. Orgulho
disfarçado de sabedoria, que não consegue admitir que a partir de certo ponto
ainda não se é capaz de afirmar nada, mas só imperfeitamente opinar, e que suas
opiniões não valem mais do que as outras.
Como a ciência oficial ainda é, em grande parte,
constituída por esses "sábios", não podemos esperar, pelo menos por
hora, que a realidade espiritual e metafísica sejam aceitas pela comunidade
científica. Já nos sentimos bastante felizes que uma parte significativa
dos cientistas já se predispôs a analisar o problema, embora infelizmente
acabem caindo em descrédito por dar ouvidos a "lunáticos" e
"charlatães". É só mais um caso onde a crença cega (neste caso, a
descrença) tem levado a melhor sobre a razão, a lógica e os fatos. Mas o
futuro desponta e nos acena que esta realidade está para se modificar em breve.
Quanto a nós, espíritas, façamos o nosso trabalho
de esclarecimento, sem pressa nem aforismos para querer convencer a Deus e ao
mundo, pois, afinal de contas, o cego que se recusa a abrir os olhos só
prejudica a si mesmo. Nosso trabalho resume-se a fornecer elementos de
pesquisa para aqueles que realmente querem abrir os olhos e desenvolverem
os "olhos de ver".
Rafael Gasparini Moreira
Paulínia/SP
e-mail: rafael.gasparini@gmail.com
set/2007 (revisado
out/2007).
Fontes Bibliográficas:
(1)
Fonte: Tese apresentada em 2004
ao Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo para obtenção do título de Doutor em Ciências por Alexander Moreira de
Almeida, sob o título: Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e
psicopatologia de médiuns espíritas. Pág. 65.
(2) Fonte: http://www.febnet.org.br/apresentacao/content,0,0,2851,0,0.html
(3)
Novo Dicionário Aurélio da
Língua Portuguesa, 2a edição revista e aumentada, 1986 - 36a edição - Editora
Nova Fronteira.