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...Limpei minha alma de preconceitos, eliminei toda e qualquer dedicação cega que porventura tenha se insinuado para deixar entrar em mim tanto de saber imaginário. Nada me interessa agora, nada me é venerável, a não ser aquilo que ocupa seu lugar pelo caminho da sinceridade em um ânimo tranquilo e aberto a todas as razões, quer confirme, quer confute meu juízo anterior, quer me deixe determinado, quer indeciso. Aproprio-me daquilo que me instruí, onde quer que o encontre. O juízo daquele que refuta minha razões é meu juízo, depois de tê-lo pesado contra o prato do amor-próprio e em seguida contra minhas supostas razões e encontrado nele uma maior consistência. Antes eu considerava o entendimento humano universal apenas do ponto de vista do meu entendimento: agora ponho-me no lugar de uma razão alheia e externa e observo meus juízos, junto com seus mais secretos motivos, do ponto de vista de outros. Por certo a comparação de ambas as observações resulta em fortes paralaxes, mas ela é também o único meio de evitar a ilusão ótica e de pôr os conceitos em seu devido lugar, nos quais se encontram em vista das capacidades cognitivas da natureza humana... Não acho que alguma afeição ou uma outra inclinação qualquer, insinuada antes da prova, tenha tirado de meu ânimo a agilidade em seguir todo tipo de razões a favor ou contra, excetuando-se apenas uma. A balança do entendimento não é inteiramente imparcial, e um braço dela, que leva a inscrição: esperança do futuro, tem uma vantagem mecânica, que faz com que mesmo razões leves, que caem em seu prato, sobrepujem as especulações de maior peso no outro lado. Esta é a única incorreção que não posso eliminar e que tampouco quero eliminar jamais... Não fosse a solução da questão aqui proposta simpática a uma inclinação prévia e resoluta, quem, entre os seres racionais, ficaria indeciso sobre o que é mais verossímel...? (Immanuel Kant, 1766) |
Para quem apenas vê a matéria e restringe à vida presente a sua visão, há de isso, com efeito, parecer uma imperfeição na obra divina. É que, em geral, os homens apreciam a perfeição de Deus do ponto de vista humano. Medindo-lhe a sabedoria pelo juízo que dela formam, pensam que Deus não poderia fazer coisa melhor do que eles próprios fariam. Não lhes permitindo a curta visão, de que dispõem, apreciar o conjunto, não compreendem que um bem real possa decorrer de um mal aparente. Só o conhecimento do princípio espiritual, considerado em sua verdadeira essência, e o da grande lei de unidade, que constitui a harmonia da criação, pode dar ao homem a chave desse mistério e mostrar-lhe a sabedoria providencial e a harmonia, exatamente onde apenas vê uma anomalia e uma contradição. (Kardec, em A Gênese, cap. III, item 20) |
Introdução
A primeira versão publicada deste trabalho provocou algumas violentas reações negativas (por nós já esperadas, aliás) num determinado ambiente cético. Até entendemos, em parte, o motivo da violência das reações, por causa do último argumento, considerado por eles infalível e irrefutável, de crítica moral à Doutrina Espírita e aos espíritas de um modo geral, que agora escapa por entre os dedos. Com a perda do argumento "perfeito" de que o Espiritismo ou Kardec fossem racistas e imorais, o que sobrou então para condenar moralmente a doutrina? Nada! E eles vão precisar voltar a se restringirem ao velho jargão (insustentável do ponto de vista racional) de que "o Espiritismo não seria cientificamente provado e blá blá blá...". Ou então, claro, persistirem no ridículo de continuar usando um argumento já refutado. Portanto, embora não justificável, é perfeitamente compreensível a violência dos ataques.
Mas, de qualquer forma, decidimos inserir essa introdução no início, que mais não é do que um resumo das conclusões que vamos abaixo desenvolver, para que as pessoas tenham, desde já, uma ideia prévia sobre em que sentido o tema será tratado e a que consequências nos conduzirá, pois algumas pessoas têm criticado o artigo sem lê-lo até o final. A seriedade do tema não permite que ele seja abordado pela metade e com meias palavras e isso invariavelmente nos levou a produzir um artigo um pouco longo, que algumas pessoas, especialmente as que não têm interesse em se instruir, mas apenas garimparem aqui ou ali argumentos ou frases soltas e fora de contexto para atacarem a Doutrina Espírita, não têm tido "paciência" de ler até o final, onde a maioria das objeções ou mesmo acusações que nos fizeram foram devidamente respondidas.
O objetivo principal deste ensaio é demonstrar que Allan Kardec, os Espíritos e, consequentemente, o próprio Espiritismo, não são racistas, e isso sem renegar uma única vírgula do que Kardec escreveu. Não é esta uma abordagem de grande profundidade científica (já que o nosso conhecimento desse assunto do ponto de vista de ciência é limitado), mas principalmente uma abordagem do ponto de vista moral, pois essa questão sobre as raças já saiu do âmbito científico faz muito tempo e somente uma opinião tem sido admitida por alguns: a de que não existem diferenças intrínsecas entre as raças. E qualquer um que ouse opinar diferentemente disso passa a ser moralmente condenado, desacreditado e taxado de racista por alguns instáveis intelectuais, levianos e hipócritas. Então, julgamos que não adianta usar argumentos científicos, ao menos por ora, se o problema é de fundo exclusivamente moral, pois há o interesse, uma necessidade, um desejo mesmo por parte de alguns que, aliás, são sentimentos que não deixamos também de certa forma de compartilhar (por causa do nosso próprio ideal de igualdade), em ver as diferentes raças como sendo absolutamente iguais. Existe inclusive uma verdadeira torcida fanática em favor da vitória da tese da igualdade absoluta entre as raças e que pode ser explicada por várias razões que vamos aprofundar ao longo desse artigo.
Essa "torcida", mesmo que cheia de fanatismo e dogmatismo, não passa de uma idealização de um bem que se espera alcançar e não deixa de evidenciar um grande progresso moral da humanidade, que antes não tinha escrúpulos em escravizar e atualmente se ressente com a menor ideia injustiça, mesmo que aparente. Mas mesmo não negando o progresso, esse excesso para o lado oposto não deixa de ter os seus inconvenientes materiais (como as acusações injustas de racismo, por exemplo), e que importa não deixar que se propaguem. Então, é preciso primeiro resolver esse problema moral para o caminho ficar livre para as discussões científicas, sem preconceito e sem medo do que as conclusões poderiam nos revelar.
Não somos antropólogo, biólogo ou sociólogo, e temos conhecimentos limitados nessas áreas. Portanto, não cabe a nós resolver definitivamente a questão da diferença ou igualdade entre as raças sob o ponto de vista científico. Aliás, se o próprio Allan Kardec tratou do assunto de maneira hipotética, por que haveríamos nós de fazer diferente? Ao contrário do que mentirosamente nos acusaram, não estamos tomando como artigo de fé a inferioridade ou superioridade absoluta ou relativa de qualquer raça na Terra, assim como não estamos descartando outras causas como fatores geradores ou cogeradores das diferenças observadas. O Espiritismo viverá muito bem sendo as raças humanas na Terra iguais ou diferentes. Apenas tentamos mostrar que, ainda que algumas raças fossem atrasadas em todos os sentidos possíveis e imagináveis, isso não respaldaria o preconceito, a discriminação, a perseguição, a escravização, etc... Em outras palavras, não advogamos a tese da igualdade das aptidões, mas advogamos com todas as nossas forças a igualdade de direitos, deveres, condições, oportunidades, etc... O que mudaria nas nossas relações se existirem raças mais e menos adiantadas misturadas na Terra? Entre pessoas de boa-fé, nada. Já entre as de má-fé, tudo se pode esperar. Então, o problema do racismo está tanto na crença nas diferenças como a destruição de Hiroshima está no conhecimento da Física Nuclear, ou seja, não há relação alguma. O problema está e sempre esteve na moral da Humanidade.
Um dos nossos críticos inclusive chegou a nos sugerir a ideia de que se essas diferenças fossem um fato, isso poderia justificar salários menores, dificuldades de promoção, etc... Ora, de que lado afinal se encontra o preconceito? Ainda bem então que ele considera todos iguais, porque se a ciência finalmente provasse que as raças são diferentes, estaria respaldada a discriminação, na opinião dele? Pagaríamos salários menores para as raças menos adiantadas? Separaríamos os banheiros, os lugares nos ônibus, os restaurantes? É assim que deveríamos agir se a ciência finalmente provar que existem raças menos adiantadas na Terra? E se uma das atuais espécies de macacos existentes se humanizasse em uma nova espécie ou raça humana, como provavelmente fizemos nós há alguns milhares ou milhões de anos? Nós deveríamos escravizá-los, pelo atraso evolutivo, mesmo em se tratando de seres racionais? Logo, não é por esse caminho que devemos trilhar, pensamos (e assim também pensava Kardec).
Gostaríamos realmente (e seria até mais fácil para nós) de ter a "certeza cristalina" que parecem ter os nossos críticos de que as raças humanas na Terra são todas intrinsecamente iguais. Da mesma forma, ficaríamos felicíssimos se esses mesmos críticos se dispusessem a partilhar suas luzes e fundamentassem racionalmente (com base na experiência ou na necessidade) de onde vem essa certeza, porque nos resolveria um grande problema. Mas infelizmente ainda não temos essa certeza (ou pelo menos ainda não a conseguimos enxergar), e os argumentos que usam para tentar nos persuadir, pela forte carga chantagista que trazem, nos levam, ao contrário, a cada vez mais supor que as diferenças sejam uma verdade, hoje considerada herética, que tentam silenciar, a exemplo do que tentaram fazer com Galileu há quase 400 anos. Ainda bem que o tempo das fogueiras já acabou! Mas o que faremos então se isso for um fato? Viraremos o rosto e fingiremos que não vimos? Isso não é racional; não convence e, como dissemos, tem os seus inconvenientes materiais. O Espiritismo supôs sim, como veremos a seguir, que as raças tinham componentes intrínsecos que as diferenciavam entre si e propôs como é que deveriam ser tratadas essas diferenças. Mas para os espíritas, na realidade, não faz a menor diferença se o negro ou qualquer outra raça na Terra é menos adiantada ou não, porque o espírita, enquanto seguindo os preceitos da Doutrina Espírita, não trataria raças menos adiantadas com menos privilégios do que se pertencesse a uma raça mais adiantada ou em igual nível de adiantamento que todas as outras. Isso explica o desembaraço com que Allan Kardec tratou desse assunto, pois que não identificou nenhuma aberração na existência das diferenças, sob a ótica dos espíritas, que é a quem, na realidade, se dirige o Espiritismo.
O fato é que existe um consenso mudo na sociedade, não respaldado ainda pela ciência, em favor da tese da igualdade corporal absoluta entre as raças, e esse consenso tem agradado tanto a negros como brancos, ou amarelos ou vermelhos, etc... Até aí, não temos nada que ver com isso. O problema é que esse consenso, que não tem nenhuma base científica, mas é baseado unicamente num desejo de algumas pessoas de que a existência de qualquer diferença não passasse apenas de um "sonho ruim", tem sido maldosamente utilizado para atacar Allan Kardec, o Espiritismo e os espíritas de um modo geral, como se a tese da igualdade já fosse uma verdade científica adquirida e irrefutável, e como se fosse imoral opinar em sentido contrário. Estão confundindo ciência com moral. Se Allan Kardec nunca tivesse sido acusado de racismo, provavelmente jamais estaríamos tratando desse assunto, pois ele não é pedra fundamental da doutrina. Aliás, raras vezes se vê os espíritas tratando desse assunto, o que mostra que ele é secundário. Mas como Kardec, e de tabela o Espiritismo e os espíritas, vêm sendo alvo constante desse tipo de acusação leviana e até criminosa, pois trata-se evidentemente de perseguição religiosa contra uma classe inteira de pessoas adeptas de determinada crença, e como consideramos que é uma acusação séria e que não pode ficar sem uma resposta firme e objetiva, resolvemos abordá-la para ajudar a esclarecer o engano (ou a farsa) de uma vez por todas para as pessoas isentas e livres de ideias preconcebidas, ou seja, para aquelas pessoas que não tomem partido, pró ou contra, nem do Espiritismo, nem de brancos, nem de negros, e se interessem unicamente pela verdade, doa ela a quem doer. Estamos tratando desse assunto porque ele foi primeiramente usado contra nós, porque temos o direito, e até o dever, de nos defendermos, e não porque tenhamos algum tipo de prazer sinistro em apontar fortalezas e fraquezas de quem quer que seja. Outros de fora do Espiritismo é que, na realidade, temem que as diferenças sejam um fato. Quem sabe se a ciência algum dia provasse a existência das diferenças raciais de maneira que eles mesmos não pudessem mais negar, eles não se sentiriam no direito de discriminar? Nesse caso, ainda bem então que o Homem de Neanderthal já é extinto, pois que senão, na opinião deles, a discriminação e o preconceito estariam "cientificamente respaldados". O Espiritismo, ao contrário, afirma que esse direito não existe, ainda que as diferenças corporais forem um fato incontestável.
O ensaio que aqui desenvolvemos, portanto, além de ser uma defesa a Allan Kardec e ao Espiritismo, também procura desmistificar a ideia de que eventuais diferenças raciais seriam justificativas para discriminações de qualquer tipo, e de que pessoas sérias, honradas, que visem unicamente ao bem e que partilhem do ideal de igualdade e de progresso, devam se sentir envergonhadas de crerem nessas diferenças, ao menos como possibilidade de verdade, visto não serem elas as causas dessas diferenças e, muito pelo contrário, serem essas pessoas potenciais aliviadoras dessas diferenças. O assunto é aqui tratado sem tabus, colocando o "dedo na ferida", respondendo às críticas pelo lado mais desfavorável possível ao Espiritismo, de modo a mostrar que, mesmo desse ponto de vista mais desfavorável, a doutrina nada tem a temer do ponto de vista de moral (embora possa admitir eventuais erros científicos, caso eles sejam demonstrados).
Haveria muito mais complementos para essa introdução, mas finalizamos aqui para não acabarmos sendo mais redundantes e repetitivos do que provavelmente já fomos em relação ao que foi desenvolvido e que pode ser lido a seguir. Vamos então ao texto.
Análise da opinião de Kardec e a dos Espíritos
Alguns opositores do Espiritismo, na falta de bons argumentos lógicos, que são armas leais e honestas para se refutar algo, julgaram ter encontrado dessa vez uma "tábua de salvação" pela qual pensaram poder finalmente aniquilar a Doutrina Espírita por uma aparente – repetimos: aparente – brecha moral, como se ela, ainda que pertinente, pudesse invalidar toda a base lógica da doutrina. Estamos nos referindo a determinados excertos contidos nas obras de Allan Kardec que, segundo a opinião desses mesmos opositores, teriam conotação racista; que isso refutaria o Espiritismo porque, mesmo que pudéssemos escusar Allan Kardec por ser um "homem de seu tempo", como dizem, isso não justificaria os Espíritos que colaboraram na elaboração da codificação e que, se fossem realmente superiores, não poderiam ter corroborado e até enunciado tais teses, tendo sido, portanto, invalidado moralmente o Espiritismo.
Só como exemplos de críticas nesse sentido à Doutrina Espírita, indicamos a leitura dos sítios abaixo:
Falhas do Espiritismo – Racismo
Associação Montfort - Allan Kardec, um racista brutal e grosseiro
Além desses exemplos, também não podemos deixar de registrar que, para a vergonha do nosso Movimento Espírita, já vimos diversas vezes Kardec ser taxado de racista por pessoas que se diziam adeptas do Espiritismo. Mas, em se tratando dos opositores, em primeiro lugar diremos que esses adversários do Espiritismo estão atacando no lugar errado e perdem seu tempo. Mesmo que fosse demonstrado que os textos fossem de fato racistas e imorais (os quais demonstraremos a seguir que não são), isso não invalidaria os princípios espíritas. Espíritos não deixariam de existir, reencarnações não deixariam de ocorrer, etc... só porque Allan Kardec tivesse sido racista. São esses os verdadeiros princípios que eles precisariam refutar, pois, caso contrário, o máximo que conseguiriam é transformar espíritas em espiritualistas.
Essa discussão não é nova e já existem diversos artigos, de vários autores espíritas, que tentam responder a essa crítica. Nós, entretanto, não concordamos com todas as respostas que foram dadas, especialmente as que admitem a opinião de que Kardec teria sido simplesmente influenciado pelo tempo em que viveu, fato que, para nós, o rebaixaria indevidamente da alta consideração e estima de que goza por parte dos adeptos do Espiritismo. Não que estejamos atribuindo a Kardec uma infalibilidade que ele não possuía e que nunca afirmou possuir, ou que neguemos absolutamente que ele pudesse ter sofrido realmente alguma influência do seu tempo, ou que ele nunca pudesse ter eventualmente se equivocado em função das luzes da sua época (pelo fato de os Espíritos não nos trazerem nenhuma ciência pronta), mas discordamos que essas influências foram tão radicais ao ponto de Allan Kardec e os Espíritos ignorarem o bom senso e cometerem erros óbvios e grosseiros, especialmente sob o ponto de vista moral, que é o foco da doutrina. Imaginem se, por exemplo, Kardec ou os Espíritos tivessem feito apologia à escravidão; será que, mesmo admitindo a influência de seu tempo, poderíamos lhe prestar a mesma consideração que temos hoje? Pensamos que não. Portanto, admitimos sim que Kardec possa ter errado em algum ponto ou outro, de um ponto de vista científico, mas não erros óbvios e grosseiros, especialmente do ponto de vista moral, porque admitir isso seria pôr em xeque a própria credibilidade da Doutrina Espírita. Se o erro moral realmente existisse, é evidente que não deixaríamos de admiti-lo. Mas aí também ficaria muito difícil continuar racionalmente sustentando a fé espírita, pois temos mais amor ao bem e à verdade do que ao próprio Espiritismo, e se este contradisser aqueles, abandonaríamos este sem pestanejar. Mas não é o caso aqui.
Tentaremos, portanto, neste ensaio, também dar a nossa contribuição num outro sentido, sob o nosso próprio ponto de vista. E se, ao final destas reflexões, concluíssemos que os textos, assim como seus autores, fossem racistas de fato, não teríamos porque não admitir isso, ainda que pudesse nos desagradar. E se a Doutrina Espírita não estivesse mesmo com a razão nesse ponto (do ponto de vista moral apenas), não hesitaríamos um segundo em renunciá-la por um ensinamento mais completo e verdadeiro. Se não o fazemos, é porque realmente julgamos, após bastante reflexão fria, racional e mais isenta que pudemos conseguir (visto que também nós não devemos ser isentos de preconceitos, ainda que inconscientes), que não haja racismo embutido nas citações; porque julgamos que todas as alegações em sentido contrário têm tido como fundo exclusivamente a desinformação aliada à falta de reflexão, ou o interesse pela verossimilhança à verdade com o fim de denegrir o Espiritismo; em outras palavras: à ignorância ou à má-fé.
Para nós seria muito mais cômodo simplesmente deixar tais teorias de lado, como fazem alguns confrades, valendo-nos do argumento de que a Doutrina Espírita é progressista, que ela avança junto com o progresso geral das ideias e de que tais ideias já estariam ultrapassadas pelos “conhecimentos científicos atuais”. Só que o problema não é científico, mas moral, e o erro científico pode até ser admitido no futuro (se demonstrado), mas o moral não, pois caso contrário o próprio Espiritismo estaria derrogado.
O fato é que não consideramos os textos como sendo de conteúdo ultrapassado. Ao contrário, os consideramos de conteúdo até bastante progressista, mesmo para o estágio evolutivo atual da Humanidade, neste século XXI. Em nossa opinião, existe enorme diferença entre algo ser racista e parecer racista; entre ser imoral e parecer imoral, e é isso que vamos tentar demonstrar ao longo desse artigo, ou seja, que as coisas não são bem o que às vezes parecem. Aliás, Kardec já havia alertado em A Gênese, cap III, item 20, que “os homens apreciam a perfeição de Deus do ponto de vista humano”, que “um bem geral pode decorrer de um mal aparente” e que, “só o conhecimento do princípio espiritual, considerado em sua verdadeira essência, e o da grande lei de unidade, que constitui a harmonia da criação, pode dar ao homem a chave desse mistério e mostrar-lhe a sabedoria providencial e a harmonia, exatamente onde apenas vê uma anomalia e uma contradição.”
Nós, pessoalmente, já testamos diversas vezes os argumentos que vamos a seguir utilizar em diversos grupos de discussões, especialmente contra céticos e contra outros confrades espíritas que de nós discordavam. Consideramos que, em todos os casos de discordância, sem exceção, os argumentos que nos contrapuseram foram de natureza mais emocional e, não muito raramente, colérica, do que racional e, portanto, não foram capazes de nos convencer. Inclusive algumas pessoas, por absoluta falta de respeito e contra-argumentação, nos trataram minimamente por racista, mas as palavras "analfabeto funcional", "mal-intencionado", "sofismático", "desonesto", "nojento", "repugnante" e outras, foram também usadas (temos os registros), o que demonstra o baixo nível filosófico e pessoal dos nossos contra-argumentadores; uma pessoa chegou até ao cúmulo de se declarar nosso "inimigo" (ridículo isso!) simplesmente por causa de um direito que nos assiste, de crer e de nos expressarmos conforme a nossa consciência. A eles respondemos da seguinte forma: se for para ser considerado racista na exata medida em que consideram Allan Kardec racista, mas nem uma vírgula além, então com muita satisfação aceitamos o repto, apesar de o considerarmos injusto, pois nosso amor à Verdade é maior que o nosso amor às conveniências mundanas. Se algum dia encontrarmos argumentação melhor que a nossa e, claro, as nossas luzes nos permitirem enxergar que são realmente melhores, não hesitaremos um segundo em renunciar às nossas ideias atuais em função da ideia melhor, pois o juízo daquele que refuta minha razões é meu juízo (Kant). Em outras palavras, desejamos ser convencidos através de um raciocínio e uma lógica melhores aplicados do que os nossos, e de forma alguma mudaremos a nossa opinião por causa das ameaças, explícitas ou veladas, que nos são algumas feitas.
As conclusões, portanto, que iremos expor, não encontraram ainda aceitação plena por parte de todo o Movimento Espírita. Diríamos até que existe o risco de a maioria dos confrades não nos dar o seu apoio, porque o assunto é espinhoso e vários têm medo de posicionarem-se publicamente. Mas o importante para nós é a defesa sincera de nossas convicções e não o comportamento hipócrita de escrever somente o que todos gostariam de ler. O importante para nós é que, após bastante reflexão, realmente creiamos no que vamos expor, não importando se agradará ou não a quem quer que seja.
Muitos dos espíritas que recusam os nossos argumentos o fazem por repúdio puro e simples a qualquer ideia de desigualdade racial, e dizem até que a ciência já teria comprovado que tais diferenças não existiriam de fato. É claro que levamos em conta as suas boas intenções e seus nobres sentimentos, mas consideramos essas conclusões um pouco precipitadas, além do que, conforme vamos demonstrar, não é tão simples assim negar os textos polêmicos, ao menos como possibilidade de verdade, sem negar também alguns princípios espíritas fundamentais e, consequentemente, derrogar o próprio Espiritismo. E a ciência, a despeito do que dizem alguns cientistas, ainda não deu a sua última palavra sobre o assunto e há ainda bastante controvérsia. O que no fundo existe é mais um desejo, justificável, aliás, de que as diferenças raciais não existam de fato (que é sem dúvida um ideal a ser buscado, mas que não nos autoriza a considerar como um fato do ponto de vista especulativo). Isso leva alguns a se agarrarem com unhas e dentes a qualquer hipótese que possa de alguma forma confirmar esse desejo. E onde a emoção impera, a razão não funciona. De qualquer forma, qualquer erro de Kardec a respeito desse assunto estará restrito ao âmbito científico e não ao âmbito moral; do ponto de vista científico as teses são questionáveis (ainda não renegáveis), mas do ponto vista moral são inatacáveis (desculpem-nos os leitores por insistirmos várias vezes nesse ponto, mas é para não ficar nenhuma dúvida a respeito).
Seja de uma forma ou de outra, e como há divergências, não podemos dizer que as opiniões que emitiremos em seguida são o reflexo da opinião do Movimento Espírita, e cada adepto da doutrina, e mesmo os não adeptos, que se sintam à vontade para apoiarem ou não a nossa argumentação, e se possível, gostaríamos de colher algumas opiniões, sejam de apoio ou de críticas, a fim de que possamos melhorar esse artigo com o passar do tempo. Aos nossos próprios olhos estamos emitindo opiniões perfeitamente acordes com a Doutrina Espírita e com a busca e a compreensão da Verdade. Mas também admitimos que a nossa razão pode falhar, pois não nos consideramos menos infalível do que qualquer um outro, apesar de nos esforçarmos para argumentar da forma mais perfeita possível, e procuraremos compreender e respeitar as pessoas que não compartilharem da nossa opinião, assim como gostaríamos de ser por elas compreendidos e respeitados em nossa opinião.
Para que o leitor tenha uma perfeita ideia do que se trata o problema, é recomendável uma leitura prévia dos textos das obras de Kardec que têm sido criticados. São eles:
- Frenologia Espiritualista e Espírita - Perfectibilidade da Raça do Negro (Revista Espírita, abr/1862, págs. 97 a 105);
- Teoria da Beleza (Obras Póstumas, págs. 171 a 182);
- A Gênese, cap. XI, item 32, pág. 253;
- O Livro dos Espíritos, pergunta 222, págs. 166 a 176;
- O que é o Espiritismo?, cap. III, O homem durante a vida terrena, pergunta 143, págs. 228 e 229;
- O negro Pai César (Revista Espírita jun/1859, págs. 162 e 163).
Certamente há outras citações que não estamos relacionando aqui, primeiro porque teríamos que procurá-las e, segundo, porque o pensamento não será diverso ao que é exposto na relação acima. Esses textos estão todos disponíveis na literatura que relacionamos na bibliografia, ao final deste artigo, mas podem também ser todos baixados em PDF no nosso site: http://www.opiniaoespirita.org/obras_kardec.htm (as páginas não serão necessariamente as mesmas).
Para iniciarmos a nossa análise, é preciso delimitar claramente o significado da palavra "racismo", tanto em sua acepção antiga como moderna, para então verificarmos se os textos de Kardec se enquadrariam na definição com todas as suas variações. O racismo, enquanto sistema doutrinário, é um pensamento, uma crença como outra qualquer que, ainda que discordemos dela, deveríamos tolerar tanto quanto toleramos uma crença religiosa com a qual não concordamos, cabendo a cada um de nós apenas avaliar se está certa ou equivocada e, caso se queira, aderir ou criticar. O racismo também, com o tempo, ganhou a conotação de perseguição, discriminação, segregação, ou seja, saiu da condição passiva de simples crença para a condição ativa de apologia, por parte de seus adeptos, a ataques a grupos por eles considerados indesejáveis. Com essa conotação, pensamos que o racismo deva ser mesmo reprimido por parte das autoridades. A dúvida sobre se o Espiritismo, ou Kardec, seriam ou não racistas só se justifica sob o aspecto de sistema doutrinário, pois é facilmente demonstrável que o Espiritismo não prega o racismo que persegue, segrega ou discrimina, e isso se verifica inclusive pelo simples fato de não existir sequer uma única crítica ao Espiritismo elaborada nesse sentido. Mas mesmo sob o aspecto doutrinário, de simples crença, em que podem existir críticas seriamente elaboradas, é demonstrável que Allan Kardec e os Espíritos, e, consequentemente, o próprio Espiritismo, não são racistas mesmo sob esse aspecto, e que certas críticas, além de equivocadas, são superficiais e malevolentes ao extremo.
De princípio diremos que é muito difícil haver doutrinas, por mais antagônicas que sejam, que não possuam alguns pontos de contato entre si. Encontraremos, portanto, semelhanças de ideias entre a Doutrina Racista e a Doutrina Espírita, mas encontraremos também várias diferenças (listaremos abaixo 1 semelhança e 3 grandes diferenças, numeradas de 1 a 4, e inclusive desafiamos os nossos críticos a apontarem mais uma única semelhança além da que está abaixo admitida). O nosso objetivo é demonstrar que, apesar destes pontos de contato entres as duas doutrinas, que são convenientemente realçados pelos opositores do Espiritismo para acusá-lo de ser racista, as diferenças entre os dois sistemas nos demonstram que o Espiritismo e Kardec não se aproximam, nem de longe, das ideias racistas, e mesmo que porventura fossem considerados racistas, este seria uma espécie de “racismo professável”, perfeitamente consonante com a justiça e bondade divinas; que, ao mesmo tempo, suas consequências, se plenamente aceitas, ao invés de serem humilhantes para a humanidade como um todo ou parte dela, seriam, ao contrário, dignificantes; e que, se fossem tomadas todas as ações recomendadas pela Doutrina Espírita para a correção ou minimização das diferenças observadas (adiantando a conclusão, as medidas se resumem numa única palavra: educação), o efeito, ao invés de funesto para a humanidade como as consequentes logicamente do racismo materialista, seriam um presságio de progresso certo, tanto para esta geração como para as próximas, de todas as raças ou etnias, em qualquer grau evolutivo que possam estar.
Há ainda um outro ponto, baseado no qual algumas pessoas julgam poder escapar à discussão dessa questão das diferenças raciais; segundo suas opiniões, de acordo com a ciência, as raças humanas não existiriam de fato, pertencendo todos os homens a uma única raça chamada simplesmente de Raça Humana; que poderiam existir mais diferenças genéticas entre dois ingleses do que entre um inglês e um negro, e outros argumentos semelhantes. E a partir dessa ideia alguns já condenam prematuramente os textos de Kardec valendo-se do argumento de que ele se utilizaria de um conceito ultrapassado. Sem querer entrar no mérito científico da questão, o fato é que, sendo ou não raças, os seres humanos das diferentes regiões da Terra não são iguais. É fácil reconhecer um japonês, um africano, um índio, um alemão, um latino, um indiano, um árabe, etc... São essas diferenças, visíveis a olho nu, que se convencionou no passado a chamar de raça e, mesmo que o conceito “raça” ficasse cientificamente ultrapassado, ainda precisaríamos de um novo termo para nomeá-las, pois podemos negar tudo, menos aquilo que podemos ver com nossos próprios olhos.
Estamos longe de sermos os únicos a partilhar dessa opinião. O procurador do Banco Central do Brasil em Brasília (DF) e professor de Direito Penal e Processual Penal na Unip, entre outras atribuições, Sr. Alexandre Magno Fernandes Moreira Aguiar, escreveu, em sua Crítica à incriminação do Racismo, em se referindo às raças:
Alberto Silva Franco et al adotam o conceito tradicional de raça, qual seja: "conjunto de características físicas ou somáticas (cor da pele, do cabelo, formato dos olhos, crânio, nariz, etc.) herdado de um grupo ancestral de origens geográficas bem definidas". O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também utiliza esse conceito, dividindo as raças, para efeito de recenseamento, em: branca, preta, amarela, parda e indígena.
Porém, o Supremo Tribunal Federal (STF), em julgamento histórico, considerou imprópria a conceituação tradicional, nos seguintes termos:
"3. Raça humana. Subdivisão. Inexistência. Com a definição e o mapeamento do genoma humano, cientificamente não existem distinções entre os homens, seja pela segmentação da pele, formato dos olhos, altura, pelos ou por quaisquer outras características físicas, visto que todos se qualificam como espécie humana. Não há diferenças biológicas entre os seres humanos. Na essência são todos iguais. 4. Raça e racismo. A divisão dos seres humanos em raças resulta de um processo de conteúdo meramente político-social. Desse pressuposto origina-se o racismo que, por sua vez, gera a discriminação e o preconceito segregacionista".
A ousada decisão do STF deu guarida jurídica a uma posição hoje consolidada na comunidade científica: raça, no sentido de um agrupamento humano com características distintas dos demais, simplesmente não existe, pois a diversidade genética entre, por exemplo, os brancos, pode ser tão grande ou maior quanto entre os negros ou entre os amarelos. Como a interpretação não admite que se chegue a uma conclusão absurda, deve-se desconsiderar o termo raça na Lei 7716/89.
Nesse sentido, chega a ser surreal o Projeto de Lei 3.198/200 (Estatuto da Igualdade Racial) que divide a população brasileira em afro-brasileiros e o "resto", como se fosse possível e viável fazer tal classificação... (grifos em negrito nossos)
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=8735&p=1
Não ficou claro para nós se o procurador tem opinião favorável à existência das raças segundo Alberto Silva Franco ou à inexistência segundo a "comunidade científica" atual, respaldada pelo STF. Mas o fato é que filhos de negros não nascem brancos e com características físicas ou somáticas de brancos, ainda que entre o casal existam mais diferenças genéticas do que entre eles e um branco, e vice-versa, e isso é um fato que não podemos racionalmente negar, pois trata-se de negar o que vemos diante dos olhos, chamemos nós essa diferenciação de raça ou qualquer outro nome que queiramos inventar. Um biólogo que conhecemos uma vez nos sugeriu que a essas diferenças se deveriam denominar “fenotípicas”, mas de qualquer forma, para nós isso é apenas uma questão terminológica e que em nada afeta a nossa discussão e as nossas conclusões nesse artigo.
Em nossa opinião, contudo, a palavra “raça”, apesar de poder estar cientificamente desatualizada, possui uma significação social bastante expressiva e, a nosso ver, ainda é a mais apropriada para denominar essas diferenças, e, portanto, é a que vamos usar ao longo deste ensaio. Quem discordar e preferir um outro termo, ou uma outra expressão, que julgar “cientificamente” mais apropriada, simplesmente considere o nosso mesmo texto com a palavra “raça” substituída por esse outro termo ou expressão. Isso vale também para os textos de Kardec, pois o sentido de “raça” que pretendemos utilizar é o mesmo utilizado por Kardec, que por sua vez é, em linhas gerais, o mesmo enunciado por Alberto Silva Franco. Mas repetimos: em nossa opinião, a palavra “raça” ainda é a mais apropriada por melhor expressar a ideia de diferenças de origem estritamente corporal, enquanto que a palavra “etnia”, por exemplo, leva em conta também fatores regionais, climáticos, etc... Neste estudo não abordaremos estes últimos fatores, apesar de considerarmos que existam e que também exerçam grande influência na formação dos caracteres. Estamos interessados, por ora, somente nas influências corporais e, em se tratando de Espiritismo, nas influências espirituais, para que não nos percamos na nossa análise. Grifamos, pois algumas pessoas nos acusaram de desprezar outros fatores que não os biológicos e espirituais, quando simplesmente o que fizemos foi não abordá-los, por fugir à proposta deste ensaio, que é o de responder à acusação de racismo ao Espiritismo.
Vamos então, a partir de agora, enumerar alguns conceitos que caracterizam a palavra "racismo", ou "racista", no sentido doutrinário, e, abaixo de cada conceito, verificaremos o quanto os conceitos kardequianos se aproximam ou se afastam destes. Vamos então ao primeiro:
1. O racismo é uma doutrina que defende a existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras em diferentes aspectos.
O Espiritismo, de fato, não nega que o ser humano possua diversos caracteres corporais que limitam em maior ou menor grau a manifestação das habilidades, pois isso é um fato diretamente observável. E não é absurdo dizer que os indivíduos que possuam mais características limitadas ficam em condições de desvantagem sobre aqueles que não as têm; em outras palavras, que elas estão numa condição de inferioridade corporal, ou biológica, naquele critério específico. Isso é mais evidente ao compararmos, por exemplo, um deficiente físico com uma pessoa dita normal: uma pessoa que enxerga sempre estará em condições de superioridade física (no critério "visão") do que alguém que não enxerga; a pessoa cega possui limitações em maior grau do que a que enxerga, e assim sucessivamente; e essa superioridade ou inferioridade é de origem estritamente biológica.
No artigo que fizemos menção acima, do procurador Alexandre Aguiar, podemos ler na Introdução:
De acordo com Gonzalo Fernandes de la Mora, "igualdade biológica não existe: simplesmente não é verdade que todos nasçamos iguais". Cada ser humano é único, em termos de vivência e, principalmente, em composição genética. Por isso, para que a vida em sociedade seja viável, em termos de segurança e justiça, é essencial o respeito a essa individualidade, considerada não só em cada pessoa, mas também em todo um grupo de pessoas, especialmente naqueles que contam com características estigmatizadas na sociedade, como determinada raça, religião ou procedência. (grifos nossos)
Portanto, segundo a citação acima, a imoralidade não está na crença nas diferenças, na crença na existência das raças, e nem mesmo na crença na superioridade ou inferioridade, mas sim no desrespeito à individualidade e ao direito que cada um tem de possuir mais ou menos limitações e de ser diferente. Então, sim, Allan Kardec e os Espíritos enxergaram uma inferioridade relativa nos negros de sua época, da mesma forma que nós, sob as luzes dos conhecimentos atuais, observando os dados, também enxergaríamos, e isso não pode ser considerado imoral, por se tratar de uma especulação (ainda que errada) e não de uma ação prática. Essa pode ser, no máximo, acusada de ser uma crença falsa, ao qual, se demonstrada, o Espiritismo renunciaria pelo seu próprio caráter progressista. Mas infelizmente essa demonstração ainda não veio, ou ainda não é tão evidente ao ponto de o Espiritismo poder renunciar às ideias originais, visto que o Espiritismo só se dobra às verdades finais e não a meras hipóteses (cf. A Gênese, cap. 1, item 55). Obs.: mais à frente veremos que o Espiritismo tem um entendimento completamente diverso da doutrina racista sobre superioridades ou inferioridades.
Que os indivíduos são diferentes uns dos outros, é ponto pacífico, cremos. A polêmica está em se saber se certas diferenças se propagam entre grupos, como as raças ou etnias, assim como se observam entre os indivíduos, o que algumas pessoas, por escrúpulos mais morais e éticos do que científicos, parecem não crer. Por exemplo, um chinês é reconhecido primariamente por seus olhos mais fechados, mas é possível também reconhecer um chinês pela sua cor, sua estatura média, suas feições, formato do crânio, etc... e essas são diferenças que se propagam exclusivamente pela raça através da descendência, pois o filho de um europeu, ou de um africano, jamais nascerá com os olhos mais fechados e com as feições e cores dos chineses; essa é uma característica exclusiva de um grupo que chamaremos provisoriamente de raça chinesa. Então, como já dissemos, não podemos negar aquilo que vemos; os fatos estão aí, e os chineses se parecem com chineses, os africanos com africanos, os indianos com indianos e os caucasianos com caucasianos. Mas essas são diferenças visíveis a olho nu. Será que existiriam outras diferenças não detectáveis a olho nu?
Por exemplo, no quesito resistência física: seriam as raças de estatura média maior mais fortes fisicamente do que as raças de estatura média mais baixa, assim como o homem é mais forte fisicamente do que a mulher? Diríamos que sim, pelo menos na média. E quanto às capacidades mentais? Em todos os povos encontramos pessoas muito inteligentes e muito estúpidas, e entre os dois extremos uma multidão de medíocres. Mas a média das inteligências variaria entre as raças e de acordo com a especialidade explorada? Em outras palavras, seria possível encontrar algum padrão de especialização entre as raças? Também responderíamos que sim (ainda que hipoteticamente), e justificaremos a seguir, apesar de haverem influências sociais e geográficas que exercem grande influência no modo de vida dos povos. O Espiritismo diz ainda haver, além desses fatores, diferenças de origem espiritual, que também discutiremos a seguir.
Mas o fato é que, não importando o que as originou, as diferenças raciais existem (minimamente as externas), e são inegáveis. Não se trata, portanto, de negar o fato, mas de explicá-lo. São definitivas essas diferenças? Em acordo com o que ensina o Espiritismo, responderemos que não, que elas são apenas temporais, e a argumentação a seguir fará com que fique isso claro, pois essa é uma das questões a que só o Espiritismo (nos desculpem as outras religiões ou filosofias não espíritas ou antiespíritas) pode oferecer solução satisfatória.
O Espiritismo afirma que a fonte de toda a inteligência e de toda a virtude se encontra na alma. Mas os corpos funcionam como fatores limitadores das manifestações da alma. Em outras palavras, para o Espiritismo, o corpo não cria a inteligência, mas ele limita a sua manifestação em tal ou qual sentido. E ainda segundo o Espiritismo, algumas raças teriam menos limitações corporais do que outras, dependendo da especialidade observada. Essa opinião pode ser constatada nas citações abaixo:
Sob o mesmo envoltório, quer dizer, com os mesmos instrumentos de manifestação do pensamento, as raças não são perfectíveis senão em limites estreitos, pelas razões que desenvolvemos. Eis por que a raça negra, enquanto raça negra, corporeamente falando, jamais alcançará o nível das raças caucásicas; mas, enquanto Espíritos, é outra coisa; ela pode se tornar, e se tornará, o que somos; somente ser-lhe-á preciso tempo e melhores instrumentos. Eis porque as raças selvagens, mesmo em contato com a civilização, permanecem sempre selvagens; mas, à medida que as raças civilizadas se ampliam, as raças selvagens diminuem, até que desapareçam completamente, como desapareceram as raças dos Caraíbas, dos Guanches, e outras. Os corpos desapareceram, mas em que se tornaram os Espíritos? Mais de um, talvez, esteja entre nós. (grifos nossos) (Revista Espírita abr/1862 - Frenologia Espiritualista e Espírita - Perfectibilidade da Raça do Negro - pág. 105)
Em O Livro dos Espíritos, na questão 220, também encontramos:
220. Pode o Espírito, mudando de corpo, perder algumas faculdades intelectuais, deixar de ter, por exemplo, o gosto das artes?
Resposta: “Sim, desde que conspurcou a sua inteligência ou a utilizou mal. Depois, uma faculdade qualquer pode permanecer adormecida durante uma existência, por querer o Espírito exercitar outra, que nenhuma relação tem com aquela. Esta, então, fica em estado latente, para reaparecer mais tarde." (grifos nossos) (págs. 164 e 165)
Vemos então, claramente, que os Espíritos afirmam que o corpo pode sim limitar a manifestação da inteligência, e que um grande matemático pode vir a nascer num corpo que, por exemplo, seja pouco apropriado ao desenvolvimento dessa disciplina, seja por punição, por algum mau uso passado, seja por seu próprio interesse, por escolher se desenvolver em outra área do conhecimento. O seu Espírito, portanto, pode ser um grande matemático, mas seu instrumento (o seu corpo) não lhe permite desenvolver, na Terra, esse conhecimento, pelo que ele nos pareceria, enquanto encarnado, um medíocre ou um estúpido nessa área. E pensamos não ser absurdo supor, sem querer afirmar absolutamente, que essas diferenciações podem se propagar através das raças, que criariam uma espécie de especialização de habilidades específicas, de acordo com a região onde se encontram, para uso dos Espíritos durante suas encarnações.
Essa observação é interessante por nos levar a concluir que nem todo mundo que parece ignorante ou pouco inteligente na vida corporal, pode realmente o ser de fato, em Espírito, mas pode apenas estar sendo limitado pelo seu corpo. Alguns na Terra seriam então medíocres pelo corpo, enquanto que outros o seriam por seu próprio Espírito. Por quantos gênios será que já não cruzamos pela Terra e o tomamos por ignorante? É para se pensar... A recíproca não é, contudo, verdadeira; ou seja, aquele indivíduo que demonstre inteligência fora do comum, tem efetivamente um corpo menos limitado que lhe permite manifestar essa inteligência, mas essa inteligência não proveio do seu corpo, mas do seu próprio Espírito, através de progresso anteriormente realizado. O corpo, segundo o Espiritismo, funciona apenas como fator limitador (como "freio"), e não gerador de habilidades intelectuais. O corpo do sábio apenas limita menos a manifestação do seu Espírito, ao passo que num outro corpo ele não se pareceria com um sábio.
O Espiritismo admite, portanto, a possibilidade de vantagens biológicas relativas de umas raças sobre as outras, não no sentido de criar habilidades (pois o corpo por si só não é capaz de criar nada), mas de limitá-las em maior ou menor grau; admite também a possibilidade da vantagem ou desvantagem absoluta (ou seja, em todos os sentidos) de alguma raça em relação às outras, embora não saiba informar se isso de fato ocorre na Terra. Mas de uma forma ou de outra, não há como sofismar, e a visão espírita coincide com a visão racista neste aspecto, com a ressalva de que para o Espiritismo essas diferenças seriam apenas temporais e para o racista essas diferenças seriam definitivas e irremediáveis. Essa visão (do ponto de vista espírita), contudo, ainda não apresenta nada de imoral, porque a realidade, para ser do jeito que é, não dependeu de Kardec e de nenhum espírita, não lhes cabendo, portanto, nenhuma responsabilidade, e porque nada se disse ainda sobre o respeito ou desrespeito às individualidades (que é a ação, regida pela moralidade, por onde ele poderia ser justamente condenado e é justamente onde não existe nenhuma evidência contra Kardec) e as outras comparações que virão em seguida serão decisivas para essa conclusão.
E temos também uma objeção, dessa vez dirigida especificamente para os espíritas que negam a possibilidade das diferenças corporais: segundo a doutrina, sabemos que existem Espíritos superiores e inferiores (no sentido de mais e menos adiantados); que da mesma forma, Deus reserva mundos diferentes destinados a Espíritos superiores e inferiores. Nos mundos superiores os corpos seriam mais sutis e mais belos; nos mundos inferiores, os corpos seriam mais densos e grosseiros. Portanto, as diferenças corporais são admitidas entre mundos. Mas por que razão essas diferenças não podem ser admitidas num mesmo mundo, claro que numa escala de proporção bem menor? O que é que impede Deus de colocar num mesmo mundo povos mais adiantados habitando determinada região e povos menos adiantados habitando outra determinada região (diferenciados ou não por raças), a fim de que usufruam de mútuo aprendizado e experiência? É a pergunta para a qual ainda não obtivemos nenhuma resposta satisfatória. Portanto, negar as diferenças, ao menos como possibilidade, é negar também a evolução corporal e espiritual, que são princípios fundamentais da doutrina; negar as diferenças, ao menos como possibilidade, é negar o Espiritismo, e os opositores devem estar felicíssimos quando essa negação parte dos próprios espíritas. Que os confrades então reflitam, porque, se persistirem na renegação dos textos kardequianos (como possibilidade), de duas uma: ou vão renegar a doutrina no seu aspecto de evolução espiritual e de categorias de mundos habitados, tornando-a inviável como sistema doutrinário logicamente válido, ou; caso persistam em crer na evolução espiritual e nas categorias de mundos habitados, vão restabelecer a acusação de "racismo" por parte dos opositores, que embora seja injusta, é justamente o que se pretenderia evitar renegando os textos kardequianos. Por outro lado, considerando a possibilidade de Deus fazer tal coisa, para podermos rejeitar os textos kardequianos, seria preciso mostrar (provar) porque é que Deus não fez isso na Terra. Tudo isso continua sem resposta por parte daqueles que defendem a renegação dos textos kardequianos e estamos aguardando ansiosamente por essas respostas, de modo que possamos concordar já com uma modificação doutrinária do Espiritismo e pararmos de nos indispor com o senso comum, que continua achando a admissão de qualquer diferença entre as raças algo absolutamente imoral.
É bom também lembrar que estamos nos referindo sempre às raças puras, porque quando há miscigenação, não é que as diferenças deixem de existir e que o novo grupo formado não possua características próprias, mas perde-se totalmente as bases para comparações pela falta de históricos. Quando falarmos do alemão será o alemão não misturado, quando falarmos do negro será do negro não misturado, etc... É importante ressaltar isso, porque é comum ouvirmos como réplica que tal critério não se aplicaria porque se observam vários indivíduos que a ele não se adequam, mas quando pedimos exemplos, nos apresentam mestiços. Ora, os mestiços podem adquirir características de uma ou outra raça, e não é válido como amostra, nem para corroborar algo, nem para refutar. É claro que as raças puras atuais podem ter se originado de misturas passadas; mas como essas misturas ocorreram há muito tempo atrás, as características próprias do novo grupo podem ser reconhecidas, ao passo que nos novos miscigenados não houve tempo para esse reconhecimento. Daqui a alguns séculos talvez possamos falar da “raça brasileira”, com características próprias, por exemplo, se as misturas se restringirem ao nível nacional e não deixarem o país, visto que as raças tenderão a se homogeneizar, a adquirir identidade própria, como possuem os alemães, as diversas raças negras, os japoneses, os indianos, etc. Mas por enquanto não é possível.
Vejamos então uma segunda característica da doutrina racista:
2. O racismo é uma doutrina que prega que o corpo só evolui pelo corpo. O racista, quando não nega a existência da alma, também não lhe atribui qualquer influência na formação, no desenvolvimento e na evolução dos corpos. Isso implica que, segundo esta doutrina, os descendentes de raças "inferiores" serão sempre "inferiores", e os descendentes de raças "superiores" serão sempre "superiores". Do cruzamento de um elemento de uma raça "inferior" com um elemento de uma raça "superior" sempre resultaria um elemento intermediário. Adeptos da Teoria Eugenista chegaram a desaconselhar o cruzamento inter racial para não estragar a “raça boa”. Francis Galton (1822-1911),
escreveu: "as forças cegas da seleção natural, como agente propulsor do progresso, devem ser substituídas por uma seleção consciente e os homens devem usar todos os conhecimentos adquiridos pelo estudo e o processo da evolução nos tempos passados, a fim de promover o progresso físico e moral no futuro".
Aqui já encontramos uma diferença radical entre o Espiritismo e o racismo. O Espiritismo, primariamente, considera que o corpo evolui somente segundo a evolução dos Espíritos, e mesmo quando considera a evolução do corpo pelo corpo, lá no início da cadeia teria sido sempre o Espírito a causa primária dessa evolução. A matéria, através da genética, influiria apenas na repetição das características já adquiridas, mas não teria influência na geração de novas características. Portanto, certa ou errada esta tese, deduz-se que o Espiritismo nega a evolução dos corpos a partir dos próprios corpos e isso muda totalmente a forma como o Espiritismo enxerga a superioridade ou inferioridade das raças e de seus descendentes, com relação à visão racista. E considerando isso, em que se torna então a primeira diferença admitida no item 1 acima entre as raças, visto que uma raça qualquer poderia se transformar em qualquer outra raça, impulsionada pelo gênero de espírito que nela encarna? Não estaria aí a consagração da igualdade corporal, aos olhos dos espíritas? Mas deixemos o item 1 como está, pois o que queremos demonstrar é que não é imoral crer nas diferenças corporais, e não resolver definitivamente a questão da existência ou inexistência dessas diferenças.
Como, segundo o Espiritismo, é a alma, fonte da inteligência e da virtude, que impulsiona o desenvolvimento ou a degeneração dos corpos, a tese de que os descendentes de raças mais adiantadas serão sempre os mais adiantados e que os descendentes de raças menos adiantadas serão sempre os menos adiantados, perde inteiramente o sentido no Espiritismo. Uma raça que é mais adiantada hoje pode ser menos adiantada amanhã e vice-versa, pois não sabemos que gênero de Espíritos Deus designará para a encarnação em tal ou qual raça no futuro. A história parece demonstrar-nos isso, pois, ao longo dos tempos, vários povos, de várias raças, tiveram o seu período de superioridade e depois a perderam: os egípcios, os gregos, judeus, os romanos, etc... Quem as seguir em suas evoluções através dos tempos verá a vida das diversas raças marcada por períodos que dão a cada época uma fisionomia particular (Kardec).
Ainda segundo o Espiritismo, se numa raça que fosse hoje mais adiantada e mais bela começasse a encarnarem-se somente Espíritos do nível evolutivo dos homens das cavernas, ao cabo de algumas gerações (não podemos precisar quantas), os corpos dos descendentes dessa raça tenderiam a mudar as suas formas e as suas características, de modo que se tornariam legítimos homens das cavernas; legítimos selvagens. Pela falta de uso, várias habilidades intelectuais atrofiariam. Por outro lado, certas habilidades físicas se desenvolveriam ou se adaptariam pela necessidade do Espírito de usá-las. O inverso também ocorreria, ou seja, se o gênero de Espíritos que habitualmente encarna em determinada raça evoluísse, seus corpos também evoluiriam, em algumas gerações, no mesmo sentido da evolução espiritual. Em nossa opinião, é o que atualmente ocorre e continuará ocorrendo, e todas as raças tenderão a ficar cada vez mais inteligentes e mais belas, embora não necessariamente todas igualmente inteligentes e belas, pois o planeta está em evidente processo de elevação intelectual e moral. A Gênese corrobora essa ideia de adaptação dos corpos no extrato abaixo.
15. - Da semelhança, que há, de formas exteriores entre o corpo do homem e o do macaco, concluíram alguns fisiologistas que o primeiro é apenas uma transformação do segundo. Nada aí há de impossível, nem o que, se assim for, afete a dignidade do homem. Bem pode dar-se que corpos de macaco tenham servido de vestidura aos primeiros Espíritos humanos, forçosamente pouco adiantados, que viessem encarnar na Terra, sendo essa vestidura mais apropriada às suas necessidades e mais adequadas ao exercício de suas faculdades, do que o corpo de qualquer outro animal. Em vez de se fazer para o Espírito um invólucro especial, ele teria achado um já pronto. Vestiu-se então da pele do macaco, sem deixar de ser Espírito humano, como o homem não raro se reveste da pele de certos animais, sem deixar de ser homem.
Fique bem entendido que aqui unicamente se trata de uma hipótese, de modo algum posta como princípio, mas apresentada apenas para mostrar que a origem do corpo em nada prejudica o Espírito, que é o ser principal, e que a semelhança do corpo do homem com o do macaco não implica paridade entre o seu Espírito e o do macaco.
16. - Admitida essa hipótese, pode dizer-se que, sob a influência e por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório se modificou, embelezou-se nas particularidades, conservando a forma geral do conjunto (nº 11). Melhorados, os corpos, pela procriação, se reproduziram nas mesmas condições, como sucede com as árvores de enxerto. Deram origem a uma espécie nova, que pouco a pouco se afastou do tipo primitivo, à proporção que o Espírito progrediu. O Espírito macaco, que não foi aniquilado, continuou a procriar, para seu uso, corpos de macaco, do mesmo modo que o fruto da árvore silvestre reproduz árvores dessa espécie, e o Espírito humano procriou corpos de homem, variantes do primeiro molde em que ele se meteu. O tronco se bifurcou: produziu um ramo, que por sua vez se tornou tronco.
Como em a Natureza não há transições bruscas, é provável que os primeiros homens aparecidos na Terra pouco diferissem do macaco pela forma exterior e não muito também pela inteligência. Em nossos dias ainda há selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés e pela conformação da cabeça, têm tanta parecença com o macaco, que só lhes falta ser peludos, para se tornar completa a semelhança. (grifos nossos) (A Gênese, cap. XI – Gênese Espiritual - Hipótese sobre a origem do corpo humano, itens 15 e 16, págs. 243 e 244)
Como alguns chegam ao absurdo e ao ridículo de comparar as ideias de Allan Kardec com as de Adolf Hitler, não podemos deixar de nos manifestar e desmistificar essa ideia através do óbvio. Se Hitler tivesse tido uma visão espiritualista da evolução corporal como tem o Espiritismo, ele perceberia que seria inútil acabar com todas as raças e só preservar a raça ariana, ainda que ela fosse de fato superior, como ele acreditava. Como o homem não tem controle sobre os Espíritos que se reencarnam na Terra, mas somente Deus, mesmo que os nazistas fossem bem sucedidos e só restasse uma única raça pura na Terra, todas as diferenças tenderiam a se restabelecer novamente dentro de algumas gerações, impulsionadas pelas diferenças dos Espíritos dos ex-negros, ex-judeus, ex-asiáticos, ex-latinos, etc., que retornariam à Terra reencarnando-se na raça ariana. Dentro de algumas gerações veríamos novamente todas as raças de volta na Terra, com todas as suas potencialidades e fraquezas. Isso demonstra a ingenuidade dos que comparam as crenças de Kardec às crenças de Hitler ou às dos nazistas. Portanto, se Hitler tivesse sido espírita, fatalmente perceberia a inutilidade do que tentou empreender e só os opositores de má-fé do Espiritismo é que parecem não perceber isso.
Ainda segundo esse mesmo conceito de evolução corporal impulsionada pelo Espírito, o Espiritismo também vê com outros olhos a miscigenação. Enquanto que a Eugenia desaconselha as uniões inter-raciais, o Espiritismo, ao contrário, até incentiva. Se nas uniões das raças puras a modificação dos corpos em função da modificação dos Espíritos se daria ao término de várias gerações, com a miscigenação a mudança ocorreria de forma muito mais rápida, pois os elementos das duas raças se encontrariam à disposição do Espírito reencarnante. Se um homem civilizado, por exemplo, se unisse a uma mulher das cavernas, o resultado seria um corpo que poderia ter as características tanto de um como de outro, ou parcialmente de ambos, cabendo ao Espírito reencarnante escolher as que melhor lhe serviriam para a sua encarnação na Terra. Nesse caso, com a miscigenação, uma mudança que levaria várias gerações poderia se dar em algumas poucas, ou até mesmo em uma única geração. Esse pensamento pode ser entendido, embora não ipsis litteris, pela seguinte citação da Revista Espírita:
As raças são também perfectíveis pelo corpo, mas isso não é senão pelo cruzamento com as raças mais aperfeiçoadas, que lhes trazem novos elementos que as enxertam, por assim dizer, os germes de novos órgãos. Esse cruzamento se faz pelas emigrações, pelas guerras, e pelas conquistas. Sob esse aspecto, há raças, como famílias, que se abastardam se não se misturam com sangues diversos. Então, não se pode dizer que isso seja a raça primitiva pura, porque sem cruzamento essa raça será sempre a mesma, seu estado de inferioridade relacionado à sua natureza; ela degenerará em lugar de progredir, e é o que a conduz ao desaparecimento num tempo dado. (grifo em negrito e sublinhado nosso) (Revista Espírita abr/1862 - Frenologia Espiritualista e Espírita - Perfectibilidade da Raça do Negro - pág. 104)
Kardec tratou acima somente da possibilidade de evolução das raças pelos enxertos, e não da retrogradação, pois, segundo dizem os Espíritos, os mundos tendem a progredir sempre. Mas é bom lembrar que a única retrogradação que o Espiritismo não admite é a do Espírito, mas que os corpos e os mundos poderiam sim, em princípio, retrogradar, caso aprouvesse a Deus, por exemplo, mudar a condição de um mundo que normalmente só encarnam-se Espíritos superiores para um mundo onde encarnariam-se somente Espíritos inferiores. Kardec pensava, e concordamos com ele, que os mundos progridem porque os Espíritos sempre progridem, e precisam de moradas e de corpos cada vez mais aperfeiçoados. Mas a ideia da retrogradação corporal em si não pode ser descartada como possibilidade no Espiritismo.
No mesmo parágrafo citado acima da Revista Espírita, também constatamos uma observação interessante: Kardec fala nele apenas da evolução dos corpos pelos corpos, deixando de lado a influência espiritual, como numa espécie de “Teorema de Superposição”, onde se analisa uma fonte de influência de cada vez, isoladamente, para depois verificar seus efeitos no conjunto. Se de uma hora para outra deixasse de haver qualquer influência espiritual na evolução corporal, de acordo com o Espiritismo, os corpos tenderiam a se degenerar com o tempo, pois estes sendo apenas capazes de repetir o que já adquiriram, não seriam capazes de corrigir por si sós anomalias que ocorressem no processo de replicação, decorrentes de fatores ambientais, radiações, doenças, etc., fazendo com que os corpos degenerassem com o tempo ao invés de ficarem simplesmente estacionários; onde, não havendo nenhum tipo de interferência inteligente, o grau de desordem tenderia sempre a aumentar. Felizmente, pensamos não ser este o caso, pois a influência espiritual inteligente existe sempre e essa influência é mais forte e efetiva, e capaz de conter e diminuir gradativamente a desordem biológica.
Ainda segundo o Espiritismo, ninguém precisaria ficar aflito se no cruzamento inter-racial a criança "puxaria" mais o "lado bom" ou o "lado ruim" das raças, pois essa tendência dependeria sempre do Espírito que reencarna, e a escolha desse Espírito está nas mãos de Deus, com a frequente participação dos próprios pais e do Espírito reencarnante, sem que estes se lembrem disso na vida corporal. Portanto, segundo o Espiritismo, os pais não precisariam se preocupar se fazem parte de uma “loteria da natureza”, onde se teria 50% de chance de puxar o "lado bom" ou o "lado ruim", pois isso depende exclusivamente de fatores espirituais e planejados por Deus e a espiritualidade, muitas vezes em comum acordo com eles próprios na condição de Espíritos.
O Espiritismo, pelas razões que já expusemos acima, não nega o fato das diferenças corporais durante o período de uma existência. Os corpos certamente que podem se desenvolver no período de uma vida, mas os limites seriam mais estreitos para uns do que para outros. Isso é a mesma coisa que dizer que um cego de nascença não vai enxergar durante toda a sua vida e, mesmo que o fizer algum dia, com a ajuda da medicina ou de uma cura espontânea, certamente não será com a mesma qualidade que o faz uma pessoa com as vistas perfeitas desde o nascimento. Isso é uma condição fatal para todo o período de uma única existência corporal. Nesse sentido, a visão espírita coincide com a visão racista, mas no período de uma existência apenas.
A grande diferença está no porvir. O Espiritismo prega que todos os Espíritos são iguais e igualmente perfectíveis. As limitações que existem no âmbito corporal não se refletem no mundo espiritual. Em outras palavras, na visão espírita, não existem Espíritos deficientes, não existem “raças de Espíritos”, e todos os Espíritos são igualmente capazes de tudo. Então, enquanto o racista vê no índio selvagem um ser que jamais será como ele, que será eternamente ignorante e inferior, por enxergar apenas o corpo, o espírita vê um irmão que, se inferior hoje, positivamente e fatalmente será como ele algum dia, ou até melhor, embora isso possa não acontecer num mesmo corpo físico. O racista vê o selvagem como um diferente e mesmo como uma aberração. O espírita o vê como um irmão mais novo, que apenas precisa de alguns cuidados, instrução e tempo para se desenvolver e nos quais todos são responsáveis por auxiliá-lo. Abaixo seguem duas citações (dentre muitas) que corroboram esse pensamento do ponto de vista espírita:
Os negros, pois, como organização física, serão sempre os mesmos; como Espíritos, sem dúvida, são uma raça inferior, quer dizer, primitiva; são verdadeiras crianças às quais pode-se ensinar muita coisa; mas, por cuidados inteligentes, pode-se sempre modificar certos hábitos, certas tendências, e já é um progresso que levarão numa outra existência, e que lhes permitirá, mais tarde, tomar um envoltório em melhores condições. Trabalhando para o seu adiantamento, trabalha-se menos para o presente do que para o futuro, e, por pouco que se ganhe, é sempre para eles um tanto de aquisições; cada progresso é um passo adiante, que facilita novos progressos. (grifos nossos) (Revista Espírita abr/1862 - Frenologia Espiritualista e Espírita - Perfectibilidade da Raça do Negro - págs. 104 e 105)
Igualdade natural
803. Perante Deus, são iguais todos os homens?
“Sim, todos tendem para o mesmo fim e Deus fez Suas leis para todos. Dizeis frequentemente: “O Sol luz para todos” e enunciais assim uma verdade maior e mais geral do que pensais.”
Todos os homens estão submetidos às mesmas leis da Natureza. Todos nascem igualmente fracos, acham-se sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Deus a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte: todos, aos Seus olhos, são iguais. (grifo nosso) (O Livro dos Espíritos - Parte Terceira, Das Leis Morais - cap. IX - Da Lei de Igualdade - pág. 421)
Sabemos que alguns dirão que isso se refere a um futuro que não se sabe ao certo se vai realmente existir, e que essa teoria não resolve o problema do "agora", que para esses é o que realmente importa. Mas igualmente perguntaríamos como é que qualquer outro sistema resolveria, de uma forma melhor que o Espiritismo, essa questão, pois essa visão de futuro e suas consequências (ainda que fosse mero ideal imaginário) se refletem mesmo já no período da vida corporal, porque mesmo não negando as diferenças, olharíamos-nos todos como irmãos que temos responsabilidade solidária uns para com os outros. Não é essa uma perspectiva mais consoladora e digna do Criador, do que a hipocrisia de dizer que somos todos igualmente capazes (na vida corporal) quando a experiência mostra que não somos? A quem queremos enganar, senão a nós mesmos?
Vê-se, portanto, que há uma diferença conceitual fundamental entre o racismo e o Espiritismo nesse aspecto, pois a introdução do Espírito é um fator extremamente revolucionário e que, mesmo que a Doutrina Espírita fosse considerada uma variação da doutrina racista, essa nova perspectiva seria muito mais confortante e consoladora do que a perspectiva do racismo materialista, ou mesmo da perspectiva da falsa igualdade, que muitos afirmam veementemente existir entre os povos, mas que, infelizmente, por não conseguirmos constatá-la em lugar algum, criar-nos-ia um imenso vazio e frustração. As únicas igualdades terrenas que todos somos moralmente obrigados a reconhecer, que o Espiritismo, Kardec e os Espíritos reconheciam, e que nós, pessoalmente, reconhecemos, são as dos direitos e deveres, que são consequências diretas do respeito às individualidades, conforme já mencionamos acima; nenhuma mais. Grifamos, para que ninguém ignore ser este o nosso pensamento e do Espiritismo.
Vejamos então outra característica do racismo:
3. O racismo considera a existência das raças inferiores como um fator de perturbação e atraso social, com alguns chegando até ao extremo de pregar a sua extinção.
Eis aqui outra diferença fundamental. O Espiritismo não nega que existam corpos, e mesmo raças, fisicamente mais ou menos hábeis para certos desenvolvimentos físicos, intelectuais e morais. Mas afirma que todas são necessárias ao progresso, primeiro da sociedade, e depois dos indivíduos; pois há desenvolvimentos e trabalhos que precisam ser feitos em todos os níveis e especialidades da inteligência e capacidades humanas. Segundo o Espiritismo, cada Espírito encarna na Terra com um objetivo específico, e o corpo que cada um recebe é adequado para esse objetivo, que ele cumpre naturalmente, segundo suas próprias aptidões, muitas vezes até inconscientemente, colaborando para o seu progresso individual como para o progresso coletivo, de acordo com a sua situação e necessidades evolutivas. Mesmo os corpos deficientes físicos têm a sua ação depuradora sobre o Espírito que nele se encarna e, portanto, têm a sua utilidade. Aliás, uma deficiência num ponto normalmente favorece um desenvolvimento em outro ponto.
Então, embora os corpos possam ser "inferiores" ou "superiores" quanto a certas características, são todos superiores para os objetivos de progresso que se almeja alcançar. Cada um recebeu o instrumento mais apropriado ao seu próprio progresso e necessidades individuais. Mal comparando, é como perguntar: qual automóvel é melhor? O que corre mais ou o que tem melhor rendimento de combustível (supondo-se que não se consiga obter as duas coisas juntas)? Isso vai depender do que se quer fazer com o automóvel. Aquele que precisa correr, o primeiro carro será considerado superior, e para o que não precisa correr, o segundo automóvel será considerado superior. O Espiritismo afirma a mesma coisa a respeito dos corpos físicos e, consequentemente, das raças. Cada uma, enquanto existir, é útil aos indivíduos e à humanidade, por estar adequada às necessidades temporais, pois que Deus nada faz de inútil.
Entretanto, há uma resposta de São Luís na Revista Espírita, que é alvo de críticas sérias:
Pergunta (de Allan Kardec): A raça negra é verdadeiramente uma raça inferior?
Resposta (de São Luís): A raça negra desaparecerá da Terra. Ela foi feita para uma latitude diferente da vossa. (Revista Espírita jun/1859 - O Negro Pai César - pág. 162)
Repare bem o leitor a diferença entre dizer que haverá a extinção e fazer apologia ao extermínio. A diferença é enorme e alguns, até propositadamente, confundem. O que São Luís quis dizer é que a raça negra desapareceria gradualmente e naturalmente. O Espiritismo e os espíritas se comportam, nesse caso, como meros espectadores de um fenômeno natural que, segundo São Luís, futuramente ocorreria. Em nosso entender, a raça negra hoje desaparece principalmente em função da miscigenação, muito maior nos dias de hoje (embora ainda se considere o mulato ou o pardo como negros). Mas o entendimento da pergunta de São Luís vai mais além. O que ele quis dizer, nas entrelinhas, é que a raça negra (pelo menos a existente até àquele tempo) era uma raça cujos corpos eram preparados para a expiação e para o sofrimento físico. Ela tinha como característica um corpo bastante robusto, forte, resistente, bruto mesmo, apto a melhor suportar e, consequentemente, menos sofrer com as brutalidades da escravidão a que foram impostos durante séculos, ou mesmo as condições de vida rude da África. Mesmo hoje, em regiões subdesenvolvidas, onde o trabalho braçal sobrepuja o intelectual, esses corpos ainda são bastante necessários. Mas desaparecerão naturalmente à medida que o trabalho for se tornando cada vez mais intelectual. Nada nisso há que afronte a razão ou a moral.
Quando São Luís afirma que essa raça desapareceria da Terra, ele não se referia tão somente à raça negra, mas a todas as raças preparadas para a expiação, visto que a Terra agora se transforma em mundo de regeneração, onde os trabalhos intelectuais tenderão a ser mais frequentes que os trabalhos braçais; onde não haverá mais escravidão, nem brutalidades, nem violências (pelo menos não a institucional); onde as guerras serão travadas mais nos campos ideológicos do que com armas em punho, sendo, portanto, esses tipos de corpos tornados desnecessários. Essa realidade futura já experimentamos mesmo hoje, em várias regiões da Terra, onde os trabalhos são em grande maioria intelectuais, mesmo no campo, onde a máquina substitui o braço do trabalhador. Em mais alguns anos, essa será a realidade da Terra toda; é questão apenas de mais alguns anos. E o desaparecimento dessas raças se daria do modo que descrevemos acima no item 2, ou seja, Espíritos melhores encarnando-se na Terra causarão o consequente desenvolvimento dos corpos e das raças, e a miscigenação, quando ocorrer, aceleraria o processo. Não existe, portanto, na citação acima de São Luís, nada que afronte a razão e tampouco nenhuma apologia à dominação, extermínios, esterilizações, violências, guerras, etc..., sendo nula qualquer crítica nesse sentido.
Também, neste momento, é importante esclarecer que, quando Allan Kardec se referiu à raça negra, ele na realidade se referia a uma raça que ele considerava selvagem, pois pelo menos no tempo dele não existiam negros vivendo em sociedades civilizadas, ou que não tivessem traços selvagens, e se existiam, ele provavelmente não conhecia e, portanto, ele fez uma generalização que levou algumas pessoas a concluir que a diferenciação era pela cor da pele, e não pela raça. Ele apenas usou a raça negra (que aliás, não se restringe a uma só raça) como exemplificação, mas se referiu a todas as raças selvagens, independentemente da cor. Os Guanches, por exemplo, também citados por Kardec como exemplo de raça selvagem, eram indivíduos de uma raça que desapareceu por volta do século XIV ou XV e cujos elementos tinham pele e olhos claros e cabelos por vezes loiros, o que levou alguns pesquisadores a lhes atribuírem uma origem germânica ou celta. Kardec atribuía aos Guanches uma inferioridade relativa maior que aos negros, pois que ela desapareceu antes deles, enquanto que o gênero corporal que caracteriza a raça negra ainda é útil na Terra.
Logo, embora alguns possam fazer confusão, nunca foi à cor da pele que Kardec se referiu, mas aos aspectos e traços selvagens. Hoje, contudo, é bastante comum encontrarmos indivíduos da cor negra sem aspectos selvagens, alguns até como ícones de beleza física e inteligência.
Vamos a outra característica do racismo:
4. O racismo considera como atributos de superioridade apenas caracteres físicos e intelectuais, mas ignora os caracteres morais.
Eis aí outra diferença fundamental e que muda totalmente as perspectivas de uma doutrina em relação à outra. O Espiritismo, ao contrário do racismo, considera como atributos de superioridade de um indivíduo apenas os caracteres morais e intelectuais, desprezando os caracteres físicos, que não têm nenhum valor para o ser espiritual, que é o que realmente importa, sob o ponto de vista espírita.
Um elemento forte fisicamente, saudável, belo, inteligente e cruel, como eram os nazistas da Segunda Grande Guerra, pode ser considerado por um racista como pertencente a uma raça superior. Mas para o Espiritismo, esse elemento seria no máximo medianamente desenvolvido, pois que teria somente algum desenvolvimento intelectual, mas lhe faltaria o desenvolvimento moral; ao passo que, um outro elemento, bom, inteligente, feio e até debilitado fisicamente, pode ser considerado superior pelo Espiritismo. Um racista o consideraria fraco e inferior.
Então, a partir deste momento, sempre que se ler nos textos espíritas as palavras “superior” e “inferior”, além do caráter de temporalidade que já havíamos tratado, esses termos se referem sempre aos pontos de vista moral e intelectual, diferentemente dos pontos de vista físico e intelectual da doutrina racista. Isso vale para todas as nossas citações anteriores e as de Kardec.
As características físicas, salvo algumas exceções que podem ser “melhoradas” pela medicina, não estão no poder de ninguém mudar e, logo, alguém que seja considerado inferior fisicamente, nada pode fazer para mudar essa sua condição. Já os caracteres intelectuais e morais estão ao alcance de qualquer um mudar e melhorar sensivelmente ao longo da vida, de forma que alguém possa começar a vida em condições de inferioridade moral e intelectual e terminar a vida com uma superioridade relativa, caso se converta ao bem e se esforce no desenvolvimento da inteligência. Ainda aqui a perspectiva espírita é muito mais consoladora que a perspectiva racista, pois que coloca nas mãos de cada um a melhoria das próprias condições de real inferioridade.
Um outro ponto que causa espécie aos adversários do Espiritismo é o fato de Kardec ter dito que os negros eram corporalmente inferiores quando, dizem, o que lhes faltou foi apenas oportunidade de desenvolvimento. Concordamos que houveram sim certos fatores externos que contribuíram bastante para a estagnação de determinados povos, especialmente os da raça negra, mas não concordamos que foram os únicos fatores que exerceram influência. Disse Jesus que pelos frutos se reconhece a qualidade da árvore. Por mais que as latitudes e as condições de vida fossem diferentes, não encontramos uma obra de engenharia, uma grande construção, uma descoberta científica rudimentar qualquer, uma obra de literatura, um tratado de Filosofia, proveniente de qualquer povo da África, pelo menos nos últimos 2000 anos, mesmo nos lugares onde a raça negra dominava soberana e nunca fora molestada pelos "brancos". Talvez até estejamos exagerando e, se procurarmos bem, talvez acabemos por encontrar algumas boas obras em certos lugares. Mas o fato é que, mesmo que existam, são significativamente em menor quantidade do que as provenientes dos povos europeus e asiáticos.
Apesar de algumas pessoas nos criticarem quando nos expressamos nestes termos, que alguns consideram ofensivo, gostaríamos de lembrar-lhes que não foi Allan Kardec ou quaisquer outros espíritas que fizeram a realidade do jeito que ela é, e que, se essa realidade lhes desagrada, devem pedir contas é a Deus (ou à mãe natureza, no caso dos materialistas), e não a Allan Kardec, ou aos espíritas, que são meros espectadores e relatam ou interpretam a realidade conforme a enxergam; realidade, aliás, que não conseguiram ainda negar sem recorrer à cegueira voluntária, para valerem-se do argumento de que “se dissermos que não vemos, não precisaremos explicar”. Podem fechar os olhos à sua vontade e não forçaremos ninguém a ver ou pensar como nós. Mas desde que essa “visão” deixe de ser uma opção e passe a ser imposta, e que, quem se recusar a “não enxergar” passe a ser moralmente condenado por pessoas hipócritas, da Inquisição dos tempos modernos, que defendem, por conveniência, aquilo em que não acreditam; desde que uma doutrina consoladora por sua própria natureza passe a ser injustamente atacada por causa dessa realidade que vê e que outros optaram por fechar os olhos; então, em razão da defesa dos princípios espíritas e da própria verdade, os fatos precisam ser expostos de maneira franca. Perdoem-nos aqueles que julgarem a nossa franqueza excessiva, mas se Allan Kardec nunca tivesse sido acusado de racismo, não estaríamos aqui nos servindo dela. Antes de condenarem como imoral as coisas que ele escreveu, deviam se preocupar em provar, de uma forma que não restassem dúvidas às mentes mais exigentes, que ele estava errado. Aliás, essas acusações de racismo estão longe de se restringirem a Allan Kardec ou ao Espiritismo. Certos cientistas há que também não negam tais diferenças, mas infelizmente, quando não o fazem, acabam caindo em descrédito moral. Esse é o caso do cientista político americano Charles Murray. Em entrevista à revista IstoÉ, publicada em sua edição 2032 de 15 de outubro de 2008, ele respondeu:
ISTOÉ - O sr. já foi acusado de racismo. Os brancos são mesmo mais inteligentes que os negros?
Murray - Fui acusado de racismo porque mostrei um indiscutível fato empírico: quando amostras representativas de brancos e negros são submetidas a testes que medem a habilidade cognitiva, os resultados médios são diferentes. Isto não é uma opinião.
É um fato, da mesma forma que medidas de altura mostram um resultado médio diferente entre japoneses e alemães. Eu não tirei conclusões racistas deste fato, não advoguei políticas racistas, e tenho escrito explicitamente que a lei deve tratar pessoas como indivíduos e não como membros de grupos raciais. Então por que me chamar de racista? Porque alguns fatos não podem ser discutidos - e os indivíduos que os discutem devem ser pessoas terríveis. (grifos nossos)
Revista IstoÉ - Ed. 2032 - Charles Murray - Miscigenação diminui o QI dos brasileiros
Algumas pessoas, quando leram o trecho da entrevista que citamos acima, julgaram que estávamos utilizando-o como prova definitiva da inferioridade intelectual da raça negra e descartando outros estudos, o que não é verdade, pois sequer nos aprofundamos em qualquer tipo de pesquisa para que pudéssemos manifestar preferência por alguma opinião, mas apenas a usamos a fim de mostrar que o argumento do tão propagado consenso da comunidade científica em torno da questão só pesa no "prato da esperança", não passando de puro vento no "prato da especulação", e que o assunto é ainda muito controverso e está muito longe de ser unânime. Para nós a questão não saiu ainda do terreno do hipotético, a despeito do esforço não racional de algumas pessoas que tentam empurrar a opinião para o terreno da verdade adquirida; a nossa posição aqui é de dúvida e não dogmática para um lado qualquer. Além do que, uma coisa é concordar com o resultado da experiência (que como dissemos, nada podemos afirmar a respeito, por desconhecermos a metodologia), e outra coisa completamente diferente é concordar com as teorias que explicariam os resultados; uma concordância não implica necessariamente na outra, até porque, como já dissemos anteriormente, temos uma visão diferente a respeito da miscigenação do que parece ter o Sr. Charles Murray. [2]
Mas o fato é que a ciência é ainda em grande parte composta de elementos materialistas e, quando não materialistas, por elementos que, embora não negando a alma, não lhe atribuem qualquer papel efetivo na economia. Esses indivíduos não conseguiriam sequer tentar explicar essas diferenças sem recorrer ao racismo propriamente dito (considerando os itens 2 a 4 que comentamos anteriormente). E como não querem ser vistos hoje como racistas, pois que é hoje motivo de vergonha, diferentemente de até bem pouco tempo atrás, negam aquilo que veem; fecham voluntariamente os olhos e praticamente querem impor que todos fechem os olhos junto com eles, seja por força de lei ou por constrangimentos morais. Colocando-nos na pele de um elemento deste tipo, por um lado até entendemos as suas razões para assim agirem. Supondo que sejam pessoas que busquem o bem, imaginamos como deve ser terrível a perspectiva de se tentar explicar, sob o ponto de vista exclusivo da matéria, porque as pessoas são diferentes; imaginamos como devem ser para eles terríveis as perspectivas das consequências lógicas que eles mesmos tirariam das próprias explicações; imaginamos como deve ser terrível a quase necessidade de terem que renegar as próprias crenças por causa do perigo social que ela geraria e, por isso, consideramos completamente compreensível o esforço que fazem para fechar os olhos, a exemplo dos que, na mitologia, evitavam encarar a Medusa para não ficarem petrificados. Aliás, o medo que os bons materialistas têm das próprias convicções foi energicamente retratado numa recente entrevista que Richard Dawkins concedeu ao repórter Silio Boccanera no dia 02 de julho de 2009, para o programa televisivo Milênio do canal por assinatura Globo News, quando da ocasião de sua visita ao Brasil em Paraty/RJ para participar da sétima FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). O repórter perguntou a ele, em inglês, que transcrevemos a legenda:
"Vamos continuar falando sobre a tendência de aplicar o evolucionismo a outras áreas. Uma área que merece destaque é a sociedade. No livro 'O Capelão do Diabo', que já mencionamos, o senhor escreveu: 'Como cientista, eu sou darwinista, mas, em política e tratando de outros assuntos, sou um fervoroso antidarwinista.' Poderia explicar?"
Dawkins então respondeu:
"Sim. Essa é a mensagem central do ensaio que se chama 'O Capelão do Diabo', o ensaio introdutório do livro e o único que escrevi exclusivamente para o livro. As pessoas tendem a pegar a teoria darwinista da seleção natural, a teoria que explica a origem da vida, e aplicá-la à política e à sociedade, como se aquilo que é natural fosse necessariamente bom e como se tivéssemos que copiar a natureza na política e na sociedade. 'Darwinismo social' é um termo que teve origem com Herbert Spencer no século 19 e se tornou influente no fim do século 19 e na primeira metade do século 20, como, por exemplo, no caso de Hitler. Na natureza, a ideia da sobrevivência do mais apto é a responsável pela graciosa habilidade de caça do leopardo e pela habilidade de fuga igualmente graciosa dos músculos e membros do antílope. A seleção natural, a sobrevivência do mais apto, foi o que deu forma ao mundo natural. Mas afirmar que, portanto, devemos planejar a sociedade seguindo linhas darwinistas, em que o mais fraco sucumbe, o mais apto sobrevive e o mais forte vence, isso é darwinismo social. Isso foi defendido, por exemplo, por John D. Rockefeller, o magnata americano do petróleo do início do século 20, para legitimar a ideia de que é ético ser cruel, é ético ser egoísta, é ético ser forte e destruir o mais fraco. Eu não desejo viver numa sociedade assim. Portanto, uma boa descrição da sociedade que não desejamos seria uma sociedade darwinista. Em 'O Gene Egoísta', eu escrevi: 'Não vamos estudar o darwinismo só porque ele representa a verdade sobre a evolução da vida, mas porque, estudando o darwinismo, aprendemos a saber o que evitar ao nos organizarmos política e socialmente.'" (grifos nossos)
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1106035-7823-AS+POLEMICAS+DE+RICHARD+DAWKINS,00.html (transcrito diretamente do vídeo, entre os minutos 13:21 e 16:20)
Em outras palavras, o darwinismo é bom enquanto explicando a origem da vida e as "graciosidades" dos animais se dilacerando nas suas relações sociais, mas deixa de ser bom quando tenta-se aplicá-lo ao homem em suas próprias relações sociais, pois provavelmente eles também "des-graciosamente" se dilacerariam, como aliás, já o fizemos diversas vezes. Longe de nós, portanto, discordarmos dessa opinião de Dawkins com respeito ao "Darwinismo social", mas não porque julguemos que seja uma verdade a ser evitada, mas sim por julgarmos que o darwinismo contem certas inverdades no meio de algumas verdades que as tornam dignas de serem evitadas nas nossas relações sociais. É claro que respeitamos o modo de pensar do Sr. Dawkins, mas isso apenas demonstra o que anteriormente dissemos sobre a tacanhice dos pontos de vista materialistas e suas possíveis nefastas consequências. Mas é um esforço ingênuo, em nossa opinião, pois a Verdade é como um rio que pode ser apenas temporariamente contido, mas que, mais cedo ou mais tarde, seguirá o seu curso e atropelará quem tentar segurá-lo. O Espiritismo, ao contrário, antes de negar o que vê, confirma e explica tudo de forma que as aparentes anormalidades agora se mostram de forma menos desagradável, mais racional e professável; mas para isso, a inserção do elemento Espírito torna-se indispensável. Sem ele, retornamos às trevas intelectuais com todos os seus horrores.
Há inclusive um perigo oculto que se esconde por trás desse assunto e que muitas pessoas, mais preocupadas com o "politicamente correto" do que com a verdade, não estão se dando conta. Todos os maus desempenhos obtidos pela raça negra (que hoje estão justificando, por exemplo, a existência das chamadas "cotas raciais"), têm sido sistematicamente atribuídos à discriminação, e mais especificamente à discriminação dos negros pelos brancos. Pois bem, isso pode criar uma perigosa tensão social, tanto por insatisfação dos negros, que podem achar que as medidas não estão atenuando suficientemente os efeitos da discriminação (caso os seus resultados não melhorem, a despeito de tudo o que tem sido feito), podendo fazê-los se voltarem contra os brancos; como por insatisfação dos próprios brancos caso as cotas sejam ampliadas ainda mais (ou mesmo mantidas) fazendo-os levarem desvantagens nos processos seletivos em relação aos negros. Se há efetivamente discriminação, é bom que achem logo os responsáveis e anulem essas influências, porque acusar toda uma classe de crimes que a maioria (temos certeza) não comete pode ter graves consequências sociais. Colocar a culpa de todas as mazelas na discriminação, além de ser uma conclusão simplista, pode se mostrar bem perigoso para o futuro.
A Doutrina Espírita possui muitos adeptos da raça negra ou descendentes dela. Uma das maiores representatividades do Espiritismo no Brasil e no exterior é negro, ou mestiço, como queiram. Estamos nos referindo ao médium José Raul de Teixeira e, a menos que nos enganemos redondamente, ele parece muito pouco preocupado se a Doutrina Espírita considera a raça dele mais atrasada ou não, ou se a considera bela ou feia; e ele não parece ser alheio a esse assunto. De fato, a questão da inferioridade da raça negra incomoda somente aos brancos, talvez pelo remorso intuitivo do que fizeram aos negros nos últimos séculos, quando ao invés de ampararem as raças selvagens e menos adiantadas, de as educarem, as exploraram como animais e as brutalizaram. Pensam agora poder pagar a dívida fazendo deles o que não são, quando eles mesmos não o solicitam e estão pouco preocupados com o juízo que deles fazem os brancos. O que preocupa a todos, repetimos, é o respeito às individualidades, com todas as suas fortalezas e fraquezas, e não se as diferenças existem ou não, o que já constatamos que existem (ao menos as externas).
Um outro aspecto, que não transformaremos em tópico específico por não ser uma característica intrínseca do racismo, mas pode ser uma de suas consequências em se tratando de pessoas em que predomina o orgulho e o egoísmo, é a questão da discriminação, da segregação e da escravização. Ainda que o racismo materialista fosse uma doutrina verdadeira, disso não se deduz que os seus adeptos cometeriam atrocidades contra pretensas raças inferiores, a exemplo do que fizeram os nazistas e os escravocratas do passado. Pode-se crer na doutrina racista e ainda assim ter-se respeito pela individualidade, e é bom que isso fique claro.
O que apenas queremos ressaltar é que as medidas propostas pelo Espiritismo para atenuar ou eliminar as diferenças, e que ressaltam naturalmente das consequências lógicas do que foi mais acima exposto e que pode ser deduzido por qualquer um de inteligência mediana, são dignificantes para a humanidade. A proposta espírita para o problema das diferenças pode ser inteiramente resumida em uma única palavra: educação; educação em todos os sentidos – humano, moral, científico, etc... Se os Espíritos são hoje atrasados, é que lhes falta conhecimento, ou porque do conhecimento que têm estão deduzindo consequências erradas e, nisso, os Espíritos que estão mais adiantados têm a obrigação - repetimos: a obrigação – de contribuir para o esclarecimento, porque os Espíritos devem ser sempre solidários uns aos outros. E quem quer que deixe de cumprir essa obrigação sempre que se fizer oportunidade para tal, será réu de juízo futuramente, segundo o Espiritismo, por omissão, sendo passível de punição, pois que não fazer o bem também é um mal.
E só abrindo-se um parênteses, é bom notar que a tarefa de educar é obrigação de qualquer pessoa, não apenas de mais adiantados em relação a menos adiantados, mas também o inverso, e isso por causa de quatro razões muito simples:
1. porque na maior parte das vezes é difícil de se reconhecer a verdadeira superioridade intelectual ou moral, pois nosso julgamento é frequentemente afetado pelos nossos próprios preconceitos e não raramente consideramos bom o que é mau, inteligente o que é estúpido, e vice-versa;
2. porque ainda que pudéssemos medir com precisão as fortalezas e fraquezas de cada um, esse fato não seria sempre facilmente aceito e a maioria das pessoas não reconheceria facilmente onde se encontra a própria falibilidade, e isso porque o ignorante raramente tem consciência da própria ignorância;
3. porque quem ensina também aprende, e o esforço para encadear as ideias para o ensino desenvolve a inteligência, donde que o menos adiantado, em se esforçando para ensinar, também acabará por aprender e desenvolverá pouco a pouco o seu juízo a respeito das coisas e;
4. porque os eventuais erros ensinados pelos menos adiantados como se fosse um ensino superior jamais corromperiam uma verdadeira mente mais adiantada, enquanto que as mentes menos adiantadas são sempre positivamente influenciadas pelas ideias progressistas advindas das verdadeiras mentes mais adiantadas, donde que o verdadeiramente mais adiantado ensinará de fato e o verdadeiramente menos adiantado aprenderá ao tentar ensinar.
Logo, a solução para o problema das inferioridades intelectuais e morais está sempre no ensino, que pode ser ministrado por qualquer um que se julgue sábio em uma área qualquer, não apenas em uma sala de aula, mas mesmo numa simples conversa informal e descontraída de botequim.
Já o racismo materialista (não seria isso um pleonasmo?) não poderia afirmar o mesmo, ou seja, como tudo reduzem à matéria, uma inferioridade atual é para eles uma inferioridade definitiva. Campanhas temporais de extermínio e esterilização, apesar de serem hediondas, poderiam ser racionalmente aceitáveis sob o argumento de que de um mal temporário pudesse resultar um bem futuro e duradouro e de que os fins poderiam justificar os meios. E é essa a razão porque julgamos que os materialistas em geral fogem de toda a discussão a respeito das diferenças, ao ponto até de literalmente crucificarem todos aqueles que ousem levantar a discussão ou publicar resultados contrários à igualdade corporal absoluta, como é o caso que citamos do Sr. Charles Murray mais acima. E isso por uma razão muito simples: as más consequências do racismo materialista, as consequências mais nefastas, seriam também as das mais lógicas e racionais, caso o materialismo fosse uma verdade. Não foi por acaso que Francis Galton, Herbert Spencer, John D. Rockefeller e vários outros sábios tornaram-se adeptos dessas teorias. Não foi apenas por influência do tempo em que viveram, como afirmou Dawkins, mas foi também por causa das consequências lógicas que poderiam ser facilmente deduzidas por qualquer criança, partindo sempre do princípio materialista e darwinista. Assim como fazemos com os animais, poderia ser considerado lógico e racional, como aliás já o foi no passado, promovermos apenas a reprodução das raças mais inteligentes e mais fortes, a fim de garantir um maior bem estar futuro da humanidade, ainda que causando algum mal no presente, e essas perspectivas repugnam a maior parte das pessoas nos dias de hoje, por serem, em grande parte, pessoas de bem, ou que pelo menos já buscam o bem. Portanto, o temor de Dawkins e dos materialistas em geral é perfeitamente justificável, tendo-se em vista as bases de suas crenças. Por isso Kardec e os Espíritos não se cansaram de dizer que o materialismo era uma das chagas da sociedade, por causa das consequências nefastas e, ao mesmo tempo, lógicas, que se podem deduzir dessa doutrina e de suas variantes:
799. De que maneira pode o Espiritismo contribuir para o progresso?
“Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz que os homens compreendam onde se encontram seus verdadeiros interesses. Deixando a vida futura de estar velada pela dúvida, o homem perceberá melhor que, por meio do presente, lhe é dado preparar o seu futuro. Abolindo os prejuízos de seitas, castas e cores, ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos.” (O Livro dos Espíritos, pág. 419)
Portanto, para o materialista que seja ao mesmo tempo um homem de bem, é aterrorizante a discussão sobre as diferenças, pois, ou terá que admitir uma lógica que o repugna, ou terá que renunciar à lógica. Como não quer nem uma coisa nem outra, partem para a coibição, ainda que velada, de toda e qualquer discussão a respeito das superioridades e inferioridades corporais, para que eles próprios não se sintam constrangidos a se posicionarem e revelarem os seus verdadeiros pensamentos ou a sua hipocrisia.
O Espiritismo, ao contrário, demonstra que a introdução do Espírito na discussão invalida por completo todo o sistema de premissas em que se baseia a lógica darwiniana-materialista e, consequentemente, refuta todos os supostos benefícios que poderiam decorrer de campanhas hediondas elaboradas a partir dessa mesma lógica; que nem esterilizações, nem extermínios, nem segregações de pretensas raças inferiores seriam capazes de melhorar o nível da humanidade; que jamais ações desse tipo poderiam resultar num bem futuro e, pelo contrário, demonstra que somente a união de superiores e inferiores é capaz de produzir um progresso real mútuo, seguro e definitivo, através da convivência, da experiência e da educação conjunta. Se imaginarmos a maioria dos homens convictos dessas ideias a partir desses pontos de vista, facilmente podemos imaginar as melhorias que teriam trazido às relações sociais passadas e as melhorias que podem trazer às relações sociais presentes e futuras.
Portanto, como espírita, não temos absolutamente nenhum medo de falar sobre as diferenças, nenhum medo de admiti-las e nenhum medo de discutir sobre os métodos mais lógicos e racionais de minimizá-las, pois que, quaisquer que sejam as ações logicamente dedutíveis, elas serão dignificantes para a humanidade. O Espiritismo prega que devemos agir com benevolência para com todos, independentemente se são iguais ou diferentes, superiores ou inferiores, belos ou feios, e não tem a pretensão de ver igualdade por todo o lado, quando ela de fato não existe. Aliás, apenas abrindo-se outro parênteses, a igualdade intrínseca, para os espíritas, somente não existiria no âmbito terreno, porque no âmbito espiritual somos sim todos intrinsecamente iguais, não só em direitos e deveres, como nos esforçamos para que sejamos na Terra, mas também em habilidades e aptidões. Não temos receio em admitir a desigualdade terrena por sabermos ser ela apenas temporal e por sabermos que a verdadeira igualdade se realiza num patamar muito mais elevado, que é o espiritual. Mas para quem só crê na matéria e mesmo assim deseja a igualdade, não há outra alternativa a não ser fechar os olhos para as desigualdades e fazer de conta que elas não existem. E não é incomum que se irritem quando alguém tenta mostrar-lhes aquilo que se esforçam para não ver (temos registros de discussões onde pessoas, pelo menos aparentemente "de bem", comportam-se como verdadeiros animais diante de uma discussão dessas, e tamanho é o "ódio" que sentem por quem ousa contradizê-los, que têm a razão completamente ofuscada e promovem verdadeiros linxamentos; talvez algum dia publiquemos essas discussões, como acréscimo de estudos).
O verdadeiro espírita trata as pessoas como individualidades. Se ele propõe um processo seletivo qualquer, ele o fará de forma justa e dará a vaga para aquele que realmente demonstrar o mérito, seja ele negro, branco, amarelo, católico, protestante, muçulmano, homossexual, homem, mulher, etc... Mas não é pecado enxergar que determinados segmentos não têm conseguido aproveitar as consideradas “melhores oportunidades”, até porque, dessa observação é que se podem tomar eventuais medidas corretivas. Nós, particularmente, se pertencêssemos a alguma raça selvagem, se tivéssemos traços selvagens, nos esforçaríamos ao máximo para provar que essas observações não se aplicariam a nós; nos esforçaríamos ao máximo no desenvolvimento de nossa inteligência e de nossas virtudes, de modo que alguém, por mais racista que pudesse ser, e que nos observasse, fosse forçado a dizer: “eis aí uma exceção à regra; eis aí um selvagem que não se porta como um selvagem”. Se todos os indivíduos na mesma situação se esforçassem para fazer o mesmo, ao invés de simplesmente se queixarem de serem considerados inferiores, a proposta espírita estaria sendo implementada com êxito absoluto, ainda que os objetivos não pudessem ser alcançados dentro da atual encarnação. E se algum, ou mesmo todos os indivíduos conseguissem demonstrar capacidades além do que normalmente se espera deles, nós nos sentiríamos muito felizes por eles e só teríamos que aplaudi-los e felicitá-los, como aplaudiram e felicitaram a cantora escocesa Susan Boyle, ao revelar habilidades que normalmente não se esperam de pessoas como ela. Apesar de reconhecermos a existência de diferenças das quais não temos nenhuma culpa, o nosso ideal é e sempre será de igualdade, mas igualdade por cima, no progresso, e não igualdade por baixo, no atraso. Ao selvagem deve ser garantido o direito de manter a sua vida selvagem (desde que não haja desrespeito aos direitos humanos dentro de seus grupos); eles devem ser amparados nesse direito e nenhuma consciência deve ser forçada. Mas por outro lado, as portas da civilização não lhes podem ser fechadas e todo o esforço deve ser empreendido para que eles se integrem à civilização, desde que o queiram. É dessa forma que pensamos que se pode contribuir para o progresso humano.
Só nos resta tratar agora do artigo de Kardec intitulado como Teoria da Beleza, publicado em Obras Póstumas e na Revista Espírita de ago/1869 após a morte física de Kardec. Esse texto quase que mereceria um artigo específico nosso só para ele, pois não se pode somente dizer que concordamos ou discordamos e não desdobrar o raciocínio, para que outros possam também ter a possibilidade de compartilhar ou rejeitar a nossa opinião. Aliás, as conclusões do próprio artigo em si, sem nenhum comentário adicional, são bastante evidentes, e se não fosse lido com tanto espírito de sistema e preconceito, focando apenas um único parágrafo interpretado num sentido desfavorável, poderia ser bem melhor compreendido e até aceito. O que faremos a partir de agora é apenas realçar essas conclusões, que podem ser deduzidas, como já dissemos, do texto em questão, e que evidenciam que esse artigo em nada desmerece o seu autor ou a Doutrina Espírita.
O artigo em si é bastante interessante; jocoso mesmo em diversos pontos; porém há um parágrafo que tem sido alvo de duras críticas, tanto de espíritas, diríamos, "desatentos", como de opositores oportunistas do Espiritismo. Em certo trecho do artigo, lê-se:
O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um gato; mas, não é belo em sentido absoluto, porque seus traços grosseiros, seus lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem exprimir as paixões violentas, mas não podem prestar-se a evidenciar os delicados matizes do sentimento, nem as modulações de um espírito fino.
Daí o podermos, sem fatuidade, creio, dizer-nos mais belos do que os negros e os hotentotes. Mas, também pode ser que, para as gerações futuras, melhoradas, sejamos o que são os hotentotes com relação a nós. E quem sabe se, quando encontrarem os nossos fósseis, elas não os tomarão pelos de alguma espécie de animais. (grifo nosso) (Obras Póstumas, Teoria da Beleza, pág. 179)
Alguns espíritas tremem de medo quando se deparam com uma discussão sobre a Teoria da Beleza, principalmente quando motivada por opositores (repetimos: oportunistas) do Espiritismo e sob uma acusação de racismo e, a primeira defesa que normalmente vem à mente quando se é pego desprevenido (nós, por exemplo, não fomos exceção), é a de que o texto não estava ainda concluído, que não foi publicado pela vontade do codificador (pois só veio a público após a sua morte), e o velho jargão de que a doutrina é progressiva e que pode facilmente rejeitar esses excertos. Esperamos, inclusive, com esse nosso trabalho, ajudar os adeptos da doutrina a se defenderem melhor contra este tipo de ataque.
Diremos, de princípio, que é muita ingenuidade supor que esse tipo de defesa, que mais não é do que uma fuga, surtiria algum efeito frente a certos opositores, que buscam mais ocasião de denegrir do que entender a fundo aquilo que se propõem a criticar. Pronto ou não ele saiu da mente de Kardec e isso não deixaria de ser explorado pelos opositores, concomitantemente com os outros textos relacionados. Mas a Teoria da Beleza é sim um texto pronto e estava prestes a ser publicado na Revista Espírita, tanto que ao efetuarmos a leitura ele não nos parece incompleto.
A Teoria da Beleza é um artigo elaborado de forma muito inteligente e que tenta relacionar a ideia que temos do Belo com a ideia que temos por certo de evolução espiritual; e também tenta estabelecer um critério de beleza que saia do domínio da subjetividade, ou seja, estabelecer um critério pelo qual pudéssemos reconhecer a Beleza Absoluta com a precisão de uma ciência exata.
Kardec começa o texto com uma citação de um autor – Charles Richard - que sugere que, ao mesmo tempo em que a Humanidade era bastante atrasada intelectual e moralmente, a Beleza exterior também parecia acompanhar essa evolução; ou seja, que antigamente éramos extremamente feios e que a beleza média da Humanidade, de uma forma geral, tem melhorado bastante com o passar dos séculos.
Depois Kardec faz os seus comentários, relaciona a melhoria da Beleza Humana à sua sempre progressiva evolução intelectual e moral, e faz uma conclusão interessante, que muitas pessoas, preocupadas mais com o que o negro vai achar por não ser considerado belo do que entender a fundo o que o texto quer dizer, não perceberam: Kardec tentou retirar a análise da beleza do domínio da subjetividade e estabelecer critérios objetivos pelo qual algo, ou alguém, seria considerado belo ou feio absolutamente, em qualquer época, em qualquer lugar, por qualquer pessoa:
Do que precede se pode concluir que a beleza real consiste na forma que mais afastada se apresenta da animalidade e que melhor reflete a superioridade intelectual e moral do Espírito, que é o ser principal. Influindo o moral, como influi, sobre o físico, que ele apropria às suas necessidades físicas e morais, segue-se: 1º que o tipo da beleza consiste na forma mais própria à expressão das mais altas qualidades morais e intelectuais; 2º que, à medida que o homem se elevar moralmente, seu envoltório se irá avizinhando do ideal da beleza, que é a beleza angélica. (grifos nossos) (Obras Póstumas, Teoria da Beleza, pág. 178)
Ora, Kardec aqui definiu que o Belo só é realmente belo se conseguir expressar algo de moral e/ou intelectual. É claro que isso é apenas uma teoria, mas em nossa opinião ela possui o seu fundamento lógico. Kant dizia que intuição e conceitos constituem os elementos de todo o nosso conhecimento, de tal modo que nem conceito sem intuição, nem intuição sem conceito pode resultar num conhecimento. E a beleza é justamente uma dessas intuições das quais não conseguimos formar nenhum conceito, ou seja, intuímos o belo, mas não sabemos definir quais seriam os traços, formas, cores, ou conjuntos e proporções destes, que seriam capazes de representar a beleza. Kant, numa das suas antinomias em Crítica da Faculdade do Juízo, diz que se conseguíssemos formar um conceito da beleza, a beleza perderia para nós a sua subjetividade e poderíamos provar porque algo é ou não belo do mesmo modo que alguém deduz uma fórmula matemática; mas aí a beleza deixaria de ser um juízo estético e subjetivo, para tornar-se um conhecimento objetivo e universal. Por outro lado, já que não há conceito algum sobre a beleza, como é que ela pode reivindicar universalidade, ou seja, que todos, ainda que subjetivamente, julguem a beleza do mesmo modo?
As formas para serem belas precisam possuir certas proporções, mas o porquê de uma linha curva desenhada um pouco mais aberta ou um pouco mais fechada ser capaz de tornar algo belo ou feio absolutamente para nós, é algo que ignoramos completamente (os cartunistas talvez sejam capazes de fornecer respostas melhores do que nós). Todavia o nosso julgamento, quando não contaminado por preconceitos ou interesses, dificilmente diverge sobre o que é ou é não belo, donde pode-se dizer que há algo de absoluto e universal na beleza que, segundo Kardec, seria a representação de algo moral e/ou intelectual. Reparem aqui que Kardec não resolveu o problema da subjetividade do juízo de gosto, mas apenas tentou avançar nele, pois ainda continuamos recaindo no mesmo problema kantiano, só que (considerando que o belo é mesmo a representação das mais altas qualidades intelectuais e morais) a pergunta "Quais as formas do belo?" evoluiu, com Kardec, para "Quais as formas capazes de representar as mais altas qualidades intelectuais e morais?".
Kant resolveu a antinomia acima da seguinte forma: aquilo que não possui conceito não pode reinvindicar universalidade, donde se conclui que a Beleza possui sim o seu conceito, só que ele nos seria indeterminado, ou seja, inacessível à razão humana, mas que não significaria que em um determinado momento não poderíamos possuir ou adquirir tal conceito (talvez não na Terra). Portanto, seja por Kant, seja por Kardec, haveria algo de absoluto na beleza, algo que não sabemos definir, mas intuímos, e que torna universal o nosso juízo de gosto, ainda que ele seja, para nós, subjetivo, ou seja, um conceito indeterminado. De qualquer forma, há muito que se caminhar ainda sobre esse assunto e não é objetivo e nem pretensão nossa resolver essa questão neste ensaio.
Mas com relação à tese de Kardec de associação da beleza à intelectualidade e moralidade, vejamos em alguns exemplos que deduções podemos tirar, em se tratando, primeiramente, de simples objetos:
Imaginemos dois diamantes; um recém saído da mina de diamantes, já limpo, mas disforme; e outro do mesmo tamanho já lapidado. Qual seria a mais bela pedra? Certamente diríamos que a pedra lapidada é a mais bela. Mas por quê? Nos arriscaremos a afirmar que o diamante lapidado retrata o gênio, a habilidade e a sensibilidade de quem o lapidou, e é isso que o torna belo; ao passo que o diamante bruto só retrata o acaso cego e ininteligente.
Como outro exemplo, imaginemos dois jardins com o mesmo tipo de vegetação. Num, as plantas nascem espontaneamente e sem um direcionamento definido, podas não são feitas e os galhos crescem desordenadamente; em outras palavras: um jardim mal cuidado. No outro há o jardineiro que dá direcionamento aos locais onde as plantas devem nascer e crescer, poda as plantas e arranca as ervas daninhas; em outras palavras: um jardim bem cuidado. Qual é o mais belo? Novamente diremos que é o segundo, apesar de ambos terem basicamente o mesmo tipo de vegetação. E o que justamente faz o segundo jardim ser mais belo é o cuidado dispensado pelo jardineiro, pelo qual podemos enxergar o seu gênio e a sua sensibilidade; na realidade, o que inconscientemente apreciamos não é a beleza do jardim, mas o gênio do jardineiro. Se mesmo para o primeiro jardim houvesse um jardineiro, mas que fosse desleixado, diríamos que o segundo jardineiro, enquanto jardineiro, é melhor que o primeiro; que este é mais inteligente, mais cuidadoso e que essa inteligência e superioridade se refletem no jardim por ele cuidado.
Esses dois casos ilustram muito bem situações aonde a beleza e a fealdade são avaliadas em sentido absoluto, pois ninguém em sã consciência, de qualquer grau evolutivo, de qualquer época, de qualquer cultura, de qualquer lugar, ou mesmo de qualquer mundo, expressaria opinião diferente dizendo: "o jardim mais mal cuidado é o mais bonito."
Vamos então agora avaliar a beleza corporal. É ela também absoluta da mesma forma que o jardim ou o diamante? Em se tratando de animais, por exemplo, o panda é mais belo que o crocodilo? E por quê? Em se tratando de homens, o Homem moderno é mais belo que o de Neanderthal (vamos tirar o negro fora da discussão, por enquanto)? Poderíamos considerar o Homem ou a mulher de Neanderthal como referenciais de beleza frente ao homem ou à mulher modernos, mesmo que os submetêssemos a todos os tratamentos de beleza possíveis e imagináveis? E por quê, ou por que não?
Pelo que já foi exposto acima, podemos, por analogia, tentar responder a essa questão. O crocodilo é mais feio que o panda pois ele retrata agressividade e animalidade, que são qualidades opostas às qualidades morais. Mas dirão: o aspecto é coisa relativa, pois o crocodilo pode ser belo para outro crocodilo! Espera lá! Qualquer ser que estiver portando uma faca, por exemplo, será sempre visto como mais ameaçador do que aquele que não porta nada pontiagudo. Isso é bastante real. As escamas grossas, os dentes pontudos, afiados e dispostos de maneira assimétrica, as garras cortantes, os olhos, enfim, tudo no crocodilo retrata um ser que o rasgaria em pedaços se tivesse oportunidade. Isso é percebido mesmo por outro crocodilo. O crocodilo não consegue sequer retratar uma beleza intelectual, pois seus contornos não são simétricos, retratando mais um ser bruto e selvagem. Por outro lado, um tigre revela a mesma agressividade, mas possui uma certa simetria e finura nos contornos, que o retrata como um ser mais inteligente, embora agressivo; que retrata uma beleza mais intelectual do que moral.
Já o panda possui uma aparência completamente diversa; não tem garras ou, se tem, as mantém escondidas; o seu rosto é agradável de se ver e expressa simpatia, e o seu pêlo em nada é ameaçador e agradável de se acariciar. Qualquer criança dormiria tranquilamente ao lado de um desses espécimes, mas não dormiria ao lado de um crocodilo, ainda que tivesse certeza absoluta de que fosse manso. Aliás, quando os fabricantes de brinquedos produzem bichos artificiais, quais são as formas que eles mais imitam para agradar as crianças? E quem foi que ensinou a criança a gostar do panda e temer o crocodilo? No dia dos namorados, qual é o bicho que é normalmente preferido para se presentear as moças: um ursinho ou um "crocodilinho"? Isso tudo é muito real e longe está de ser considerado beleza relativa. Mas a explicação, do nosso lado, ainda é a mesma: os bichos preferidos sempre conseguem expressar algo de elevação moral, ainda que não intelectual, enquanto que os outros não expressam nada moral ou expressam menos.
Do que expusemos acima, cada um já deve ter deduzido por si só o porquê de o homem de Neanderthal ser absolutamente mais feio do que o homem civilizado moderno. O aspecto selvagem (ou melhor, mais selvagem) do homem de Neanderthal expressa maior ignorância e embrutecimento, qualidades opostas à evolução moral e intelectual; por isso ele seria, para nós, absolutamente mais feio. Para ajudar ao leitor a se convencer, disponibilizamos abaixo a foto de uma possível reconstrução do Homem de Neanderthal:

O Homem de Neanderthal
Portanto, vemos que a teoria exposta na Teoria da Beleza não é tão destituída de sentido, e que a Beleza Absoluta pode realmente estar ligada à melhor retratação de algo eminentemente moral e/ou intelectual. Aquilo que retrata só o moral, ou só o intelectual, retrata apenas uma beleza parcial; aquilo que conseguisse expressar ambos em sua máxima magnitude, expressaria a beleza perfeita, ou celestial, ou divina.
Vamos então à questão do negro: Kardec estava certo ou não ao dizer que os negros não eram tão belos como os caucásicos (sempre lembrando que quando Kardec se referia aos negros, ele visava os traços selvagens e não a cor)? Teria sido ele preconceituoso? Pensamos que, para a segunda pergunta, a resposta seja não. Desde que se tira (ou se reduz) a subjetividade de um julgamento e considera-se atributos mensuráveis ou observáveis, dizer que os negros eram menos belos que os caucásicos seria tão preconceituoso quanto dizer que um indivíduo é mais alto que outro servindo-se de uma fita métrica para verificar; em outras palavras, não há preconceito, mas conceito formado após a apreciação dos fatos.
Como Kardec definiu, filosoficamente, como critério de Beleza, a obrigatoriedade da presença de atributos de intelectualidade e/ou moralidade, então, tudo aquilo que possuir maior quantidade desses caracteres, ou que possuir menos os caracteres que lhes são contrários, será absolutamente mais belo. É simples e cartesiano em muitos casos. O negro, de aspecto selvagem, de lábios espessos, é menos belo porque retrata menos moralidade e intelectualidade (que ele pode até ter, mas não consegue fisicamente expressar) do que um outro indivíduo que não possui essas características. Enxergar isso não é um preconceito, pois Kardec definiu um critério e utilizou esse critério para mensurar a quantidade de beleza de cada um, da mesma forma que se mensura a massa numa balança comum de supermercado. Se algum outro homem definir outros critérios filosóficos para a Beleza, talvez o negro possa ser até retratado como mais belo segundo esses novos critérios; mas isso não invalida as observações de Kardec segundo os critérios por ele próprio enunciados.
Por fim, perguntamos: é humilhante isso para os indivíduos da raça negra? Se fôssemos negro de aspecto selvagem, será que nos sentiríamos humilhados por esta constatação? Em nossa opinião, depende de quem examina. Pensamos que somente um negro crente no Espiritismo poderia se sentir no direito de se sentir humilhado, porque, para o restante, como o Espiritismo não passaria, minimamente, de uma crença equivocada, não entenderíamos o porquê de algo que não fosse considerado verdadeiro pudesse humilhar a quem quer que fosse. De duas uma: ou os negros de traços selvagens são mais feios que os caucásicos, ou não são. Se são, nada vai mudar isso e Kardec não pode ser condenado por dizer uma verdade; se não são, por que se incomodar? Seria como se os judeus tivessem se sentido humilhados pelo fato de os nazistas os considerarem inferiores. Ora, de que vale a opinião dos nazistas sobre os judeus, para os judeus? Da mesma forma, de que vale a opinião espírita sobre os negros, para os negros não espíritas? De nada, entendemos.
Portanto, julgamos que somente aquele indivíduo de traços considerados, pelo Espiritismo, selvagens (não necessariamente da cor negra) e que nutra algum tipo de consideração e estima pelo Espiritismo, tenha realmente o direito de se sentir humilhado por ser, por ele, considerado menos adiantado, ou menos belo. E é somente para esses, portanto, que vamos dirigir algumas palavras:
O Espiritismo é uma doutrina dualista, isto é, ele faz uma clara distinção e separação entre corpo e Espírito; entre matéria e princípio inteligente. E diz mais: o que realmente importa é sempre o Espírito, sendo a matéria simples meio de obtermos certa evolução espiritual. Em outras palavras, a vida na matéria é atividade meio e não atividade fim. Então, aquele espírita que pudesse se sentir humilhado por ter a sua forma exterior avaliada num sentido menos favorável, na realidade estaria demonstrando valorizar mais a matéria do que a sua própria alma. Todos evidentemente temos o direito de nos sentirmos insatisfeitos com a nossa forma exterior, e todos gostamos de nos sentir belos. Mas o fato é que às vezes não somos tão belos quanto gostaríamos e a doutrina, pelo seu compromisso com a verdade antes de que com as conveniências, não dirá o contrário só para agradar certas individualidades, e a doutrina, acima de tudo, nos ensina a nos resignarmos perante situações que fogem ao nosso controle mudar. Se ainda não possuímos este grau de desprendimento material, a doutrina ensina que está na hora de começar a praticá-lo. Em outras palavras, devemos procurar nos envergonhar de possuirmos uma alma feia, mas nunca nos envergonharmos de possuir um corpo feio, porque esse corpo, seja do jeito que for, é adequado para as nossas lutas terrenas e nós, como espíritas, devemos sempre nos lembrar disso.
A ciência hoje disponibiliza meios de se conseguir ao menos melhorar a forma exterior, através das chamadas cirurgias plásticas. Esse é também um método lícito de fazer com que possamos nos sentir bem na vida material. Mas repetimos que o Espiritismo nos ensina a resignação para os casos que sejam insolúveis.
Uma outra comparação que poderia ser feita é em relação ao homem e à mulher. Quem é mais belo? Sem pestanejar respondemos que a mulher é mais bela, pois possui traços mais finos, ao passo que o homem, talvez por se dedicar a trabalhos mais duros e braçais, possui um aspecto mais bruto, grosseiro e mais próximo do animal. Isso representa algum demérito para o homem? De forma alguma. Alguns até gostam de parecer brutos e saudáveis. Não deveria também ser considerado um demérito as raças serem taxadas de mais feias ou mais belas, pois que tudo tem a sua razão de ser e Deus nada faz de inútil.
De tudo o que foi exposto acima, ainda poderia restar um sério mau entendimento, que nos esforçaremos para desde já esclarecer. O fato de Kardec ter dito que a Beleza exterior reflete a evolução moral e intelectual, disso se pode deduzir que, segundo o Espiritismo, todos os feios são atrasados e todos os belos são evoluídos? Ainda aqui precisaremos ler nas entrelinhas do que foi escrito por Allan Kardec.
Conforme já dissemos, o Espiritismo é dualista, e duas coisas diferentes são o Espírito, que é o ser principal, e o corpo. O Espiritismo diz que o corpo evolui segundo a evolução dos Espíritos, mas não disse nada que essa evolução seria instantânea. Ela se daria ao cabo de algumas gerações (não se sabe precisar quantas), sendo que a miscigenação aceleraria o processo. Portanto, uma raça, ou um povo, cujos elementos fossem extremamente feios por terem sido habitados por longo tempo, em maioria, por Espíritos menos adiantados e que, de uma hora para outra passasse a ser habitada por Espíritos Superiores, num primeiro momento eles seriam todos de fealdade similar.
O espaço de uma geração não seria suficiente para mudar esses caracteres e, portanto, não se poderia olhar para alguém feio e dizer “é um Espírito inferior”, ou vice-versa. Seria assim se a conformação fosse instantânea, mas aí não poderíamos encontrar casos que desmentissem essa hipótese. Existem pessoas cujos corpos exprimem bondade e inteligência, mas que são habitados por Espíritos ignorantes ou maus; assim como há pessoas cujos corpos exprimem extrema fealdade, que denota maldade ou ignorância, mas que são inteligentes e brandas. Há vários exemplos de uma e outra situação que nos vem à mente, como o casal Nardoni, que chegávamos quase que, preconceituosamente, a torcer para que não fossem de fato culpados do crime hediondo de que foram acusados (obs.: estamos presumindo a culpa, pois eles foram considerados culpados pelo crime por um júri popular, apesar de ainda continuarem negando a sua autoria), ou Suzane Von Richthofen e outros, que são belos externamente, mas cujos Espíritos não confirmam aquilo que seus corpos físicos nos expressam. Por outro lado tivemos Chico Xavier, que era, principalmente em sua velhice, de extrema fealdade (em nossa opinião, claro), ou o próprio Sócrates, que também diz-se ter sido muito feio, mas que possuíam almas inteligentes e boas.
Aproveitamos a oportunidade para indicar, para quem ainda não assistiu, o DVD sobre os dois Pinga-Fogo de 1971 com Chico Xavier na TV Tupi, lançado pela Versátil Home Vídeo em 2006; neste DVD específico há o depoimento de vários dos entrevistadores e pessoas que participaram do programa, e entre eles está o da Sra. Helle Alves, que participou do primeiro programa. Nesse depoimento, a partir dos 2:23 minutos aproximadamente, ela assim se expressa:
... Então, quando eu vi o Chico Xavier entrar no palco, eu pensei: ah... uma figurinha que não era um homem bonito, nem exuberante, nem transcendia a força que ele realmente tem. Ele era uma figura um pouco apagada, e eu tive a impressão de que eu ia fazer uma entrevista mais “chinfrim”, mais “pífia”. E quando ele começou a falar foi um impacto tremendo. Eu tive uma emoção enorme de ver uma pessoa que aparentemente não seduzia assim, espiritualmente seduzir completamente; não só a mim, mas aos outros participantes também ele levou à mesma situação, eu percebi. Tinha pessoas que foram ali para fazer o “espírito de porco”, o “advogado do diabo”, e não conseguiram... engasgavam na hora de fazer perguntas indiscretas, perguntas críticas, na hora de pôr o Chico Xavier em má situação. Porque ele era absolutamente autêntico, honesto, puro e de uma espiritualidade que não se podia de jeito nenhum pôr em dúvida. Então, o programa começou com alguma crítica, alguém querendo ser “advogado do diabo” e acabou com todo mundo amando o Chico Xavier de paixão. (grifos nossos) (DVD Pinga-Fogo, com Chico Xavier, Programa 1, Extras, Vídeos Especiais, Chico Xavier – A Grande Surpresa, Helle Alves, transcrito de ouvido.)
O relato acima de certa forma corrobora o que dissemos, ou seja, que uma é a beleza do Espírito, e outra é a beleza do corpo. Não diremos que a alma é feia porque o corpo é feio, mas não deixaremos de admitir que o corpo é feio quando ele realmente o for; e vice-versa; não estamos avaliando uma coisa pela outra, mas uma coisa por ela mesma.
Então, os fatos mostram que beleza ou fealdade física não são atestados de inteligência e moral para ninguém. E para quem acha que não é isso que o artigo de Kardec realmente quis dizer, leiam abaixo a citação de uma comunicação de um Espírito sobre esse assunto, e que foi colocada justamente após o artigo sobre a Teoria da Beleza, de forma que servisse de suporte às ideias anteriormente expostas:
...Com efeito, sabeis todos quão penoso é o aspecto de uma encantadora fisionomia, cujo encanto, porém, o caráter desmente. Se ouvis falar de uma pessoa de mérito comprovado, logo lhe atribuis os mais simpáticos traços e ficais dolorosamente impressionados, quando verificais que a realidade desmente as vossas previsões. (Obras Póstumas, Teoria da Beleza, comunicação de Pamphile em 04/02/1869, págs. 179 e 180)
Uma pessoa feia, mas de alma nobre, apenas tem um corpo que não é capaz de expressar essa nobreza. Por outro lado, uma alma atrasada, inferior moralmente e intelectualmente, num corpo belo, expressa uma beleza, ou seja, expressa uma moralidade e/ou intelectualidade que não lhes são características.
Somos inclusive da opinião de que a chamada primeira impressão (que pode ser boa ou ruim) nos retrata a verdadeira beleza exterior, a do corpo, ao passo que com a convivência passamos a enxergar também a beleza da Alma, que não raro desmente aquilo que a aparência exterior inicialmente nos dizia. Temos instintivamente medo de negros mal vestidos na rua, com a suspeita de que sejam assaltantes, ao passo que nós, pessoalmente, já fomos assaltados por branquinhos bonitos bem vestidos com roupas da moda, e do quais não desconfiamos à primeira vista. Isso tudo é muito real, e é de onde surgem os preconceitos. Ora, é um preconceito porque faz-se um juízo da beleza da alma pela beleza do corpo, e esse juízo não raramente nos engana.
Temos que julgar as coisas pelo valor delas mesmas. Se é errado prejulgar a alma pela beleza do corpo, certamente não é errado julgar a beleza do corpo por ela mesma. “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”; ao corpo o que é do corpo, ao Espírito o que é do Espírito. Por mais que Chico Xavier tivesse sido bom, essa bondade não o tornou belo, é preciso que se diga; e por mais que os Nardoni fossem belos, a beleza não os tornou bons. Mas não é por isso que vamos deixar de considerar o Chico feio e os Nardoni belos. “Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”, disse algum “filósofo de botequim”. Não é por ser uma bela alma que vamos deixar de considerar o corpo físico feio, quando ele realmente o for, e não é por ser um ente perverso que vamos deixar de considerar seu corpo belo, quando este também realmente o for. O que não podemos é dizer que alguém belo é bom e alguém feio é mau, pois o Espírito não tem necessariamente algo a ver com a aparência do corpo e a Doutrina Espírita, com muita propriedade, diz que o corpo é um véu que oculta as qualidades da alma.
Mas se as qualidades da alma não definem imediatamente a beleza física individual, elas definiriam a beleza média coletiva. Pela beleza coletiva se pode de certa forma deduzir a evolução média geral passada de determinado povo ou raça, embora não se possa usar esse critério para definir a evolução de indivíduos ou a evolução média atual (por causa do tempo necessário para a beleza se ajustar em caso de mudança nos níveis de moralidade e intelectualidade dos povos), o que seria um preconceito. Portanto, um povo cujos elementos tivessem sido em média mais rústicos é mais provável de se ter encontrado um elemento ignorante do que em um povo cujos elementos tivessem sido menos rústicos.
Foi isso que Kardec quis dizer quando escreveu que “à medida que o homem se elevar moralmente, seu envoltório se irá avizinhando do ideal da beleza, que é a beleza angélica.”
Na realidade, isso se refere à beleza média, e não à beleza individual e pontual. À medida que o progresso moral e intelectual se realiza na humanidade, ou que Espíritos atrasados são substituídos paulatinamente por Espíritos melhores, a beleza média acompanha esse progresso. Mas se num determinado momento um elemento inferior se encarna no meio de uma família ou de um povo que historicamente teve somente almas superiores, no espaço de uma encarnação não é possível para a beleza se ajustar, pois a natureza não dá saltos, como bem disse Kardec, donde teremos um ser inferior num corpo belo. A recíproca também seria verdadeira.
Mas supondo-se que sejam sempre os mesmos Espíritos que se encarnem aqui ou acolá, e sabendo-se que esses Espíritos evoluem na linha do tempo, a beleza média absoluta desse grupo como um todo tenderá a aumentar, ainda que pontualmente algum subgrupo pareça estagnar ou até mesmo degenerar. É isso que parecia mostrar as observações do Sr. Charles Richard, citado por Kardec na Teoria da Beleza, porque, ao longo dos últimos séculos ou mesmo milênios, teriam sido sempre os mesmos espíritos que se encarnavam por aqui, que teria levado Jesus a se referir a eles como "geração atual". Como essa "geração" realizou progressos notáveis, o Sr. Richard viu esse progresso estampado nos rostos de sua atual geração (terrena) em comparação com as antigas, e Allan Kardec corroborou esse pensamento introduzindo o elemento espiritual.
Portanto, consideramos injusta a condenação da Teoria da Beleza, principalmente por parte dos espíritas, simplesmente porque Kardec disse que não era belo aquilo que realmente não o era; porque ele não opinou com subjetividade, com fatuidade, mas com objetividade. Será que o texto deve ser condenado somente por dizer-nos uma verdade, ainda que possa ser considerada desagradável? Talvez se Kardec, ao invés de usar o negro, tivesse usado alguma raça antiga já extinta como exemplo (extremo) de fealdade, ele não tivesse atraído tanta antipatia da parte daqueles que julgam o fundo pela forma. Talvez se ele tivesse escrito que “o homem de Neanderthal pode ser belo para o homem de Neanderthal, como um gato é belo para um gato; mas não é belo em sentido absoluto, porque seus traços grosseiros, seus lábios espessos acusam a materialidade dos instintos; podem exprimir as paixões violentas, mas não podem prestar-se a evidenciar os delicados matizes do sentimento, nem as modulações de um espírito fino...”, ele não tivesse atraído tanta antipatia, pois que o homem de Neanderthal não mais existe e não é mais susceptível de se ofender ou de se sentir humilhado. Mas o fato de Kardec ter exemplificado usando o negro selvagem não torna o ensino menos verdadeiro.
Conclusão
Esperamos que com esse texto possamos ter ajudado a elucidar definitivamente o porquê de as acusações de racismo a Kardec e, por tabela, à própria Doutrina Espírita, serem injustas e infundadas, pois, como vimos, há muito mais diferenças do que semelhanças entre os dois sistemas doutrinários e o que caracteriza o sistema é o todo e não a parte. Assim como não dizemos que "é espírita aquele que somente crê na reencarnação" ou que "é católico aquele que somente crê em Deus", não podemos também afirmar que "é racista aquele que somente crê nas diferenças entre as diversas raças". É preciso crer em tudo de fundamental que caracteriza o sistema doutrinário, ou pelo menos a grande maioria e, como o Espiritismo discorda da imensa maioria dos princípios racistas (que diga-se de passagem, são todos de cunho fundamentalmente materialista, de modo que torna-se redundante dizer, como o fizemos, racismo materialista), ele não pode ser caracterizado como racista. O mesmo vale para Allan Kardec.
É bom também lembrar aos opositores, que julgam que tais ideias de diferenças podem ser socialmente perigosas, que o Espiritismo só pode ser efetivo nas mentes de quem nele crê. As ideias nazistas só eram perigosas nas mãos dos adeptos do nazismo, porque em quem nele não cria, nenhum efeito produzia a não ser uma profunda aversão. O mesmo com relação ao Espiritismo. E já demonstramos nesse artigo que qualquer ideia de diferença racial sob a ótica espírita não poderia produzir um mau efeito, a não ser por uma absoluta falta de lógica e afronta a princípios doutrinários básicos, que poderiam ser facilmente desmistificados. Ainda que o Espiritismo fosse uma crença falsa, ela não seria perigosa, mas antes, incentivaria os povos, superiores, iguais ou inferiores, a se estenderem as mãos e a se auxiliarem mutuamente, a fim de conseguirem um progresso mútuo através do convívio e aprendizado mútuo.
Rafael Gasparini Moreira
e-mail: rafael.gasparini@gmail.com
Paulínia/SP
Mar/2009 (revisado em jun/2011)
Notas:
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[1] - Usamos neste artigo os termos "superiores" e "inferiores" por causa das referências que faz Allan Kardec em suas obras a esses termos, e também porque está na contracapa de O Livro dos Espíritos, que diz "PRINCÍPIOS DA DOUTRINA ESPÍRITA sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade - segundo os ensinos dados por Espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns - recebidos e coordenados POR ALLAN KARDEC". Só queremos deixar claro em que sentido essas palavras devem ser interpretadas em tal ou qual contexto, a fim de que não haja exploração indevida por parte de certas pessoas. Se por alguma razão, em determinado contexto, dizemos que o ouro é "superior" à prata, isso significa uma superioridade definitiva, pois que a prata jamais será ouro ou vice-versa. Por outro lado, se dizemos, em outro determinado contexto, que um adulto é superior em inteligência a uma criança de 10 anos, isso se refere a uma superioridade temporal, pois que a criança será um dia adulta, assim como o adulto já foi criança. No primeiro caso a diferença é qualitativa (materiais de naturezas diferentes); no segundo caso, quantitativa, no sentido de maior ou menor adiantamento. Em se tratando de diferenças meramente corporais, como se refere à matéria que não pode ser moldada livremente à nossa vontade, se falarmos de "superioridade" e "inferioridade", ela será sempre definitiva, como o ouro em relação à prata (pelo menos durante a vida corporal, já que com a morte nos tornamos todos novamente materialmente iguais). Mas sempre que tratarmos de diferenças de ordem espiritual, estaremos sempre nos referindo a "superioridades" e "inferioridades" temporais, como a que há entre o adulto e a criança, pois que todos os seres racionais (espíritos) são iguais perante Deus. O espírita, portanto, vê as diferenças existentes entre os seres racionais de um ponto de vista temporal apenas, pois que todos são iguais e tendem para o mesmo fim. Já o materialista, como não vê nada além de matéria, vê as diferenças entre os seres racionais (quando as admite) de um ponto de vista definitivo. Por esta razão a existência das diferenças humanas incomoda bastante os materialistas e incomoda menos (ou não incomoda absolutamente) os espíritas, e isso também em parte explica a virulência dos ataques que o Espiritismo recebe quando trata das diferenças humanas.
[2] - Já vimos algumas pessoas questionarem a utilidade de se investigar se há ou não diferenças de ordem intelectual entre grupos étnicos humanos, já que isso, em suas opiniões, poderia virar pretexto para discriminações de ordens diversas. Sem entrar no mérito das inúmeras vantagens que haveria para a humanidade em conhecer-se a si mesma (apesar do riscos existentes de discriminações), poderíamos perguntar a estas pessoas, que ao mesmo sejam os que lancem a acusação de racismo ao Espiritismo, em que base fundamentam então essa acusação, já que não estão mesmo interessadas em nenhuma verdade a esse respeito. Acusação baseada em "achismos"? Se eles perguntam "para quê investigar?", perguntamos nós em réplica: "por quê então acusar o Espiritismo de racismo?"
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