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Nota do Editor: |
Entre 1857 e 1861, aproximadamente, ocorreu na comunidade de Morzine, na Alta Sabóia, um fenômeno que foi tomado por uma "possessão coletiva de demônios", que chegou a atingir a cifra máxima de 120 pessoas simultaneamente, principalmente jovens mocinhas. O interesse maior por este fenômeno é que ele foi amplamente investigado por muitas pessoas, inclusive médicos psiquiatras enviados pelo governo francês para tentarem resolver o problema, e, apesar de as conclusões divergirem, pelo menos as descrições dos fatos convergem e os relatos são abundantes, de diversas fontes. Baseado nesses relatos, e também em suas próprias observações, Allan Kardec, que também esteve no local após a epidemia ter praticamente cessado, pôde tirar uma série de conclusões que são de bastante interesse ainda hoje em dia por mostrarem, entre outras coisas, a existência e a inegável influência dos seres do mundo espiritual no mundo corporal, chamemo-los de Espíritos, ou de Anjos ou de Demônios. Abaixo seguem seis artigos, de seis meses diferentes da Revista Espírita, nos quais Allan Kardec se ocupou do assunto. Os dois primeiros são apenas explicações preliminares, sendo a apreciação dos fatos feita a partir da segunda metade do terceiro artigo até o quinto artigo. O último artigo é apenas uma retomada do assunto por parte de Kardec, com novos detalhes, mais de um ano após o quinto artigo, já que a epidemia parece que retornara com maior intensidade na região. |
Estudos sobre os Possessos de Morzine
Causas da Obsessão e meios de combatê-la
(1o artigo - Revista Espírita dez/1862)
As observações que fizemos sobre a epidemia que se abateu e ainda investe sobre a comuna de Morzine, na Alta Sabóia, não nos deixam dúvidas quanto à sua causa. Mas, para apoiar nossa opinião, devemos entrar em algumas explicações preliminares, que melhor ressaltarão a analogia desse mal com casos semelhantes, cuja origem não poderia ensejar dúvida a quem esteja familiarizado com os fenômenos espíritas e reconheça a ação do mundo invisível sobre a Humanidade. Para tanto se faz necessário remontar à própria fonte do fenômeno e seguir-lhe a gradação, desde os casos mais simples, explicando, ao mesmo tempo, a maneira pela qual se processa. Daí deduziremos muito melhor os meios de combater o mal. Embora já tenhamos tratado do assunto em O Livro dos Médiuns, no capítulo da obsessão, e em vários artigos desta Revista, acrescentaremos algumas considerações novas, que tornarão a coisa mais fácil de compreender.
O primeiro ponto que importa nos compenetremos, é da natureza dos Espíritos, do ponto de vista moral. Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens, e não sendo bons todos os homens, não é racional admitir-se que o Espírito de um homem perverso se transforme subitamente; caso contrário não haveria necessidade de castigo na vida futura. A experiência vem confirmar a teoria ou, melhor dizendo, esta teoria é fruto da experiência. De fato, as relações com o mundo invisível nos mostram, ao lado de Espíritos sublimes em sabedoria e conhecimento, outros ignóbeis, ainda com todos os vícios e paixões da Humanidade. Depois da morte, a alma de um homem de bem será um bom Espírito. Do mesmo modo, encarnando-se, um bom Espírito será um homem de bem. Pela mesma razão, ao morrer, um homem perverso dará um Espírito perverso ao mundo invisível; e um mau Espírito, ao se encarnar, não pode transformar-se num homem virtuoso, pelo menos enquanto o Espírito não se houver depurado ou experimentado o desejo de melhorar-se. Porque, uma vez entrado na via do progresso, pouco a pouco se despoja de seus maus instintos; eleva-se gradualmente na hierarquia dos Espíritos, até atingir a perfeição, acessível a todos, porquanto não pode Deus ter criado seres eternamente votados ao mal e à infelicidade. Assim, os mundos visível e invisível se interpenetram e se alternam incessantemente, se assim nos podemos exprimir, e se alimentam mutuamente; ou, melhor dizendo, na realidade esses dois mundos não constituem senão um só, em dois estados diferentes. Esta consideração é muito importante para melhor compreender-se a solidariedade que existe entre eles.
Sendo a Terra um mundo inferior, isto é, pouco adiantado, resulta que a maioria dos Espíritos que o povoam, quer no estado errante, quer como encarnados, deve compor-se de Espíritos imperfeitos, que fazem mais mal que bem. Daí a predominância do mal na Terra. Ora, sendo a Terra, ao mesmo tempo, um mundo de expiação, é o contato do mal que torna infelizes os homens, pois se todos os homens fossem bons, todos seriam felizes. É um estado a que ainda não alcançou o nosso globo, e é para tal estado que Deus quer conduzi-lo. Todas as tribulações que os homens de bem aqui experimentam, tanto da parte dos homens, quanto da dos Espíritos, são consequências deste estado de inferioridade. Poder-se-ia dizer que a Terra é a Botany-Bay dos mundos: aí se encontram a selvageria primitiva e a civilização, a criminalidade e a expiação.
É preciso, pois, apresentar-se o mundo invisível como formando uma população inumerável, compacta, por assim dizer, que envolve a Terra e se agita no espaço. É uma espécie de atmosfera moral, da qual os Espíritos encarnados ocupam a parte inferior, onde se agitam como num vaso. Ora, do mesmo modo que o ar das partes baixas é pesado e insalubre, esse ar moral é também prejudicial, porque corrompido pelos miasmas dos Espíritos impuros. Para resistir a isso são necessários temperamentos morais dotados de grande vigor.
Digamos, entre parênteses, que tal estado de coisas é inerente aos mundos inferiores. Mas estes seguem a lei do progresso e, quando atingirem a idade requerida, Deus os purifica, deles expulsando os Espíritos imperfeitos, que aí não mais se reencarnam e são substituídos por outros mais adiantados, que farão reinar a felicidade, a justiça e a paz. No momento se prepara uma revolução desse gênero.
Examinaremos, agora, o modo recíproco de ação dos Espíritos encarnados e desencarnados.
Sabemos que os Espíritos são revestidos de um envoltório vaporoso, formando para eles um verdadeiro corpo fluídico, ao qual damos o nome de perispírito, e cujos elementos são colhidos do fluido universal ou cósmico, princípio de todas as coisas. Quando o Espírito se une a um corpo, aí vive com seu perispírito, que serve de ligação entre o Espírito propriamente dito e a matéria corporal; é o intermediário das sensações percebidas pelo Espírito. Mas o perispírito não está confinado ao corpo, como numa caixa; por sua natureza fluídica, ele irradia para o exterior e forma em torno do corpo uma espécie de atmosfera, como o vapor que dele se desprende. Mas o vapor liberado de um corpo enfermiço é igualmente insalubre, acre e nauseabundo, o que infecta o ar dos lugares onde se reúnem muitas pessoas doentes. Assim como esse vapor é impregnado das qualidades do corpo, o perispírito é impregnado de qualidades, isto é, do pensamento do Espírito, e irradia tais qualidades em torno do corpo.
Aqui um outro parêntese para responder imediatamente a uma objeção oposta por alguns à teoria dada pelo Espiritismo do estado da alma. Acusam-no de materializar a alma, ao passo que, conforme a religião, a alma é puramente imaterial. Como a maior parte das outras, esta objeção provém de um estudo incompleto e superficial. O Espiritismo jamais definiu a natureza da alma, que escapa às nossas investigações; não diz que o perispírito constitui a alma: a palavra perispírito diz positivamente o contrário, pois especifica um envoltório em torno do Espírito. Que diz a respeito O Livro dos Espíritos? "Há no homem três coisas: a alma, ou Espírito, princípio inteligente; o corpo, envoltório material; o perispírito, envoltório fluídico semimaterial, servindo de laço entre o Espírito e o corpo." Do fato de a alma conservar, com a morte do corpo, o seu envoltório fluídico, não significa que tal envoltório e a alma sejam uma só e mesma coisa, do mesmo modo que o corpo não se confunde com a roupa nem a alma com o corpo. A Doutrina Espírita nada tira à imaterialidade da alma, apenas lhe dá dois invólucros, em vez de um, na vida corpórea, e só um depois da morte do corpo, o que é, não uma hipótese, mas o resultado da observação; é com o auxílio desse envoltório que melhor se compreende a sua individualidade e melhor se explica a sua ação sobre a matéria.
Voltemos ao nosso assunto.
Por sua natureza fluídica, essencialmente móvel e elástica, se assim nos podemos exprimir, como agente direto do Espírito, o perispírito é posto em ação e projeta raios pela vontade do Espírito. Por esses raios ele serve à transmissão do pensamento, porque, de certa forma, está animado pelo pensamento do Espírito. Sendo o perispírito o laço que une o Espírito ao corpo, é por seu intermédio que o Espírito transmite aos órgãos, não a vida vegetativa, mas os movimentos que exprimem a sua vontade; é, também, por seu intermédio que as sensações do corpo são transmitidas ao Espírito. Destruído o corpo sólido pela morte, o Espírito não age mais e não percebe senão pelo seu corpo fluídico, ou perispírito, razão por que age mais facilmente e percebe melhor, já que o corpo é um entrave. Tudo isto é ainda resultado da observação.
Suponhamos agora duas pessoas próximas, cada qual envolvida - que nos permitam o neologismo - por sua atmosfera perispiritual. Esses dois fluidos põem-se em contato e se interpenetram; se forem de natureza antipática, repelem-se e os dois indivíduos sentirão uma espécie de mal-estar ao se aproximarem um do outro, sem disso se darem conta; se, ao contrário, forem movidos por sentimentos de benevolência, terão um pensamento benevolente, que atrai. Tal a causa pela qual duas pessoas se compreendem e se adivinham sem se falarem. Um certo não sei quê por vezes nos diz que a pessoa com a qual nos defrontamos deve ser animada por tal ou qual sentimento. Ora, esse não sei quê é a expansão do fluido perispiritual da pessoa em contato com o nosso, espécie de fio elétrico condutor do pensamento. Desde logo se compreende que os Espíritos, cujo envoltório fluídico é muito mais livre do que no estado de encarnação, já não necessitam de sons articulados para se entenderem.
O fluido perispiritual do encarnado é, pois, acionado pelo Espírito. Se, por sua vontade, o Espírito, por assim dizer, dardeja raios sobre outro indivíduo, os raios o penetram. Daí a ação magnética mais ou menos poderosa, conforme a vontade; mais ou menos benfazeja, conforme sejam os raios de natureza melhor ou pior, mais ou menos vivificante. Porque podem, por sua ação, penetrar os órgãos e, em certos casos, restabelecer o estado normal. Sabe-se da importância das qualidades morais do magnetizador.
Aquilo que pode fazer o Espírito encarnado, dardejando seu próprio fluido sobre uma pessoa, um Espírito desencarnado também o pode, visto ter o mesmo fluido, ou seja, pode magnetizar. Conforme seja bom ou mau o fluido, sua ação será benéfica ou prejudicial.
Assim, facilmente nos damos conta da natureza das impressões que recebemos, de acordo com o meio onde nos encontramos. Se uma assembléia for composta de pessoas animadas de maus sentimentos, o ar ambiente será saturado com o fluido impregnado de seus sentimentos. Daí, para as almas boas, um mal-estar moral análogo ao mal-estar físico causado pelas emanações mefíticas: a alma fica asfixiada. Se, ao contrário, as pessoas tiverem intenções puras, encontramo-nos em sua atmosfera como se estivéssemos num ar vivificante e salubre. Naturalmente o efeito será o mesmo num ambiente repleto de Espíritos, conforme sejam bons ou maus.
Isto bem compreendido, chegamos sem dificuldade à ação material dos Espíritos errantes sobre os encarnados e, daí, à explicação da mediunidade.
Quando um Espírito quer agir sobre uma pessoa, dela se aproxima e a envolve, por assim dizer, com o seu perispírito, como num manto; os fluidos se interpenetram, os dois pensamentos e as duas vontades se confundem e, então, o Espírito pode servir-se daquele corpo como se fora o seu próprio, fazê-lo agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar, etc. Tais são os médiuns. Se o Espírito for bom, sua ação será suave, benéfica, e só fará boas coisas; caso seja mau, fará maldades; se for perverso e mau, ele o constrange como se o imobilizasse numa camisa-de-força, até paralisar a vontade e a própria razão, que abafa com seus fluidos, como se apaga um fogo sob um lençol d'água. Faz com que pense, fale e aja por ele, induzindo-o contra a vontade a praticar atos extravagantes e ridículos; numa palavra, magnetiza-o e o faz entrar numa espécie de catalepsia moral, de modo que o indivíduo se torna um instrumento cego de sua vontade. Tal é a causa da obsessão, da fascinação e da subjugação, que se apresentam em diversos graus de intensidade. O paroxismo da subjugação é vulgarmente chamado possessão [1]. É de notar-se que, neste estado, muitas vezes o indivíduo tem consciência do ridículo daquilo que faz, mas é constrangido a fazê-lo, como se um homem mais vigoroso que ele fizesse com que movesse, contra a vontade, os braços, as pernas, a língua. Eis um curioso exemplo.
Numa pequena reunião em Bordeaux, em meio a uma evocação, o médium, um jovem de caráter suave e de perfeita urbanidade, de repente começa a bater na mesa, levanta-se com olhar ameaçador, mostrando os punhos aos assistentes, proferindo as mais grosseiras injúrias e querendo atirar-lhes um tinteiro. A cena, tanto mais chocante quanto inesperada, durou cerca de dez minutos, depois do que o moço retomou sua calma habitual, desculpou-se do que se havia passado, dizendo saber perfeitamente o que fizera e dissera coisas inconvenientes, mas que não pudera impedir. Tomando conhecimento do fato, pedimos explicação numa sessão da Sociedade de Paris, sendo-nos respondido que o Espírito que o havia provocado era mais leviano do que mau e que simplesmente quisera divertir-se com o pavor dos assistentes. O fato não mais se repetiu e o médium continuou a receber excelentes comunicações, o que vem a provar a veracidade da explicação. É bom dizer o que provavelmente tinha excitado a verve daquele Espírito farsista. Um antigo maestro do teatro de Bordeaux, o Sr. Beck, tinha experimentado, durante vários anos antes de morrer, um fenômeno singular. Todas as noites, ao sair do teatro, parecia-lhe que um homem lhe saltava às costas, escarranchava-se nas suas espáduas e se mantinha agarrado até que chegasse à porta de sua casa. Aí o suposto indivíduo descia e o Sr. Beck se via livre. Nessa reunião quiseram evocar o Sr. Beck e pedir-lhe uma explicação. Foi então que o Espírito intrujão julgou por bem substitui-lo, fazendo o médium representar uma cena diabólica, certamente por nele ter encontrado as necessárias disposições fluídicas para o secundar.
O que não passou de acidental naquela circunstância, por vezes toma um caráter permanente, quando o Espírito é mau, porque para ele o indivíduo se torna uma verdadeira vítima, à qual ele pode dar a aparência de verdadeira loucura. Dizemos aparência, porquanto a loucura propriamente dita sempre resulta de uma alteração dos órgãos cerebrais, ao passo que, neste caso, os órgãos estão de tal modo intactos quanto os do rapaz de quem acabamos de falar. Não há, pois, loucura real, mas aparente, contra a qual os recursos da terapêutica são impotentes, como o prova a experiência. Ainda mais: eles podem produzir o que não existe. As casas de alienados contam muitos doentes desse gênero, aos quais o contato com outros alienados só poderá ser muito prejudicial, porque este estado denota sempre uma certa fraqueza moral. Ao lado de todas as variedades de loucura patológica, convém, pois, acrescentar a loucura obsessiva, que requer meios especiais. Mas como poderá um médico materialista estabelecer essa diferença, ou mesmo admiti-la?
Bravo! - irão exclamar os nossos adversários. Não se pode demonstrar melhor os perigos do Espiritismo e temos muita razão de proibi-lo.
Um instante! O que dissemos prova precisamente a sua utilidade.
Credes que os maus Espíritos, que pululam no meio da Humanidade, esperaram ser chamados para exercerem sua influência perniciosa? Desde que os Espíritos existiram em todos os tempos, em todos os tempos representaram o mesmo papel, porque esse papel está na Natureza; e a prova disso está no grande número de pessoas obsidiadas, ou possessas, se quiserem, antes que se pensasse nos Espíritos ou, atualmente, sem que jamais se tivesse ouvido falar de Espiritismo e de médiuns. A ação dos Espíritos, bons ou maus, é, pois, espontânea; a dos maus produz uma porção de perturbações na economia moral e mesmo física que, por ignorância da verdadeira causa, são atribuídas a causas erradas. Os maus Espíritos são inimigos invisíveis tanto mais perigosos quanto não se suspeitava de sua ação. Pondo-os a descoberto, o Espiritismo vem revelar uma nova causa de certos males da Humanidade. Conhecida a causa, não se buscará mais combater o mal por meios que, doravante, sabemos inúteis; procurar-se-ão outros mais eficazes. Ora, o que levou à descoberta desta causa? A mediunidade. Foi pela mediunidade que esses inimigos ocultos traíram sua presença; ela fez para ela o que fez o microscópio para os infinitamente pequenos: revelou todo um mundo. O Espiritismo não atraiu os maus Espíritos; ele os revelou e forneceu os meios de lhes paralisar a ação e, consequentemente, de os afastar. Não trouxe, pois, o mal, pois este sempre existiu; ao contrário, trouxe o remédio ao mal, mostrando-lhe as causas. Uma vez reconhecida a ação do mundo invisível, ter-se-á a chave de uma multidão de fenômenos incompreendidos e a ciência, enriquecida com esta nova lei, verá desdobrarem-se novos horizontes à sua frente. Quando lá chegará? Quando não mais professar o materialismo, pois o materialismo detém o seu avanço e lhe opõe uma barreira intransponível.
Antes de falar do remédio, expliquemos um fato que confunde muitos espíritas, sobretudo nos casos de obsessão simples, isto é, naqueles muito frequentes, em que o médium não se pode desembaraçar de um mau Espírito, que por ele se comunica obstinadamente, pela escrita ou pela audição; aquele, não menos frequente, em que, por meio de uma boa comunicação, vem um Espírito imiscuir-se para dizer coisas más. Pergunta-se, então, se os maus Espíritos são mais poderosos que os bons.
Reportemo-nos ao que dissemos inicialmente, quanto à maneira por que age o Espírito e imaginemos um médium envolvido e penetrado pelo fluido perispiritual de um mau Espírito. Para que o do bom possa atuar sobre o médium, é necessário que penetre esse envoltório e já se sabe que dificilmente a luz penetra em nevoeiro espesso. Conforme o grau da obsessão, o nevoeiro será permanente, tenaz ou intermitente e, por conseguinte, mais ou menos fácil de dissipar.
O Sr. Superchi, nosso correspondente em Parma, enviou-nos dois desenhos feitos por um médium vidente, representando perfeitamente a situação. Num deles vê-se a mão do médium envolta numa nuvem escura - imagem do fluido perispiritual dos maus Espíritos - atravessada por um raio luminoso que lhe clareava a mão; é o bom fluido que a dirige e se opõe à ação do mau. No outro, a mão está na sombra; a luz está em volta do nevoeiro, que não pode penetrar. Aquilo que o desenho restringe à mão do médium deve ser entendido como envolvendo todo o seu corpo.
Resta sempre a questão de saber se o bom Espírito é menos poderoso que o mau. Não é o bom Espírito que é mais fraco e, sim, o médium, que não é bastante forte para livrar-se do manto que sobre si foi lançado e se desembaraçar da opressão dos braços que o enlaçam, nos quais, é bom que se diga, por vezes se compraz. Compreende-se que, neste caso, o bom Espírito não possa triunfar, pois o outro é preferido. Admitamos, agora, o desejo de desvencilhar-se desse envoltório fluídico, de que o seu se acha penetrado, como uma roupa penetrada de umidade: não bastará o desejo e nem sempre a vontade é suficiente.
Trata-se de lutar contra um adversário. Ora, quando dois homens lutam corpo a corpo, é o de músculos mais fortes que vencerá o outro. Com um Espírito deve-se lutar, não corpo a corpo, mas de Espírito a Espírito; e é ainda o mais forte que vencerá. Aqui a força está na autoridade que se pode exercer sobre o Espírito e tal autoridade está subordinada à superioridade moral. Esta é como o sol: dissipa o nevoeiro pela força de seus raios. Esforçar-se por ser bom; tornar-se melhor se já se é bom; purificar-se de suas imperfeições; numa palavra, elevar-se moralmente o mais possível, tal é o meio de adquirir o poder de dominar os Espíritos inferiores, para os afastar. Do contrário zombarão de vossas ordens. (O Livro dos Médiuns, nos 252 e 279).
Todavia - indagarão - por que os Espíritos protetores não lhes ordenam que se retirem? Certamente o podem e o fazem algumas vezes; mas, permitindo a luta, também deixam o mérito da vitória. Se deixam se debatendo pessoas merecedoras de certa consideração, é para provar sua perseverança e fazer que adquiram mais força no bem; para elas é uma espécie de ginástica moral.
Eis a resposta que demos a um coronel do estado-maior austríaco, na Hungria, o Sr. P..., que nos consultava sobre uma afecção atribuída aos maus Espíritos, desculpando-se por nos intitular de amigo, embora só de nome nos conhecesse:
"O Espiritismo é o laço fraterno por excelência e tendes razão de pensar que os que partilham essa crença devem, mesmo sem se conhecerem, tratar-se como amigos. Agradeço-vos por terdes tido de mim uma boa opinião e me dardes esse título.
"Sinto-me contente por encontrar em vós um adepto sincero e devotado dessa consoladora doutrina. Mas, por isso mesmo que é consoladora, deve dar força moral e resignação para suportar as provas da vida que, no mais das vezes, são expiações. Disto a Revista Espírita vos fornece numerosos exemplos.
"No que respeita à moléstia que sofreis, não vejo prova evidente da influência de maus Espíritos, que vos obsidiariam. No entanto, admitamo-la como hipótese. Só uma força moral poderia opor-se a outra força moral e esta não pode vir senão de vós. Contra um Espírito é necessário lutar de Espírito a Espírito, e é o mais forte que vencerá. Em casos semelhantes é preciso esforçar-se para adquirir a maior soma possível de superioridade pela vontade, pela energia e pelas qualidades morais, para ter o direito de lhe dizer: Vade retro! Assim, pois, se estiverdes neste caso, não será com o sabre de coronel que o vencereis, mas com a espada do anjo, isto é, a virtude e a prece. A espécie de pavor e angústia que experimentais nesses momentos é sinal de fraqueza, que o Espírito aproveita. Dominai o medo e com a vontade triunfareis; dominai-o resolutamente, como o fazeis perante o inimigo e crede-me vosso mui dedicado e afeiçoado,
A.K."
É possível que certas pessoas preferissem uma receita mais fácil para expulsar os maus Espíritos: algumas palavras a dizer, ou sinais a fazer, por exemplo, o que seria mais cômodo do que corrigir os próprios defeitos. Lamentamos bastante, mas não conhecemos processo mais eficaz para vencer um inimigo do que ser mais forte que ele. Quando estamos doentes, temos de nos resignar a tomar remédios, por mais amargos que sejam. Mas, também, quando tivemos a coragem de tomá-los, como nos sentimos bem e ficamos fortes! Devemos, pois, persuadir-nos de que, para alcançar tal objetivo, não há palavras sacramentais, nem fórmulas, nem talismãs, nem sinais materiais quaisquer. Os maus Espíritos se riem e muitas vezes se deleitam em indicar alguns, cuidando sempre de dizer que são infalíveis, para melhor captar a confiança daqueles de que querem abusar, porque estes, então, confiantes na virtude do processo, se entregam sem temor.
Antes de esperar dominar o mau Espírito, é preciso dominar-se a si mesmo. De todos os meios para adquirir a força de o conseguir, o mais eficaz é a vontade, secundada pela prece, entendida a prece de coração e não de palavras, nas quais a boca participa mais que o pensamento. É necessário pedir ao seu anjo-da-guarda e aos bons Espíritos que o assistam na luta. Mas não basta lhes pedir que expulsem o mau Espírito; é preciso lembrar-se da máxima: Ajuda-te, e o céu te ajudará e, sobretudo, pedir-lhes a força que nos falta para vencer nossas más inclinações. Para nós tais inclinações são piores que os maus Espíritos, pois são elas que os atraem, como a corrupção atrai as aves de rapina. Orando também pelo Espírito obsessor estamos lhe retribuindo o mal com o bem e nos mostrando melhor que ele, o que já é uma superioridade. Com perseverança, na maioria dos casos acabamos por conduzi-lo a melhores sentimentos e, de perseguidor que era, o transformamos num ser reconhecido. Em resumo, a prece fervorosa e os esforços sérios por melhorar-se são os únicos meios de afastar os maus Espíritos, que reconhecem como senhores aqueles que praticam o bem, ao passo que as fórmulas os fazem rir. A cólera e a impaciência os excitam. É preciso cansá-los, mostrando mais paciência que eles.
Acontece, porém, que em alguns casos a subjugação chega a ponto de paralisar a vontade do obsidiado, não se lhe podendo esperar nenhum concurso sério. É principalmente então que a intervenção de um terceiro se torna necessária, seja pela prece, seja pela ação magnética. Mas o poder dessa intervenção também depende do ascendente moral que o interventor possa ter sobre os Espíritos, porquanto, se não valerem mais, sua ação será estéril. Neste caso a ação magnética terá por efeito penetrar o fluido do obsidiado por um fluido melhor e liberar o fluido do Espírito mau. Ao operar, deve o magnetizador ter o duplo objetivo de opor uma força moral a outra força moral e produzir sobre o paciente uma espécie de reação química, para nos servirmos de uma comparação material, expulsando um fluido por outro fluido. Por aí, não só opera um desprendimento salutar, mas dá força aos órgãos enfraquecidos por uma longa e por vezes vigorosa opressão. Aliás, compreende-se que o poder da ação fluídica não só está na razão da energia da vontade, mas, sobretudo, da qualidade do fluido introduzido e, conforme dissemos, tal qualidade depende da instrução e das qualidades morais do magnetizador. Daí se segue que um magnetizador comum, que agisse maquinalmente para magnetizar pura e simplesmente, produziria pouco ou nenhum efeito. É absolutamente necessário um magnetizador espírita, que age com conhecimento de causa, com a intenção de produzir, não o sonambulismo ou uma cura orgânica, mas os efeitos que acabamos de descrever. Além disso, é evidente que uma ação magnética dirigida nesse sentido não deixa de ser útil nos casos de obsessão ordinária, porque, então, se o magnetizador for secundado pela vontade do obsidiado, em vez de um só o Espírito será combatido por dois adversários.
É preciso dizer, também, que muitas vezes responsabilizamos os Espíritos estranhos por malefícios de que não são responsáveis. Certos estados mórbidos e certas aberrações, atribuídos a uma causa oculta, em geral são devidos exclusivamente ao Espírito do indivíduo. As contrariedades que ordinariamente concentramos em nós mesmos, sobretudo as decepções amorosas, têm levado ao cometimento de muitos atos excêntricos, atribuídos por engano à obsessão. Muitas vezes a criatura é o seu próprio obsessor.
Acrescentemos, enfim, que certas obsessões tenazes, principalmente de pessoas de mérito, por vezes fazem parte das provas a que se acham submetidas. "Por vezes, acontece mesmo que a obsessão, quando simples, seja uma tarefa imposta ao obsidiado, que deve trabalhar pela melhoria do obsessor, como um pai por um filho vicioso."
Remetemos o leitor, para mais detalhes, a O Livro dos Médiuns.
Resta-nos falar da obsessão coletiva ou epidêmica e, em particular, da de Morzine; mas isto exige considerações de certa extensão para mostrar, pelos fatos, sua similitude com as obsessões individuais. E a prova disto nós a encontramos em nossas próprias observações e nas que são consignadas nos relatórios dos médicos. Além disso, resta-nos examinar o efeito dos meios empregados e, em seguida, a ação do exorcismo e as condições nas quais este pode ser eficaz ou nulo. A amplitude desta segunda parte obriga-nos a fazê-la objeto de um artigo especial, a ser publicado no próximo número.
Estudos sobre os Possessos de Morzine
Causas da Obsessão e meios de combatê-la
(2o artigo - Revista Espírita jan/1863)
Em nosso artigo precedente expomos a maneira pela qual se exerce a ação dos Espíritos sobre o homem, ação, por assim dizer, material. Sua causa está inteiramente no perispírito, princípio não só de todos os fenômenos espíritas propriamente ditos, mas de uma imensidade de efeitos morais, fisiológicos e patológicos, incompreendidos antes do conhecimento desse agente, cuja descoberta, se assim nos podemos exprimir, abrirá horizontes novos à ciência, quando esta se dispuser a reconhecer a existência do mundo invisível.
Como vimos, o perispírito representa importante papel em todos os fenômenos da vida; é a fonte de uma porção de afecções, cuja causa é em vão buscada pelo escalpelo na alteração dos órgãos, e contra as quais é impotente a terapêutica. Por sua expansão explicam-se, ainda, as reações de indivíduo a indivíduo, as atrações e repulsões instintivas, a ação magnética, etc. No Espírito livre, isto é, desencarnado, substitui o corpo material; é o agente sensitivo, o órgão por meio do qual ele age. Pela natureza fluídica e expansiva do perispírito, o Espírito alcança o indivíduo sobre o qual quer atuar, rodeia-o, envolve-o, penetra-o e o magnetiza. Vivendo em meio ao mundo invisível, o homem está incessantemente submetido a essas influências, assim como às da atmosfera que respira, traduzindo-se aquelas por efeitos morais e fisiológicos dos quais não se dá conta e que, muitas vezes, atribui a causas inteiramente contrárias. Essa influência difere, naturalmente, segundo as qualidades, boas ou más, do Espírito, como já explicamos no artigo anterior. Se ele for bom e benevolente a influência, ou, se quisermos, a impressão, é agradável e salutar; é como as carícias de uma terna mãe, que abraça o filho. Se for mau e perverso, será dura, penosa, aflitiva e por vezes perniciosa; não abraça: constrange. Vivemos num oceano fluídico, expostos incessantemente a correntes contrárias, que atraímos ou repelimos, e às quais nos abandonamos, conforme nossas qualidades pessoais, mas em cujo meio o homem sempre conserva o seu livre-arbítrio, atributo essencial de sua natureza, em virtude do qual pode sempre escolher o caminho.
Como se vê, isto é inteiramente independente da faculdade mediúnica, tal como é concebida vulgarmente. Estando a ação do mundo invisível na ordem das coisas naturais, ela se exerce sobre o homem, abstração feita de qualquer conhecimento espírita. Estamos a elas submetidos, como o estamos à influência da eletricidade atmosférica, mesmo não sabendo a física, como ficamos doentes, sem conhecer a medicina. Ora, assim como a física nos ensina a causa de certos fenômenos e a medicina a de certas doenças, o estudo da ciência espírita nos ensina a causa dos fenômenos devidos às influências ocultas do mundo invisível e nos explica o que, sem isto, nos parecerá inexplicável. A mediunidade é o meio direto de observação. O médium - que nos permitam a comparação - é o instrumento de laboratório pelo qual a ação do mundo mundo invisível se traduz de maneira patente. E, pela facilidade que nos oferece de repetir as experiências, permite-nos estudar o modo e os diversos matizes desta ação. Destes estudos e destas observações nasceu a ciência espírita.
Todo indivíduo que, de uma maneira ou de outra, sofre a influência dos Espíritos, é, por isto mesmo, médium, razão por que se pode dizer que todo o mundo é médium. Mas é pela mediunidade efetiva, consciente e facultativa que se chegou a constatar a existência do mundo invisível e, pela diversidade das manifestações obtidas ou provocadas, foi possível esclarecer a qualidade dos seres que o compõem e o papel que representam na Natureza. O médium fez pelo mundo invisível o que fez o microscópio pelo mundo dos infinitamente pequenos.
É, pois, uma nova força, uma nova faculdade, uma nova lei, numa palavra, que nos foi revelada. É realmente inconcebível que a incredulidade repila mesmo a idéia, levando-se em conta que esta idéia supõe em nós uma alma, um princípio inteligente que sobrevive ao corpo. Se se tratasse da descoberta de uma substância material e ininteligente, seria aceita sem dificuldade. Mas uma ação inteligente fora do homem é, para eles, superstição. Se, da observação dos fatos produzidos pela mediunidade, remontarmos aos fatos gerais, poderemos, pela similitude dos efeitos, concluir pela similitude das causas. Ora, é constatando a analogia dos fenômenos de Morzine com aqueles que diariamente a mediunidade põe aos nossos olhos que nos parece evidente a participação dos Espíritos malfazejos naquela circunstância; e não o será menos para quantos tiverem meditado sobre os numerosos casos isolados, relatados na Revista Espírita. A única diferença está no caráter epidêmico da afecção. Mas a história registra alguns fatos semelhantes, entre os quais figuram o das religiosas de Loudun, dos convulsionários de Saint-Médard, dos calvinistas das Cévènes e dos possessos do tempo do Cristo. Estes últimos, sobretudo, apresentam notável analogia com os de Morzine; e - coisa digna de nota - em qualquer parte onde esses fenômenos se produzissem, a idéia de que fossem devidos a Espíritos era o pensamento dominante e como que intuitiva naqueles por eles afetados.
Se nos reportarmos ao nosso primeiro artigo sobre a teoria da obsessão, contida em O Livro dos Médiuns, e aos fatos relatados na Revista, veremos que a ação dos maus Espíritos, sobre os indivíduos de que se apoderam, apresenta nuanças de intensidade e duração extremamente variadas, conforme o grau de malignidade e perversidade do Espírito e, também, de acordo com o estado moral da pessoa que lhes dá acesso mais ou menos fácil. Muitas vezes tal ação é temporária e acidental, mais maliciosa e desagradável que perigosa, como no caso que relatamos em nosso artigo anterior. O fato seguinte pertence a esta categoria:
O Sr. Indermühle, de Berna, membro da Sociedade Espírita de Paris, contou-nos que em sua propriedade de Zimmerwald, o capataz, homem de força hérculea, certa noite se sentiu agarrado por um indivíduo que o sacudia vigorosamente. Dir-se-ia um pesadelo; mas não era, pois o homem estava bem desperto, levantou-se, lutou algum tempo com quem o agarrava e, quando se sentiu livre, tomou do sabre, pendurado ao lado do leito, e pôs-se a esgrimi-lo no escuro, sem nada atingir. Acendeu uma vela, procurou por toda parte e não encontrou ninguém; a porta estava bem fechada. Mal retornara ao leito e o jardineiro, que estava no quarto ao lado, começou a pedir socorro, debatendo-se e gritando que o estrangulavam. O capataz correu para o vizinho, mas, tal como ocorrera consigo, não viu ninguém. Uma criada, que dormia na mesma construção, ouviu todo o barulho. Apavorados todos vieram, no dia seguinte, contar ao Sr. Indermühle o que se havia passado. Depois de ter-se informado de todos os detalhes e certo de que nenhum estranho poderia ter-se introduzido nos aposentos, foi levado a crer numa brincadeira de mau gosto, por parte de algum Espírito, já que manifestações físicas inequívocas, de diversas naturezas, se produziam desde algum tempo em sua casa. Tranquilizou sua gente, recomendando que observassem com cuidado tudo quanto se passasse, caso a coisa se repetisse. Como ele e a esposa fossem médiuns, evocou o Espírito perturbador, que confessou o fato e se desculpou, dizendo: "Eu vos queria falar, pois sou infeliz e necessito de vossas preces; há muito tempo faço tudo o que posso para vos chamar a atenção; bato à vossa porta e, até mesmo, já vos puxei a orelha (O Sr. Indermühle lembrou-se do fato), mas em vão. Então julguei que, protagonizando a cena da noite passada, pensaríeis em me chamar. Fizeste-o e estou contente; asseguro-vos, porém, que não tinha más intenções. Prometei chamar-me algumas vezes e orar por mim." O Sr. Indermühle o repreendeu, repetiu a conversa, deu-lhe uma lição de moral, que ele escutou com prazer, orou por ele e disse aos criados que fizessem o mesmo, o que logo foi feito, já que eram pessoas piedosas. Desde então, tudo ficou em ordem.
Infelizmente, nem todos os Espíritos têm tão boa disposição; esse não era mau. Alguns há, porém, cuja ação é tenaz, permanente, podendo até mesmo haver consequências desagradáveis para a saúde dos indivíduos; direi mais: para suas faculdades intelectuais, caso o Espírito consiga subjugar a vítima, a ponto de neutralizar seu livre-arbítrio e constrangê-la a dizer e a fazer extravagâncias. Tal é o caso da loucura obsessiva, muito diversa nas causas, se não nos efeitos, da loucura patológica.
Em nossa viagem vimos o jovem obsidiado, do qual falamos na Revista de janeiro de 1861, sob o título de Espírito batedor do Aube, e ouvimos do próprio pai e de testemunhas oculares a confirmação de todos os fatos. O rapaz tem agora dezesseis anos; é saudável, forte, perfeitamente constituído e, contudo, queixa-se de dor no estômago e fraqueza nos membros, o que, segundo diz, o impede de trabalhar. Vendo-o, pode-se facilmente crer que a preguiça seja sua principal doença, o que nada tira à realidade dos fenômenos produzidos há cinco anos e que, sob muitos aspectos, lembram os de Bergzabern (Revista: maio, junho e julho de 1858). Já o mesmo não se dá com a sua saúde moral; quando criança era muito inteligente e na escola aprendia com facilidade. Desde então suas faculdades enfraqueceram sensivelmente. Deve-se acrescentar que só recentemente ele e seus pais conheceram o Espiritismo, ainda por ouvir dizer e muito superficialmente, pois nada leram; antes nunca tinham ouvido falar. Não se poderia ver, assim, nenhuma causa provocadora. Os fenômenos materiais praticamente cessaram ou, pelo menos, são hoje muito mais raros; mas o estado moral é o mesmo, o que é tanto mais deplorável para os pais, que vivem do trabalho. Sabe-se da influência da prece em tais casos; mas como nada se pode esperar do rapaz em questão, seria necessário o concurso dos pais; estes estão convencidos de que o filho encontra-se sob má influência oculta, mas sua crença não vai além e sua fé religiosa é das mais fracas. Dissemos ao pai que era preciso orar, mas seriamente e com fervor. "É o que já me disseram", respondeu ele; "Orei algumas vezes, mas sem resultado; se soubesse que orando uma porção de vezes durante vinte e quatro horas isto acabasse, eu o faria agora." Por aí se vê de que maneira, nesta circunstância, podemos ser secundados por aqueles que são os maiores interessados.
Eis a contrapartida do caso e uma prova da eficácia da prece, quando feita com o coração e não com os lábios:
Contrariada em suas inclinações, uma mocinha se casara com um homem a quem não simpatizava. A mágoa que isso gerou levou-a a um distúrbio mental; dominada por uma idéia fixa, perdeu a razão e viram-se obrigados a interná-la. Ela jamais ouvira falar de Espiritismo; se dele se tivesse ocupado, não teria faltado quem dissesse que os Espíritos lhe haviam transtornado a cabeça. O mal provinha, assim, de uma causa moral, acidental e toda pessoal, compreendendo-se que, em tais casos, os remédios normais não poderiam ter nenhuma valia. Como não havia nenhuma obsessão aparente, podia-se duvidar igualmente da eficácia da prece.
Um membro da Sociedade Espírita de Paris, amigo da família, julgou dever interrogar um Espírito superior, que respondeu: "A idéia fixa dessa senhora, por sua própria causa, atrai à sua volta uma multidão de Espíritos maus, que a envolvem com seus fluidos e alimentam suas idéias, impedindo que cheguem até ela as boas influências. Os Espíritos dessa natureza abundam sempre em meios semelhantes ao em que ela se encontra e, muitas vezes, constituem obstáculo à cura dos doentes. Contudo podereis curá-la; mas, para tanto, é necessário uma força moral capaz de vencer a resistência. E tal força não é dada a um só. Que cinco ou seis espíritas sinceros se reúnam todos os dias, durante alguns instantes e peçam com fervor a Deus e aos bons Espíritos que a assistam; que a vossa prece fervorosa seja, ao mesmo tempo, uma magnetização mental; para tanto, não tendes necessidade de estar junto a ela; ao contrário: pelo pensamento podeis levar-lhe uma salutar corrente fluídica, cuja força estará na razão de vossa intenção, aumentada pelo número. Por tal meio podereis neutralizar o mau fluido que a envolve. Fazei isto; tende fé e confiança em Deus e esperai."
Seis pessoas se dedicaram a essa obra de caridade e, durante um mês, não faltaram sequer um dia à missão que haviam aceitado. Ao cabo de alguns dias a doente estava sensivelmente mais calma; quinze dias mais tarde a melhora era manifesta e hoje esta mulher voltou para sua casa em estado perfeitamente normal, ignorando ainda, como o seu marido, de onde lhe adveio a cura.
O modo de ação é aqui indicado claramente e nada teríamos a acrescentar de mais preciso à explicação dada pelo Espírito. Assim, a prece não tem apenas o efeito de levar ao paciente um socorro estranho, mas o de exercer uma ação magnética. O que não faria o magnetismo secundado pela prece! Infelizmente certos magnetizadores, a exemplo de muitos sábios, fazem abstração do elemento espiritual; vendo apenas a ação mecânica, privam-se, assim, de poderoso auxiliar. Esperamos que os verdadeiros espíritas vejam no fato uma prova a mais do bem que podem fazer em tal circunstância.
Naturalmente aqui se apresenta uma questão de grande importância: O exercício da mediunidade pode provocar transtornos da saúde e das faculdades mentais?
É de notar que, assim formulada, esta é a pergunta feita pela maioria dos antagonistas do Espíritismo ou, melhor dizendo, em vez de uma pergunta, eles reduzem o princípio a um axioma, afirmando que a mediunidade conduz à loucura. Falamos da loucura real e não desta, mais burlesca que séria, com que gratificam os adeptos. Conceber-se-ia a pergunta da parte de quem acreditasse na existência dos Espíritos e na ação que eles pudessem exercer, porque, para eles, existe algo de real. Mas para os que não acreditam a pergunta é um disparate, porquanto, se nada existe, esse nada não poderá produzir algo. Sendo a tese insustentável, eles se estribam nos perigos da superexcitação cerebral que, em sua opinião, é suficiente para produzir a crença nos Espíritos. Já tratamos deste ponto e a ele não mais voltaremos; apenas perguntamos se já foi feito o cadastro de todos os cérebros transtornados pelo medo do diabo e dos terríveis quadros das torturas do inferno e da danação eterna, e se é mais prejudicial acreditarmos que temos ao nosso lado Espíritos bons e benevolentes, os pais, os amigos e o anjo-da-guarda, do que o demônio.
Se for assim formulada, a pergunta se torna mais racional e mais séria, desde que se admita a existência e a ação dos Espíritos: O exercício da mediunidade pode provocar num indivíduo a invasão de maus Espíritos e suas consequências?
Jamais dissimulamos os escolhos encontrados na mediunidade, razão por que, em O Livro dos Médiuns, multiplicamos as instruções a tal respeito, não tendo cessado de recomendar o seu estudo prévio, antes de se entregarem à prática. Assim, desde a publicação daquele livro, o número de obsidiados diminuiu sensível e notoriamente, porque poupa uma experiência que os noviços muitas vezes só adquirem à própria custa. Dizemo-lo ainda: sim, sem experiência a mediunidade tem inconvenientes, dos quais o menor seria ser mistificado pelos Espíritos enganadores e levianos. Fazer Espiritismo experimental sem estudo é querer fazer manipulações químicas sem saber química.
Os numerosos exemplos de pessoas obsidiadas e subjugadas da mais desagradável maneira, sem jamais terem ouvido falar de Espiritismo, provam exuberantemente que o exercício da mediunidade não tem o privilégio de atrair os maus Espíritos. Mais ainda: prova a experiência que é um meio de os afastar, permitindo reconhecê-los. Todavia, como muitas vezes alguns vagueiam em redor de nós, pode acontecer que, encontrando oportunidade para se manifestarem, aproveitam-na, caso encontrem no médium uma predisposição física ou moral, que o torne acessível à sua influência. Ora, tal predisposição se prende ao indivíduo e a causas pessoais anteriores, e não à mediunidade. Pode-se dizer que o exercício da faculdade é uma ocasião e não uma causa. Mas se alguns indivíduos estiverem neste caso, outros há que oferecem uma resistência insuperável aos maus Espíritos, e a eles estes últimos não se dirigem. Falamos de Espíritos realmente maus e perniciosos, na verdade os únicos perigosos, e não de Espíritos levianos e zombeteiros, que se insinuam por toda parte.
A presunção de julgar-se invulnerável contra os maus Espíritos muitas vezes tem sido punida de maneira cruel, porque jamais são impunemente desafiados pelo orgulho. O orgulho é a porta que lhes dá mais fácil acesso, pois ninguém oferece menos resistência do que o orgulhoso, quando tomado pelo seu lado fraco. Antes de nos dirigirmos aos Espíritos, convém, pois, proteger-nos contra o ataque dos maus, como se marchássemos em terreno onde tememos picadas de serpentes. Isto se consegue, de início, pelo estudo prévio, que indica a rota e as precauções a tomar; depois, pela prece. Mas é necessário bem nos compenetrarmos da verdade de que o único preservativo está em nós, em nossa própria força, e nunca nas coisas exteriores, e que não há talismãs, nem amuletos, nem palavras sacramentais, nem fórmulas sagradas ou profanas que possam ter a menor eficácia se não tivermos em nós mesmos as qualidades necessárias. São essas qualidades, portanto, que nos devemos esforçar para adquirir.
Se estivéssemos bem persuadidos do objetivo essencial e sério do Espiritismo; se nos preparássemos sempre para o exercício da mediunidade por um fervoroso apelo ao nosso anjo-da-guarda e aos Espíritos protetores; se nos estudássemos, esforçando-nos por nos purificarmos de nossas imperfeições, os casos de obsessão mediúnica seriam ainda mais raros. Infelizmente, muitos vêem apenas o fato das manifestações. Não contentes com as provas morais que sobejam em seu redor, querem a todo custo permitir-se a satisfação de comunicar-se eles mesmos com os Espíritos, forçando o desenvolvimento de uma faculdade que muitas vezes não existe, guiados mais pela curiosidade do que pelo desejo sincero de melhorar-se. Disso resulta que, em vez de se envolverem numa atmosfera fluídica salutar; de se cobrirem com as asas protetoras de seus anjos-da-guarda; de buscarem o domínio de suas fraquezas morais, abrem a porta de par em par aos Espíritos obsessores, que provavelmente os teriam atormentado de outra maneira em outra ocasião, mas que aproveitam o ensejo que se lhes oferece. Que dizer, então, daqueles que fazem das manifestações um jogo, nelas não vendo senão um motivo para distração ou curiosidade, procurando meios de satisfazer a ambição, a cupidez ou os interesses materiais? É neste sentido que se pode dizer que o exercício da mediunidade pode provocar a invasão dos maus Espíritos; sim, é perigoso brincar com estas coisas. Quantas pessoas lêem O Livro dos Médiuns unicamente para saber como agir, uma vez que a receita ou a maneira de proceder é a coisa que mais lhes interessa? O lado moral da questão é acessório. Assim, não se deve imputar ao Espiritismo o que resulta da imprudência das criaturas.
Voltemos aos possessos de Morzine. Aquilo que um Espírito pode fazer a um indivíduo, vários Espíritos o podem sobre diversos, simultaneamente, e dar à obsessão um caráter epidêmico. Uma nuvem de maus Espíritos pode invadir uma localidade e aí se manifestar de várias maneiras. Foi uma epidemia de tal gênero que transtornou a Judéia, ao tempo do Cristo e, em nossa opinião, é de uma epidemia semelhante que padece Morzine.
É o que procuraremos estabelecer num próximo artigo, no qual destacaremos os caracteres essencialmente obsessivos dessa afecção. Analisaremos os relatórios dos médicos que a observaram, entre outros o do Dr. Constant, bem como os meios curativos empregados, quer pela medicina, quer através de exorcismos.
Estudos sobre os Possessos de Morzine
Causas da Obsessão e meios de combatê-la
(3o artigo - Revista Espírita fev/1863)
O estudo dos fenômenos de Morzine não oferecerá nenhuma dificuldade quando estivermos imbuídos dos fatos particulares que citamos e das considerações que um estudo atento delas permitiu deduzir. Bastará relatá-los para que cada um encontre em si mesmo aplicação por analogia. Os dois fatos seguintes nos ajudarão a orientar o leitor. O primeiro nos é transmitido pelo Dr. Chaigneau, membro honorário da Sociedade de Paris e presidente da Sociedade Espírita de Saint-Jean d'Angely.
"Uma família fazia evocações com um ardor desenfreado, induzida por um Espírito que nos foi indicado como muito perigoso. Era um de seus parentes, morto depois de uma vida pouco recomendável e terminada por vários anos de alienação mental. Sob nome falso, por surpreendentes provas mecânicas, belas promessas e conselhos de irreprochável moralidade, tinha conseguido fascinar de tal modo aquela gente muito crédula, a ponto de submetê-la às suas exigências e forçá-la a praticar os atos mais excêntricos. Não mais podendo satisfazer todos os seus desejos, pediram o nosso conselho e tivemos muito trabalho para dissuadi-los e provar-lhes que lidavam com um Espírito da pior espécie. Conseguimo-lo e pudemos obter que, ao menos por algum tempo, eles se abstivessem. A partir de então, a obsessão tomou outro caráter: o Espírito se apoderava completamente do filho mais jovem, de catorze anos, o reduzia ao estado de catalepsia e, por sua boca, solicitava entrevistas, dava ordens e fazia ameaças. Aconselhamos o mais absoluto mutismo, que foi observado rigorosamente. Os pais entregaram-se à prece e vinham procurar um de nós para os assistir. O recolhimento e a força de vontade sempre nos fizeram mestre em poucos minutos.
"Hoje, praticamente, tudo cessou. Esperamos que, na casa, a ordem sucederá à desordem. Longe de se revoltarem contra o Espiritismo, crêem mais que nunca e com mais seriedade. Agora compreendem seu fim e as consequências morais. Todos entendem que receberam uma lição; alguns uma punição, talvez merecida."
Mais uma vez este exemplo prova o inconveniente de nos entregarmos às evocações sem conhecimento de causa e sem objetivo sério. Graças aos conselhos da experiência que aquelas pessoas ouviram, puderam desembaraçar-se de um inimigo, talvez perigoso.
Um outro ensinamento, não menos importante, ressalta do fato em questão. Aos olhos das pessoas estranhas à ciência espírita, o rapaz teria passado por louco; não teriam deixado de lhe aplicar o tratamento correspondente, que, talvez, desenvolvesse uma loucura real. Com a assistência de um médico espírita, o mal, atacado em sua verdadeira causa, não teve nenhuma consequência.
Já o mesmo não se deu no fato seguinte. Um senhor de nosso conhecimento, que mora numa cidade do interior bastante refratária às idéias espíritas, foi tomado subitamente por uma espécie de delírio, no qual dizia coisas absurdas. Como se ocupasse de Espiritismo, naturalmente falava de Espíritos. Aqueles que o cercavam, assustados e sem penetrar a coisa, cuidaram de chamar os médicos que, para grande satisfação dos inimigos do Espiritismo, o declararam atacado de loucura; já se falava até mesmo em interná-lo numa casa de saúde. Tudo quanto soubemos das circunstâncias daquele acontecimento prova que aquele senhor se achou, de repente, sob o império de uma subjugação momentânea, talvez favorecida por certas predisposições físicas. Foi a idéia que ele teve. Escreveu-nos e nós lhe respondemos nesse sentido. Infelizmente nossa carta não lhe chegou a tempo e dela só teve conhecimento muito mais tarde. "É lastimável", disse-nos ele depois, "que não tenha recebido vossa carta consoladora; naquele momento ela me teria feito um imenso bem, confirmando o pensamento de que eu era um joguete de uma obsessão, o que me teria tranquilizado, pois, de tanto ouvir repetir que eu estava louco, acabei por acreditar. A idéia me torturava de tal modo que, se tivesse continuado, não sei o que teria acontecido." Consultado a respeito, um Espírito respondeu: "Esse senhor não é louco; mas a maneira por que o tratam poderá torná-lo louco; mais ainda: poderiam matá-lo. O remédio para o seu mal está no próprio Espiritismo e o tomam em sentido contrário." - Pergunta: Daqui poderíamos agir sobre ele? - Resposta: Sim, sem dúvida. Podeis fazer-lhe o bem, mas a vossa ação é paralisada pela má vontade dos que o cercam.
Casos análogos têm ocorrido em todas as épocas; e muitos foram encarcerados como loucos, sem o serem absolutamente.
Só um observador experimentado nestes assuntos pode apreciá-los; e como se encontram hoje muitos médicos espíritas, em casos semelhantes convém recorrer a eles. Um dia a obsessão será colocada entre as causas patológicas, como o é hoje a ação de seres microscópicos, de cuja existência não se suspeitava antes da invenção do microscópio; mas, então, reconhecerão que nem as duchas nem as sangrias poderão curá-la. O médico que não admite e não busca senão as causas puramente materiais é tão inapto a compreender e tratar tais afecções, quanto um cego o é para discernir as cores.
O segundo caso nos é relatado por um de nossos correspondentes de Boulogne-sur-Mer:
"A mulher de um marinheiro desta cidade, de quarenta e cinco anos, está há quinze anos sob o império de uma triste subjugação. Quase todas as noites, sem mesmo excetuar as do período de gravidez, é despertada por volta de meia-noite e logo tomada de tremores nos membros, como se fossem agitados por uma pilha galvânica; o estômago fica comprimido como que por um círculo de ferro e queimado por um ferro em brasa; o cérebro num estado de exaltação furiosa; sente-se atirada fora do leito e, por vezes, sai de casa seminua a correr pelo campo; marcha sem saber por onde durante duas ou três horas e somente ao parar é que sabe onde se encontra. Não pode orar a Deus e, ao ajoelhar-se para o fazer, suas idéias sofrem a intromissão de coisas bizarras e até sujas. Não pode entrar em nenhuma igreja, embora muito deseje fazê-lo; mas ao chegar à porta, sente como uma barreira que a detém. Quatro homens tentaram fazê-la entrar na igreja dos redentoristas e não o conseguiram: ela gritava que a estavam matando, que lhe esmagavam o peito.
"Para se livrar dessa terrível situação, a pobre mulher tentou dar cabo à vida, por várias vezes, sem o conseguir. Ingeriu café no qual havia dissolvido fósforo; tomou lixívia sem nada sofrer; jogou-se duas vezes na água, mas flutuava até que alguém a socorresse. Fora dos momentos de crise de que falei, essa mulher é completamente normal e, mesmo durante os acessos, tem plena consciência do que faz e da força exterior que sobre ela atua. Toda a vizinhança diz que ela foi alvo de um malefício ou de um sortilégio."
A subjugação não poderia ser mais bem caracterizada a não ser pelos fenômenos que, sem sombra de dúvida, só podem ser obra de um Espírito da pior espécie. Dirão que foi o Espiritismo que o atraiu para ela ou lhe transtornou o cérebro. Mas há quinze anos não se cogitava disto. Aliás, essa mulher não é louca e o que experimenta não é uma ilusão.
A medicina ordinária não verá nesses sintomas senão uma dessas afecções a que dá o nome de nevrose e cuja causa, para ela, ainda é um mistério. A afecção é real, mas a todo efeito corresponde uma causa. Ora, qual a causa primeira? Eis o problema, cuja solução pode dar o Espiritismo ao demonstrar um novo agente no perispírito e a ação do mundo invisível sobre o mundo visível. Não generalizamos absolutamente, e reconhecemos que, em certos casos, a causa pode ser puramente material; mas há outros em que a intervenção de uma inteligência oculta é evidente, porquanto, combatendo essa inteligência, detém-se o mal, ao passo que, atacando a suposta causa material, nada se produz.
Há um traço característico nos Espíritos perversos: é a sua aversão a tudo quanto se prende à religião. A maioria dos médiuns não obsedados que receberam comunicações de Espíritos maus, muitas vezes os viram blasfemar contra as coisas mais sagradas, rir-se da prece e repeli-la, chegando mesmo a irritar-se quando se lhes fala em Deus. No médium subjugado, o Espírito, dispondo de cerca de um terço do corpo para agir, exprime seus pensamentos não mais pela escrita, mas por gestos e palavras que provoca no médium. Ora, como todo fenômeno espírita não pode produzir-se sem uma aptidão mediúnica, pode dizer-se que a mulher de quem falamos é um médium espontâneo, inconsciente e involuntário. A impossibilidade em que se encontra de orar e entrar na igreja vem da repulsão do Espírito que dela se apoderou, pois sabe que a prece é um meio de fazê-lo largar a presa. Em vez de uma pessoa, suponde, na mesma localidade, dez, vinte, trinta ou mais no mesmo estado e tereis a reprodução do que se passou em Morzine.
Dirão certas pessoas: "Não é uma prova evidente de que são demônios?" Chamemo-los demônios, se isto vos agrada: o nome não os caluniaria. Mas não vedes diariamente homens que não valem coisa melhor e que, de pleno direito, poderiam ser chamados demônios encarnados? Não há os que blasfemam e renegam a Deus? que parecem fazer o mal com prazer? que se regozijam à vista do sofrimento de seus semelhantes? Por que quereis que, uma vez no mundo dos Espíritos, eles se transformassem subitamente? Aqueles a quem chamais demônios nós chamamos maus Espíritos, e nós vos concedemos toda a perversidade que lhes queirais atribuir. Contudo, a diferença é que, em vossa opinião, os demônios são anjos decaídos, isto é, seres perfeitos que se tornaram maus e para sempre votados ao mal e ao sofrimento; em nossa opinião, são seres pertencentes à Humanidade primitiva, espécie de selvagens ainda atrasados, mas a quem o futuro não está fechado e que se melhorarão à medida que neles se desenvolver o senso moral, na série de suas existências sucessivas, o que nos parece mais conforme à lei do progresso e da justiça de Deus. Temos mais a nosso favor a experiência, que prova a possibilidade de melhorar e de levar ao arrependimento Espíritos da mais baixa categoria e aqueles que são colocados na categoria de demônios.
Vejamos uma fase especial desses Espíritos, cujo estudo é de alta importância para o assunto que nos ocupa.
Sabe-se que os Espíritos inferiores ainda se acham sob a influência da matéria e que entre eles se encontram todos os vícios e todas as paixões da Humanidade, paixões que eles carregam ao deixar a Terra e trazem de volta quando reencarnam, caso não se tenham emendado, o que produz homens perversos. Prova a experiência que alguns são sensuais em diversos graus, obscenos, lascivos, sentem prazer nos lugares desprezíveis, impelem e excitam à orgia e ao deboche, a cuja vista se deleitam. Perguntaremos a que categoria de Espíritos poderiam pertencer, depois da morte, seres como Tibério, Nero, Cláudio, Messalina, Calígula, Heliogábulo, etc? Que gênero de obsessão poderiam ter provocado e se é necessário, para explicar essas obsessões, recorrer a seres especiais, que Deus teria criado expressamente para impelir o homem ao mal? Há certos gêneros de obsessão que não podem deixar dúvidas quanto à qualidade dos Espíritos que os produzem. São obsessões desse gênero que deram azo à fábula dos íncubos e súcubos, em que acreditava firmemente Santo Agostinho. Poderíamos citar mais de um exemplo recente em apoio dessa asserção. Quando se estudam as várias impressões corporais e os toques sensíveis por vezes produzidos por certos Espíritos; quando se conhecem os gostos e as tendências de alguns deles; e se, por outro lado, se examina o caráter de certos fenômenos histéricos, a gente se pergunta se não representariam um papel nessa afecção, como representam na loucura obsessiva? Nós a vimos várias vezes, acompanhada de sintomas menos evidentes da subjugação.
Vejamos agora o que se passou em Morzine. Antes, porém, digamos algumas palavras sobre o lugar, o que não é sem importância. Morzine é uma comuna do Chablais, na Alta Sabóia, situada a oito léguas de Thonon, na extremidade do vale do Drance, nos confins do Valais, na Suíça, da qual é separada apenas por uma montanha. Sua população, de cerca de 2.500 almas, compreende, além do vilarejo principal, vários povoados espalhados nas alturas circunvizinhas. É cercada e dominada de todos os lados por altas montanhas dependentes da cadeia dos Alpes, mas na maior parte cobertas de bosques e cultivadas até alturas consideráveis. Aliás, em parte alguma se vêem neves ou gelos perpétuos e, conforme nos disseram, ali a neve é menos persistente do que no Jura.
O Dr. Constant, enviado em 1861 pelo governo francês para estudar a doença, lá ficou três meses. Ele faz da região e de seus habitantes um quadro pouco lisonjeiro. Vindo com a idéia de que o mal era puramente físico, não procurou senão causas físicas; sua preocupação o levava a demorar-se sobre aquilo que poderia corroborar sua opinião e, provavelmente, essa idéia fez com que visse os homens e as coisas sob uma luz desfavorável. Em sua opinião, a doença é uma afecção nervosa, cuja fonte primeira é a constituição dos habitantes, debilitados pela insalubridade das habitações, a insuficiência e a má qualidade dos alimentos e cuja causa imediata está no estado histérico da maioria dos doentes do sexo feminino. Sem contestar a existência dessa afecção, é bom notar que se o mal atacou em grande parte as mulheres, os homens também foram atingidos, assim como mulheres em idade avançada. Não se poderia ver na histeria uma causa exclusiva; e, aliás, qual a causa da histeria?
Fizemos apenas uma breve visita a Morzine, mas devemos dizer que nossas observações e os informes que recolhemos junto de pessoas notáveis, de um médico da região e das autoridades locais diferem um tanto das do Dr. Constant. O vilarejo principal é geralmente bem construído; as casas dos povoados circunvizinhos certamente não são palacetes, mas não têm o aspecto miserável que se vêem em muitas regiões rurais da França, na Bretanha, por exemplo, onde o camponês mora em verdadeiras choupanas. A população não nos pareceu estiolada, nem raquítica, nem, sobretudo, atacada de papeira, como diz o Dr. Constant. Vimos alguns bócios rudimentares, mas nenhum pronunciado, como se vêem em todas as mulheres da Mauriana. Os idiotas e os cretinos ali são raros, embora o diga o Dr. Constant, ao passo que na outra vertente da montanha, no Valais, eles são muito numerosos. Quanto à alimentação, a região produz além do consumo dos habitantes; se em toda parte não há fartura, também não há miséria propriamente dita, sobretudo essa horrível miséria que encontramos em outras regiões; existem algumas em que a população do campo é infinitamente mais mal alimentada. Um fato característico é que não vimos um único mendigo a nos estender a mão para pedir esmola. A própria região oferece importantes recursos em madeiras e pedreiras, mas que ficam improdutivas pela impossibilidade de transporte. A dificuldade de comunicações é o flagelo da região, sem o que seria uma das mais ricas da nação. Pode julgar-se de tal dificuldade pelo fato de o correio de Thonon só poder ir até duas léguas de distância dessa cidade. Adiante não há mais estrada, mas um caminho que, alternadamente, sobe a pique na floresta e desce à margem do Drance, torrente furiosa, verdadeira cascata que rola através de enormes massas de rochedos de granito, precipitados em seu leito do alto das montanhas em direção ao fundo de uma estreita garganta. Durante várias léguas é a imagem do caos. Transporta a passagem, o vale toma um aspecto risonho até Morzine, onde acaba. Mas a impossibilidade para lá chegar facilmente afasta os viajantes, de sorte que a região só é visitada por caçadores bastante fortes para escalar os rochedos. Depois da anexação os caminhos foram melhorados; antes, só eram transitados por cavalos. Dizem que o governo estuda o prolongamento da estrada de Thonon até Morzine, margeando o rio; é um trabalho difícil, mas que transformará a região, permitindo a exportação de seus produtos.
Tal é o aspecto geral da região que, aliás, não oferece nenhuma causa de insalubridade. Admitindo que o principal vilarejo de Morzine, situado no fundo do vale e à margem do rio, seja úmido - o que não observamos - devemos considerar que a maioria dos doentes pertence aos povoados circunvizinhos e, por conseguinte, em condições arejadas e muito salubres.
Se a doença se devesse a causas locais, à constituição dos habitantes, aos hábitos e gênero de vida, como pretende o Dr. Constant, essas causas permanentes deveriam produzir efeitos permanentes e o mal seria epidêmico, como as febres intermitentes de Camargue e dos pântanos Pontinos. Se o cretinismo e o bócio são endêmicos no vale do Ródano e não no vale do Drance, que lhe é limítrofe, é que num há uma causa local permanente que não existe no outro.
Se o que se chama a possessão de Morzine é apenas temporária, é que se liga a uma causa acidental. Diz o Dr. Constant que suas observações não lhe revelaram nenhuma causa sobrenatural. Mas ele, que só acredita em causa materiais, estará apto a julgar efeitos que resultariam da ação de uma força extramaterial? estudou os efeitos dessa força? sabe em que consistem? por que sintomas podem ser reconhecidos? Não; e desde então se lhes afiguram diferentes do que são, crendo talvez que consistam em milagres e em aparições fantásticas. Ele viu esses sintomas e os descreveu em seu relatório, mas, não admitindo uma causa oculta, buscou alhures, no mundo material, onde não a encontrou. Os doentes se diziam atormentados por seres invisíveis; como, porém, ele não viu duendes nem diabretes, concluiu que os doentes eram loucos; e o que o confirmava nesta idéia é que aqueles por vezes diziam coisas notoriamente absurdas, mesmo aos olhos do mais firme crente nos Espíritos. Mas para ele tudo devia ser absurdo. Devia saber, como médico, que até em meio às divagações da loucura há, por vezes, revelações da verdade. Esses infelizes, diz ele, e os habitantes em geral, estão imbuídos de idéias supersticiosas. Mas que há de surpreendente numa população rural, ignorante e isolada em meio das montanhas? Que de mais natural que essa gente, terrificada pelos fenômenos, os tenha amplificado? E porque em seus relatos se misturassem fatos e apreciações ridículas, concluiu o Dr. Constant que tudo deveria ser ridículo, sem contar que aos olhos de quem quer que não admita a ação do mundo invisível, todos os efeitos resultantes dessa ação são relegados entre as crenças supersticiosas. Em favor desta última tese ele insiste muito sobre um fato, narrado pelos jornais da época, e que, talvez, se tenha inspirado nalguma imaginação assustadiça, exaltada ou doentia, segundo o qual certos enfermos subiam com a agilidade de gatos em árvores de quarenta metros de altura, caminhavam sobre os galhos sem os vergar, plantavam bananeira e desciam de cabeça para baixo sem nada sofrerem. Discute longamente para provar a impossibilidade da coisa e demonstrar que, segundo a direção do raio visual, a árvore assinalada não podia ser vista das casas de onde diziam ter visto o fato. Tanto esforço era inútil, pois lá nos disseram que o fato não era verdadeiro; reduzia-se a um rapazinho que, efetivamente, subira numa árvore de porte comum, mas sem fazer nenhuma demonstração de equilibrismo.
Assim descreve o Dr. Constant o histórico e os efeitos da doença.
(continua no próximo número)
Estudos sobre os Possessos de Morzine
Causas da Obsessão e meios de combatê-la
(4o artigo - Revista Espírita abr/1863)
Numa segunda edição de sua brochura sobre a epidemia de Morzine [2], o Dr. Constant responde ao Sr. de Mirville, que criticou o seu cepticismo relativo aos demônios e o censurou por não ter estado nos lugares. "É certo que ele se deteve em Thonon; não, porém, por temer os diabos, mas o caminho; mas nem por isso se julga o homem menos informado. Censura-me ainda, como a outro médico, por ter partido de Paris com juízo já formado. Com todo o direito, se me permite, posso devolver-lhe a censura: neste ponto estaremos, então, ex oequo [3]".
Não sabemos se o Sr. de Mirville teria ido lá com a firme predisposição de não ver absolutamente nenhuma afecção física nos doentes de Morzine, mas é bem evidente que o Dr. Constant lá foi com a de não ver nenhuma causa oculta. O preconceito, num sentido qualquer, é a pior condição para um observador, porque, então, tudo vê e tudo refere do seu ponto de vista, negligenciando o que pode haver de contrário. Certamente não é o meio de chegar à verdade. A opinião inflexível do Dr. Constant, no que respeita à negação das causas ocultas, ressalta que ele, a priori, repele como errônea toda observação e toda conclusão que se afastem de sua maneira de ver, nos relatórios feitos antes do seu. Assim, enquanto o Dr. Constant insiste sobre a constituição débil, linfática e raquítica dos habitantes, a insalubridade da região, a má qualidade e a insuficiência da alimentação, o Dr. Arthaud, médico-chefe dos alienados de Lyon, que foi enviado a Morzine, diz em seu relatório "que a constituição dos habitantes é boa e os escrofulosos são raros; não obstante todas as suas pesquisas, apenas descobriu um caso de epilepsia e um de imbecilidade." Mas, replica o Dr. Constant, "o Dr. Arthaud só passou alguns dias na região; assim, não pôde ver senão pequena parte da população; além disso, é muito difícil obter informações sobre as famílias."
Um outro relatório assim se exprime sobre o mesmo assunto:
Nós, abaixo assinados, declaramos que tendo ouvido falar dos casos extraordinários, levados à conta de possessão de demônios, e ocorridos em Morzine, transportamo-nos para aquela paróquia [4], onde chegamos em 30 de setembro último (1857), para testemunhar o que se passava e examinar tudo com maturidade e prudência, esclarecendo-nos por todos os meios fornecidos pela presença no lugar, a fim de poder formar um juízo razoável em semelhante matéria.
"1o - Vimos oito jovens que estão libertas e cinco em estado de crise; a mais moça tem dez anos e a mais velha, vinte e dois.
"2o - Conforme tudo quanto nos dizem e que pudemos observar, essas jovens estão em perfeito estado de saúde; fazem todas as obras e trabalhos que reclamam sua posição, de sorte que não se vê, quanto aos outros hábitos e ocupações, nenhuma diferença entre elas e as demais moçoilas da montanha.
"3o - Vimos estas moças, as não curadas, nos momentos de lucidez. Ora, podemos assegurar que nada foi observado nelas, seja idiotia, seja predisposição para as crises atuais, por falhas de caráter ou por exaltação de espírito. Aplicamos a mesma observação às que são curadas. Todas as pessoas que consultamos sobre os antecedentes e os primeiros anos dessas moças nos garantiram que elas estavam, no que respeita à inteligência, no mais perfeito estado.
"4o - O maior número destas moças pertence a famílias honestas e abastadas.
"5o - Asseguramos que pertencem a famílias que gozam de boa reputação, entre as quais existem algumas cuja virtude e piedade são exemplares."
Daqui a pouco daremos a continuação deste relatório, relativamente a certos fatos. Queríamos apenas constatar que nem todos viram as coisas sob cores tão negras quanto o Dr. Constant, que representa os habitantes como vivendo na extrema miséria, e dos mais cabeçudos, obstinados e mentirosos, embora no fundo fossem bons e, sobretudo, piedosos, ou, antes, devotos. Ora, quem tem razão? Somente o Dr. Constant, ou vários outros, não menos honrados, que certificam ter bem observado? De nossa parte não vacilamos em nos colocar ao lado dos últimos, em razão daquilo que vimos e do que nos disseram várias autoridades médicas e administrativas da região, e a manter a opinião emitida em nossos artigos precedentes.
Para nós a causa primeira não está na constituição, nem no regime higiênico dos habitantes, porquanto, como fizemos notar, há muitas regiões, a começar pelo Valais limítrofe, em que as condições de toda natureza, morais e outras, são infinitamente mais desfavoráveis e onde, entretanto, não se alastra essa doença. Daqui a pouco nós a veremos circunscrita, não ao vale, mas apenas aos limites da comuna de Morzine. Se, como afirma o Dr. Constant, a causa fosse inerente à localidade, ao gênero de vida e à inferioridade moral dos habitantes, perguntamos, ainda, por que o efeito é epidêmico e não endêmico, como o bócio e o cretinismo no Valais? Por que as epidemias do mesmo gênero, de que fala a história, se produzem nas casas religiosas onde nada falta e que se encontram nas melhores condições de salubridade?
Não obstante, eis o quadro que o Dr. Constant faz do caráter dos habitantes de Morzine:
"Uma estada prolongada, visitas sucessivas e diárias mais ou menos em cada casa, permitiram-me chegar a outras constatações.
"Os habitantes de Morzine são afáveis, honestos, de grande piedade; talvez fosse mais acertado dizer de grande devoção.
"São obstinados e dificilmente renunciam a uma idéia que adotaram, o que, além de outros inconvenientes, acrescenta o de os tornarem litigantes, outra fonte de mal-estar e de miséria, porque as condições não são fáceis. Mas só muito raramente a justiça criminal encontra culpados entre eles.
"Têm um semblante grave e sério, que parece um reflexo da natureza áspera que os rodeia e que lhes imprime uma espécie de marca particular, que os faria ser tomados por membros de uma vasta comunidade religiosa. Com efeito, sua existência pouco difere da de um convento.
"Seriam inteligentes, se seu raciocínio não fosse obscurecido por uma profusão de crenças absurdas ou exageradas, por um invencível arrastamento para o maravilhoso, legado pelos séculos passados e ainda não curado no século atual.
"Todos gostam de contos e histórias impossíveis. Conquanto honestos por natureza, alguns mentem com imperturbável altivez, para sustentar o que disseram no gênero. Estou convencido de que eles acabam mentindo de boa-fé, por crerem nas próprias mentiras e nas dos outros. Para ser justo, é preciso dizer que a maioria não mente, limitando-se a contar vagamente o que viu."
Aos nossos olhos, a causa é independente das condições físicas dos homens e das coisas. Se manifestamos tal opinião, não é com a idéia preconcebida de ver por toda parte a ação dos Espíritos, já que ninguém admite sua intervenção com mais reserva que nós, mas por uma analogia que notamos entre certos efeitos e os que nos são demonstrados como resultado evidente de uma causa oculta. Mas, ainda uma vez, como admitir essa causa quando não se crê na existência dos Espíritos? Como admitir, com Raspail, as afecções produzidas por seres microscópicos, se se nega a existência de tais animáculos, porque não foram vistos? Antes da invenção do microscópio, Raspail teria passado por louco, por ver animais em toda parte; hoje, que se está muito mais esclarecido, não se vêem os Espíritos. Para isso, no entanto, só falta pôr óculos.
Não negamos que haja efeitos patológicos na afecção de que se cuida, porque a experiência no-los mostra muitas vezes em casos semelhantes; mas dizemos que são consecutivos e não causais. Se um médico espírita tivesse sido enviado a Morzine, teria visto o que outros não viram, sem, por isso, negligenciar os fatos fisiológicos.
Depois de haver falado do Sr. de Mirville que, diz ele, se deteve no caminho, acrescenta o Dr. Constant:
"O Sr. Allan Kardec fez a viagem completa. Nos números de dezembro de 1862 e janeiro de 1863 da sua Revista Espírita, já publicou dois artigos, que não passam de preliminares; o exame dos fatos virá no número de fevereiro. Entretanto, já nos adverte que a epidemia de Morzine é semelhante à que assolou a Judéia, ao tempo do Cristo. É bem possível.
"Com o risco de ser censurado por alguns leitores, que talvez achassem que eu faria melhor se não falasse dos Espíritos, conclamo vivamente aos que lerem esta brochura a ler o mesmo assunto nos autores que acabo de citar.
"Todavia, não deveriam equivocar-se quanto ao objetivo de meu convite; quanto mais leitores sérios houver para as obras do Espiritismo, mais cedo será feita completa justiça a uma crença, a uma ciência, como dizem, sobre a qual talvez eu pudesse arriscar uma opinião, depois de haver constatado tantas vezes o seu resultado: o contingente bastante notável que ele fornece anualmente à população de nossos asilos de alienados."
Por aí se pode ver com que idéias o Dr. Constant foi a Morzine. Certamente não o levaremos a pensar como nós; apenas lhe diremos que está demonstrado pela experiência que o resultado da leitura das obras espíritas é completamente diferente do que ele espera, pois tal leitura, em vez de fazer pronta justiça a essa pretensa ciência, anualmente multiplica os adeptos aos milhares; que hoje são contados no mundo inteiro por cinco ou seis milhões, dos quais a décima parte só na França. Se ele objetasse que todos são tolos e ignorantes, nós lhe perguntaríamos por que essa doutrina conta no número de seus mais firmes partidários tão grande número de médicos em todos os países, tanto dos que assinam a Revista, como o atesta a nossa correspondência, quanto dos que presidem ou fazem parte de grupos e sociedades espíritas, sem falar do número não menos expressivo de adeptos pertencentes a posições sociais, aonde só se chega pela inteligência e pela instrução. Isto é um fato material que ninguém pode negar. Ora, como todo efeito tem uma causa, a causa desse efeito está no fato de o Espiritismo não parecer a toda a gente assim tão absurdo, levando alguns a dizerem: - Infelizmente é verdade, exclamam os adversários da doutrina; assim, não temos mais de cobrir o rosto pela sorte da Humanidade em sua marcha para a decadência.
Resta a questão da loucura, o lobisomem de hoje, com o auxílio do qual se procura amedrontar as populações, que quase já não se alvoroçam, como bem se vê. Quando esse meio estiver esgotado, certamente conceberão outro; enquanto se espera, chamamos a atenção dos leitores para o artigo publicado no número de fevereiro de 1863, intitulado A Loucura Espírita.
Os primeiros sintomas da epidemia de Morzine se manifestaram em março de 1857, em duas meninas de cerca de dez anos. No mês de novembro seguinte o número de doentes era de vinte e sete e em 1861 atingiu a cifra máxima de cento e vinte.
Se déssemos conta dos fatos segundo o que vimos, poderiam dizer que vimos o que quisemos ver. Aliás, chegamos no declínio da doença e ali não ficamos o bastante para tudo observar. Citando as observações alheias, não nos acusarão de somente ver pelos próprios olhos.
Tomamos as observações que se seguem do relatório cujo extrato fizemos acima:
"Essas moçoilas falam francês durante a crise com admirável facilidade, mesmo as que, fora daí, só conhecem algumas palavras.
"Uma vez em crise, as jovens perdem completamente a reserva, seja para o que for; também perdem inteiramente toda afeição de família.
"De ordinário a resposta é pronta e fácil; dir-se-ia que vem antes da interrogação. Esta resposta é sempre ad rem [5], exceto quando quem fala responde por tolices, insultos ou uma recusa afetada.
"Durante a crise o pulso fica calmo e, no maior furor, a personagem tem um ar de domínio, como alguém que tivesse a cólera sob o seu comando, sem parecer exaltada nem tomada por um acesso de febre.
"Notamos durante as crises uma insolência extraordinária, que ultrapassa qualquer limite, em mocinhas que, fora desse estado, são doces e tímidas.
"Durante a crise há em todas as meninas um caráter de impiedade permanente, levado além de todo o limite, dirigido contra tudo o que lembra Deus, os mistérios da religião, Maria, os santos, os sacramentos, a prece, etc.; o caráter dominante desses momentos terríveis é o ódio a Deus e a tudo quanto a ele se refere.
"Constatamos muito bem que essas jovens revelam coisas que chegam de longe, bem como fatos passados de que não tinham conhecimento; também revelaram pensamentos de várias pessoas.
"Algumas vezes anunciaram o começo, a duração e o fim das crises, o que farão mais tarde e o que não farão.
"Sabemos que deram respostas exatas a perguntas feitas em línguas que elas desconheciam, como alemão, latim, etc.
"No estado de crise essas jovens são dotadas de uma força desproporcional à sua idade, pois são precisos três ou quatro homens para conter, durante o exorcismo, meninas de dez anos.
"É de notar-se que, durante a crise, as meninas não sofrem danos materiais, nem pelas contorções, que parecem capazes de deslocar os membros, nem pelas quedas, nem pelas pancadas que se dão com violência.
"Em suas respostas há sempre a distinção de várias personagens: a filha e ele, o demônio e o danado.
"Fora da crise essas meninas não guardam nenhuma lembrança do que disseram ou fizeram, quer a crise tenha durado todo o dia, quer tenham feito trabalhos prolongados ou incumbências dadas no estado de crise.
............................
"Para concluir, diremos:
"Que a nossa impressão é de que tudo isto é sobrenatural, na causa e nos efeitos; e, conforme as regras da lógica e de tudo quanto nos ensinam a teologia, a história eclesiástica e o Evangelho,
"Declaramos que, em nossa opinião, há uma verdadeira possessão do demônio.
"Em testemunho do que,
Assinado:***
Morzine, 5 de outubro de 1857.
Eis como o Dr. Constant descreve as crises dos doentes, de acordo com suas próprias observações:
"Em meio à mais completa calma, raramente à noite, de repente sobrevêm bocejos, espreguiçamentos, alguns tremores, pequenos solavancos de aspecto coréico nos braços; pouco a pouco, e em curto espaço de tempo, como por efeito de descargas sucessivas, esses movimentos se tornam mais rápidos, depois mais amplos e logo não parecem mais que um exagero dos movimentos fisiológicos; a pupila se dilata e se contrai alternadamente e os olhos participam dos movimentos gerais.
"Nesses momentos as doentes, cujo aspecto a princípio parecia exprimir terror, entram num estado de furor, que vai sempre crescendo, como se a idéia que as domina produzisse dois efeitos quase simultâneos: depressão e excitação logo depois.
"Elas batem nos móveis com força e vivacidade, começam a falar, ou, melhor, a vociferar; o que dizem, mais ou menos todas, quando não superexcitadas por perguntas, reduz-se a palavras indefinidamente repetidas: 'S... não! S... ch... gne! S... vermelho!' (Elas chamam vermelhos aqueles em cuja piedade não acreditam). Algumas acrescentam juramentos.
"Se junto delas não se acha nenhum espectador estranho; se não lhe fizerem perguntas, repetem incessantemente a mesma coisa, sem nada acrescentar; caso contrário, respondem ao que pergunta o espectador e mesmo aos pensamentos que lhes atribuem, às objeções que prevêem, mas sem se afastarem da idéia dominante, a esta referindo tudo o que elas dizem. Assim, muitas vezes: 'Ah! tu crês, b... descrente, que somos loucas, que apenas sofremos da imaginação! Somos danadas, s... n... de D...! Somos os diabos do inferno!'
"E como é sempre um diabo que fala pela sua boca, o suposto diabo algumas vezes conta o que fazia na Terra, o que fez depois no inferno, etc.
"Em minha presença acrescentavam invariavelmente:
"Não são os teus s... médicos que nos curarão! Nós nos f... muito bem de teus remédios! Podes perfeitamente fazer a menina tomar; elas os atormentarão e farão que sofram. Mas a nós eles nada farão, porque somos diabos! É de santos padres e de bispos que precisamos, etc.
"O que não os impede de insultar os sacerdotes, quando estes estão presentes, sob o pretexto de que não são bastante santos para ter ação sobre os demônios. Perante o prefeito e os magistrados, era sempre a mesma idéia, mas com outras palavras.
"À medida que elas falam, sempre com a mesma veemência, suas fisionomias não têm outro aspecto senão o do furor. Por vezes o pescoço incha e a face se injeta; noutras, empalidece, como sói acontecer às pessoas normais que, conforme a constituição, coram ou empalidecem durante um violento acesso de cólera; frequentemente os lábios estão úmidos de saliva, o que leva a dizer que as doentes espumavam.
"Limitados inicialmente às partes superiores, os movimentos ganham sucessivamente o tronco e os membros inferiores, a respiração torna-se ofegante; as doentes redobram o furor, tornam-se agressivas, deslocam móveis e atiram cadeiras, tamboretes, isto é, tudo que lhes cai às mãos, sobre os assistentes; precipitam-se sobre estes para lhes bater, tanto nos parentes quanto nos estranhos; jogam-se ao chão, sempre continuando com os mesmos gritos; rolam-se, batem as mãos no solo e mesmo no próprio peito, no ventre, na região anterior do pescoço e procuram arrancar algo que parece incomodá-las nesses pontos. Viram-se e reviram-se de um salto só; vi duas que, levantando-se como que impulsionadas por uma mola, inclinavam-se para trás de tal modo que a cabeça tocava o solo ao mesmo tempo que os pés.
"Esta crise dura mais ou menos dez, vinte minutos, meia-hora, conforme a causa que a provocou. Se é a presença de um estranho, sobretudo um padre, é muito raro que termine antes que a pessoa se tenha afastado; neste caso os movimentos convulsivos não são contínuos: depois de terem sido violentos, enfraquecem e param para recomeçar imediatamente, como se, esgotada, a força nervosa repousasse um momento para se refazer.
"Durante a crise, o pulso e os batimentos cardíacos não estão acelerados; dá-se comumente o contrário: o pulso se concentra, torna-se fraco, lento e as extremidades se esfriam; apesar da violência da agitação e dos golpes furiosos desferidos de todos os lados, as mãos ficam geladas.
"Contrariamente ao que se vê muitas vezes em casos análogos, nenhuma idéia erótica se mistura ou parece juntar-se à idéia demoníaca. Eu mesmo me surpreendi com essa particularidade, por ser comum a todas as doentes: nenhuma diz a mais leve palavra ou faz o menor gesto obsceno. Em seus mais desordenados movimentos, jamais se descobrem e se seus vestidos se levantam um pouco quando rolam por terra, é muito raro que não os recomponham imediatamente.
"Não parece que haja aqui lesão da sensibilidade genital; assim, jamais se tratou de íncubos e súcubos, ou de cenas de feitiçaria. Todas as doentes pertencem, como demonomaníacas, ao segundo dos quatro grupos indicados pelo Sr. Macário; algumas escutam a voz dos diabos; muito mais geralmente falam por sua boca.
"Depois da grande desordem, pouco a pouco os movimentos se tornam menos rápidos; alguns gases se escapam pela boca e a crise termina. A doente olha em redor com um ar pouco espantado, arruma os cabelos, apanha e coloca o seu gorro, bebe alguns goles de água e retoma o seu trabalho, caso fizesse algum quando a crise começara. Quase todas dizem não sentir cansaço, nem se lembram do que disseram ou fizeram.
"Nem sempre esta última afirmação é sincera; surpreendi algumas que se lembravam muito bem; apenas acrescentavam: 'Bem sei que ele (o diabo) disse ou fez tal coisa, mas não sou eu. Se minha boca falou, se minhas mãos bateram, era ELE que as fazia falar e bater; bem que eu queria ficar tranquila, mas ELE é mais forte que eu'.
"Esta é a descrição do estado mais frequente; mas entre os extremos existem vários graus, desde a doente que só tem crises de gastralgia, até a que chega ao último paroxismo do furor. Feito este reparo não encontrei, em nenhuma das doentes visitadas, diferenças dignas de nota, à exceção de umas poucas.
"Uma, chamada Jeanne Br..., quarenta e oito anos, solteira, histérica de velha data, sente animais que não passam de diabos, que lhe correm pelo rosto e a mordem.
"A mulher Nicolas B..., trinta e oito anos, doente há três anos, late dutante as crises. Atribui sua doença a um copo de vinho que bebeu em companhia de um desses que fazem mal.
"Jeanne G..., trinta e sete anos, não casada, é aquela cujas crises diferem mais. Não tem movimentos clônicos generalizados, que se vêem nas outras e quase nunca fala. Desde que sente vir a crise, vai sentar-se e se põe a balançar a cabeça para a frente e para trás; inicialmente lentos e pouco pronunciados, os movimentos vão se acelerando e acabam fazendo a cabeça descrever um círculo com incrível rapidez, cada vez mais amplo, até vir alternativa e regularmente bater o dorso e o peito. A intervalos o movimento cessa por um instante e os músculos contraídos mantêm a cabeça fixa na posição em que se encontrava ao parar, sem que seja possível, mesmo com esforços, reerguê-la ou flexioná-la.
"Victoire V..., vinte anos, foi uma das primeiras a adoecer, aos dezesseis anos. Assim conta seu pai o que ela sofreu:
"Jamais tinha sentido algo, quando um dia foi assaltada pelo mal na igreja. Durante os dois ou três primeiros dias apenas saltava um pouco. Um dia trouxe o meu jantar na paróquia, onde eu trabalhava; nesse momento o sino tocava, anunciando o Ângelus, quando, de repente, ela se pôs a saltar e se jogou no chão, gritando e gesticulando, jurando após o badalar do sino. Como casualmente lá se achasse o cura de Montriond, ela o injuriou, chamou-o s... ch... de Montriond. O cura de Morzine também veio para junto dela, no momento em que a crise terminava, mas logo ela recomeçou, porque ele fez o sinal da cruz em sua fronte. Tinham-na exorcizado várias vezes, mas vendo que nada a curava, nem exorcismos nem outra coisa, levei-a a Genebra, ao Sr. Lafontaine (magnetizador); ali permaneceu um mês e voltou completamente curada. Guardou equilíbrio por cerca de três anos.
"Há seis semanas houve uma recidiva, mas ela já não tinha crise. Não queria ver ninguém e se trancava em casa; só comia quando eu tinha algo de bom para lhe dar, pois do contrário não podia engolir. Não se sustentava em pé e nem ao menos movia os braços. Várias vezes tentei pô-la de pé, mas ela não se sentia e logo caía, desde que eu não mais a sustentava. Então resolvi levá-la ao Sr. Lafontaine. Não sabia como conduzi-la; ela me disse: 'Quando estiver na comuna de Montriond andarei bem.' Auxiliado por um de meus vizinhos, nós a carregamos até Montriond. Mas logo do outro lado da ponte ela andou só e se queixava apenas de um gosto horrível na boca. Depois de duas sessões com o Sr. Lafontaine já estava melhor e agora está empregada como doméstica'.
"Foi geralmente notado, diz o Dr. Constant, que uma vez fora da comuna, só raramente as doentes têm crises.
"Um dia, o prefeito, que me acompanhava, foi surpreendido por uma doente que, violentamente, lhe atirou uma pedra contra o rosto. Quase ao mesmo instante outra doente se precipitava sobre ele, armada com um grande pedaço de pau, para também lhe bater. Vendo esta vir, ele lhe mostrou a extremidade pontiaguda de sua bengala ferrada, ameaçando perfurar-lhe o corpo, caso avançasse. Ela parou, deixou cair o porrete e contentou-se em injuriá-lo.
"Não obstante as corridas, os saltos e os movimentos violentos e desordenados das doentes; malgrado as pancadas a que se entregam, seus terrores e divagações, não se citam tentativas de suicídio nem acidentes graves com qualquer delas. Assim, não perdem inteiramente a consciência e ao menos subsiste o instinto de conservação.
"Se, ao iniciar a crise, uma mulher segura o filho nos braços, acontece muitas vezes que um diabo menos mau que o que vai operá-la lhe diz: 'Deixa esta criança; ele (outro diabo) lhe faria mal.' Por vezes dá-se o mesmo quando têm uma faca ou outro instrumento susceptível de causar ferimentos. [6]
"Como as mulheres, os homens sofreram a influência da crença que a todos deprime em graus diversos, embora neles os efeitos tenham sido menores e bastante diferentes. Alguns sentem absolutamente as mesmas dores que as mulheres; como estas, eles sentem sufocações, experimentam uma sensação de estrangulamento e acusam a sensação da bola histérica, mas nenhum chegou às convulsões; e se houve alguns raros exemplos de acidentes convulsivos, quase sempre podem ser atribuídos a um estado mórbido anterior e diferente. O único representante do sexo masculino que pareceu ter tido crises da mesma natureza que as das moças foi o jovem T... São geralmente as moças de quinze a vinte e cinco anos que foram atingidas. Ao contrário, no sexo oposto, com exceção do jovem T..., são apenas homens maduros, como acabo de dizer, aos quais as vicissitudes da vida poderiam perfeitamente ter trazido outras preocupações pré-existentes, ou acrescentadas às causadas pela doença."
Depois de haver discutido a maioria dos fatos extraordinários narrados a respeito das doentes de Morzine, e tentado provar o estado de degradação física e moral dos habitantes em consequência de afecções hereditárias, acrescenta o Dr. Constant:
"É, pois, necessário ter como certo que tudo quanto se diz em Morzine, uma vez restabelecida a verdade, acha-se consideravelmente reduzido. Cada um concebeu sua história e quis ultrapassar o outro. Tais exageros se encontram em todos os relatos de epidemias desse gênero. Ainda mesmo que alguns fatos fossem reais em todos os pontos e escapassem a toda interpretação, seria motivo para lhes buscar uma explicação fora das leis naturais? Corresponderia a dizer que todos os agentes, cujo modo de ação ainda não foram descobertos e escapam à nossa análise, são necessariamente sobrenaturais.
"Tudo o que se viu em Morzine, sobretudo aquilo que se conta poderá, para certas pessoas, ser interpretado como sinal manifesto de uma possessão, mas é, também, muito certamente, o de uma moléstia complexa que recebeu o nome de histero-demonomania.
"Em suma, acabamos de ver uma região cujo clima é rude e a temperatura muito variável, onde a histeria, em todos os tempos, foi considerada endêmica; uma população cuja alimentação, sempre a mesma para todos, mais pobres ou menos pobres, e sempre má, é composta de alimentos geralmente alterados, que podem provocar, e provocam, desarranjos das funções dos órgãos da nutrição e, por aí, nevroses particulares; uma população de constituição pouco robusta e especial, marcada muitas vezes por predisposições hereditárias; ignorantes e vivendo num isolamento quase completo; muito piedosa, mas de uma piedade que tem por base mais o medo que a esperança; muito supersticiosa e cuja superstição, essa chaga que São Tomé chamava um vício oposto à religião por excesso, tem sido mais alimentada que combatida; embalada por histórias de feitiçaria que são, fora das cerimônias da Igreja, a única distração que a severidade religiosa exagerada não pôde impedir, de uma imaginação viva, muito impressionável, que precisaria de algum alimento e que não o encontra senão nessas mesmas cerimônias."
Resta-nos examinar as relações que podem existir entre os fenômenos acima descritos e os que se produzem nos casos de obsessão e subjugação bem constatados, o que sem dúvida cada um já terá notado: o efeito dos meios curativos empregados, as causas da ineficácia do exorcismo e as condições nas quais podem ser úteis. É o que faremos no próximo e último artigo.
Por ora diremos, como o Dr. Constant, que não há necessidade de buscar no sobrenatural a explicação dos efeitos desconhecidos; neste ponto concordamos perfeitamente com ele. Para nós os fenômenos espíritas nada têm de sobrenatural; revelam-nos uma das leis, uma das forças da Natureza que não conhecíamos e que produz efeitos até agora inexplicados. Evidenciada pelos fatos e pela observação, esta lei será mais irracional porque tem, como promotores, seres inteligentes, em vez de animais ou a matéria bruta? Será, então, um contra-senso acreditar em inteligências ativas além do túmulo, sobretudo quando se manifestavam de maneira ostensiva? O conhecimento desta lei, levando certos efeitos à sua causa verdadeira, simples e natural, é o melhor antídoto das idéias supersticiosas.
Estudos sobre os Possessos de Morzine
Causas da Obsessão e meios de combatê-la
(5o artigo - Revista Espírita mai/1863)
Como puderam notar, o Dr. Constant chegou a Morzine com a idéia de que a causa do mal era puramente física. Podia ter razão, porquanto seria absurdo supor a priori uma influência a todo efeito cuja causa é desconhecida. Segundo ele esta causa está inteiramente nas condições higiênicas, climáticas e fisiológicas dos habitantes. Longe de nós pretender que ele pensasse o contrário, o que também não seria mais lógico. Dizemos simplesmente que, com sua idéia preconcebida, não viu senão o que queria ver, ao passo que, se ao menos tivesse admitido a possibilidade de outra causa, teria visto outra coisa.
Quando uma causa é real, deve poder explicar todos os efeitos que produz. Se certos efeitos vêm contradizê-la, é que é falsa ou não é única e, então, é preciso procurar uma outra. Incontestavelmente é o raciocínio mais lógico e a própria justiça, em suas investigações na busca da criminalidade, não procede de outra maneira. Se se trata de constatar um crime, chega ela com a idéia de que deve ter sido cometido desta ou daquela maneira, por tal ou qual pessoa? Não. Ela observa as menores circunstâncias e, remontando dos efeitos às causas, afasta as que são inconciliáveis com os efeitos observados e, de dedução em dedução, é raro que não chegue à constatação da verdade. Dá-se o mesmo nas ciências. Quando uma dificuldade resta insolúvel, é mais prudente adiar o seu julgamento; então toda hipótese é permitida para tentar resolvê-la. Mas se a hipótese não resolve todos os casos da dificuldade, é que é falsa; e só terá o caráter de uma verdade absoluta se der a razão de tudo. É assim que no Espiritismo, por exemplo, pondo de lado toda constatação material, remontando dos efeitos às causas, chega-se ao princípio da pluralidade das existências, como consequência inevitável, porque só ele explica claramente o que nenhum outro pôde explicar.
Aplicando este método aos fatos de Morzine, é fácil ver que a causa única admitida pelo Dr. Constant está longe de tudo explicar. Ele constata, por exemplo, que em geral as crises cessam tão logo os doentes deixam o território da comuna. Se, pois, o mal é devido à constituição linfática e à má nutrição dos habitantes, como a causa deixa de agir quando eles transpõem a ponte que os separa da comuna vizinha? Se as crises nervosas não fossem acompanhadas de nenhum outro sintoma, ninguém duvidaria que se pudesse, conforme tudo indica, atribui-los a um estado constitucional; mas há fenômenos que não podem ser explicados somente por esse estado.
Aqui o Espiritismo nos oferece uma comparação admirável. No começo das manifestações, quando se viam as mesas girando, batendo, endireitando-se e se erguendo no espaço sem ponto de apoio, o primeiro pensamento foi que se devesse à ação da eletricidade, do magnetismo ou de um fluido desconhecido. Esta suposição nada tinha de desarrazoado; ao contrário: oferecia toda probabilidade. Mas quando se viu que esses movimentos davam sinais de inteligência, manifestavam uma vontade própria, espontânea e independente, a primeira hipótese teve que ser abandonada porque não resolvia esta fase do fenômeno, sendo necessário que se reconhecesse, no efeito inteligente, uma causa inteligente. Qual era essa inteligência? É ainda pela via da experimentação que a ela se chegou, e não por um sistema preconcebido.
Citemos um outro exemplo. Quando Newton, ao observar a queda dos corpos, notou que todos caíam na mesma direção, procurou a causa e formulou uma hipótese. Esta hipótese, resolvendo todos os casos do mesmo gênero, tornou-se a lei da gravitação universal, lei puramente mecânica, porque todos os efeitos eram mecânicos. Mas suponhamos que vendo tombar uma maçã, esta tivesse obedecido à sua vontade; que, ao seu comando, ao invés de descer tivesse subido, fosse para a direita ou para a esquerda, tivesse parado ou entrado em movimento; que, por um sinal qualquer, respondesse ao seu pensamento: ele teria sido forçado a reconhecer algo mais além das leis da mecânica, isto é, não sendo a maçã inteligente por si mesma, devia obedecer a uma inteligência. Foi assim com as mesas girantes; é assim com os doentes de Morzine.
Para não falar senão dos fatos observados pelo próprio Dr. Constant, perguntaremos como uma alimentação má e um temperamento linfático podem produzir antipatia religiosa em pessoas naturalmente religiosas e até devotas? Se fosse um fato isolado podia ser uma exceção; mas se reconhece que é geral e que é uma das características da doença, lá e alhures. Eis um efeito; procurai a sua causa. Não a conheceis? Seja; confessai-o, mas não digais que se deve aos habitos alimentares dos habitantes, que se nutrem de batatas e de pão preto, nem à sua ignorância e tacanhice de espírito, porque vos oporão o mesmo efeito entre gente que vive na abundância e recebeu instrução. Se o conforto bastasse para curar a impiedade, ficaríamos admirados de encontrar tantos ímpios e blasfemadores entre pessoas que de nada se privam.
O regime higiênico explicaria melhor este outro fato não menos característico e geral do sentimento de dualidade, que se traduz sem equívoco na linguagem dos doentes? Certamente não. É sempre um desconhecido quem fala; sempre uma distinção entre ele e a mocinha, fato constante nos indivíduos no mesmo caso, seja qual for a classe social a que pertençam. Os remédios são ineficazes por uma boa razão: é que são bons, como diz aquele desconhecido, para a jovem, isto é, para o ser corporal, mas não para o outro, aquele que não é visto e que, entretanto, a faz agir, a constrange, a subjuga, a derruba e se serve de seus membros para bater e de sua boca para falar. Ele diz nada ter visto que justifique a idéia de possessão, embora os fatos estivessem diante de seus olhos, como ele mesmo os cita. Podem ser explicados pela causa que ele lhes atribui? Não. Então esta causa não é verdadeira; como ele via efeitos morais, devia procurar uma causa moral.
Um outro médico, o Dr. Chiara, que também visitou Morzine e publicou sua apreciação [7], constatou os mesmos fenômenos e os mesmos sintomas que o Dr. Constant. Mas para ele, como para este último, os Espíritos malignos estão na imaginação dos enfermos. Em seu relatório encontramos o seguinte fato, a propósito de uma doente:
"O acesso começa por um soluço e movimentos de deglutição, pela flexão e extensão alternativos da cabeça sobre o tronco; em seguida, depois de várias contorções que lhe dão ao rosto tão suave uma expressão aterradora, grita ela ao médico 'S..., eu sou o diabo...; queres que eu abandone a moça, mas não tenho medo de ti... vem!... há quatro anos que eu a subjugo: ela é minha e nela ficarei. - Que fazes nesta moça? - Eu a atormento. - E por que, infeliz, atormentas uma pessoa que não te fez nenhum mal? - Porque me puseram aqui para atormentá-la. - És um celerado.' Paro aqui, atordoado por uma avalanche de injúrias e imprecações."
Falando de outra doente, diz ele:
"Após alguns instantes de uma cena muda, de uma pantomina mais ou menos expressiva, nossa possessa põe-se a soltar pragas horríveis. Espumando de raiva, injuria-nos a todos com um furor sem igual. Mas - digamos sem demora - não é a moça que assim se exprime; é o diabo que a possui e que, servindo-se de seu órgão, fala em seu próprio nome. Quanto à nossa energúmena, não passa de um instrumento passivo, no qual a noção do eu foi completamente abolida. Se a interpelam diretamente, fica muda: só Belzebu responderá.
"Enfim, depois de uns três minutos esse drama assustador cessa de repente, como que por encanto. A jovem B... retoma o ar mais calmo, o mais natural do mundo, como se nada tivesse acontecido. Tricotava antes; ei-la a tricotar depois, parecendo não ter interrompido o trabalho. Interrogo-a; responde não sentir a mais leve fadiga nem se lembrar de nada. Falo-lhe das injúrias que nos dirigiu: ela as ignora; mas parece ficar contrariada e nos pede desculpas.
"Em todas essas doentes a sensibilidade geral é completamente abolida. Por mais que as belisquem, piquem ou queimem, nada sentem. Numa delas fiz uma dobra na pele e a atravessei com uma agulha comum: correu sangue, mas ela nada sentiu.
"Em Morzine vi ainda várias dessas doentes fora do estado de crise. Eram jovens, corpulentas e saudáveis, gozando da plenitude das faculdades físicas e morais. Vendo-as, era impossível supor a existência da menor afecção."
Isto contrasta com o estado raquítico, macilento e enfermiço que o Dr. Constant julgou ter notado. Quanto ao fenômeno da insensibilidade durante as crises, não é, como se viu, a única semelhança que esses fatos apresentam com o estado cataléptico, o sonambulismo e a dupla vista.
De todas as suas observações o Dr. Chiara chegou a esta definição do mal:
"É um conjunto mórbido, formado de diferentes sintomas, inerentes em maior ou menor grau ao quadro patológico das doenças nervosas e mentais; numa palavra, é uma afecção sui generis [8], para a qual conservarei o nome que lhe foi dado, de histero-demonia, visto ligar pouca importância às denominações."
É o caso de dizer: "Quem tem ouvidos, ouça." É um mal particular, formado de diferentes partes e que tem sua fonte um pouco em toda parte. É o mesmo que dizer simplesmente: "É um mal que não compreendo." É um mal sui generis: estamos de acordo; mas qual esse gênero, ao qual nem mesmo sabeis dar o nome?
Poderíamos provar a insuficiência de uma causa puramente material para explicar o mal de Morzine por muitas outras comparações, que os próprios leitores farão. Que então se reportem aos nossos artigos precedentes sobre o mesmo assunto, ao que dizemos da maneira por que se opera a ação dos Espíritos obsessores, dos fenômenos resultantes dessa ação e a analogia ressaltará com a última evidência. Se, para os habitantes de Morzine, o desconhecido que interfere é o diabo é porque lhes disseram que era o demônio e eles só conheciam isto. Sabe-se, aliás, que certos Espíritos de baixo nível divertem-se em tomar nomes infernais para amedrontar. A este nome substituí em sua boca a palavra Espírito, ou, melhor ainda, maus Espíritos e tereis a reprodução idêntica de todas as cenas de obsessão e de subjugação que relatamos. É incontestável que, numa região onde imperasse a idéia do Espiritismo, os doentes se diriam impelidos pelos maus Espíritos e passariam por loucos aos olhos de muita gente, caso sobreviesse uma epidemia semelhante. Dizem que é o diabo; é uma afecção nervosa. É o que teria acontecido em Morzine, se o conhecimento do Espiritismo ali tivesse precedido a invasão dos Espíritos. Seus adversários protestariam; mas a Providência não lhes quis dar essa satisfação passageira: ao contrário, quis provar-lhes sua impotência para combater o mal pelos meios ordinários.
Afinal de contas, recorreram ao afastamento das doentes, que foram levadas aos hospitais de Thonon, Chambéry, Lyon, Mâcon, etc. Era um bom recurso, porquanto, uma vez transferidas de Morzine, podiam jactar-se de que não existiam mais doentes na região. A medida podia basear-se num fato observado, o da cessação das crises fora da comuna; mas parece ter sido estribada em outra consideração; o isolamento das doentes. Aliás, a opinião do Dr. Constant é categórica. Diz ele: "Segundo um velho amigo meu, o Dr. Bouchut, deveria haver uma espécie de lazareto, onde pudessem ser escondidas, assim que se mostrassem, as desordens morais e nervosas, cuja propriedade contagiosa é estabelecida. Enquanto se aguarda coisa melhor, esse lazareto foi encontrado no asilo de alienados. É o único lugar realmente conveniente para o tratamento racional e completo das enfermas de que se trata, quer se admita seja sua doença uma forma, uma variedade de alienação, quer mesmo não admitindo que fossem, sob qualquer título, tomadas como alienadas. É necessário que nelas se produza um certo grau de intimidação; que seu espírito seja ocupado de modo a quase não deixar tempo para se entregarem a preocupações; subtraí-las absolutamente a toda influência religiosa irrefletida e desmedida, às conversas, conselhos ou observações susceptíveis de lhes fomentar o erro, que, ao contrário, deve ser combatido diariamente; dar-lhes um regime apropriado; enfim, obrigá-las a se submeterem às prescrições que seria útil associar a um tratamento puramente moral, e ter os meios de execução. Onde encontrar reunidas todas essas condições necessárias, essenciais, senão num hospício? Teme-se para essas doentes o contato com os verdadeiros alienados. Tal contato seria menos pernicioso do que se pensa e, afinal, teria sido fácil destinar uma ala provisória só para os doentes de Morzine. Se sua aglomeração tivesse qualquer inconveniente, poder-se-ia encontrar compensação na própria reunião; e estou convencido de que o nome de hospício, ou de asilo de loucos, por si só teria operado mais de uma cura e não haveria diabos que uma ducha não pusesse em fuga."
Estamos longe de partilhar do otimismo do Dr. Constant sobre a inocuidade do contato dos alienados e a eficácia das duchas em casos semelhantes. Ao contrário, estamos convencidos de que tal regime pode produzir uma verdadeira loucura, onde esta é apenas aparente. Ora, note-se bem que fora das crises as doentes mantêm o seu bom-senso e são sadias de corpo e espírito; assim, não há nelas senão uma perturbação passageira, sem nenhuma das características da loucura propriamente dita. Seu cérebro, necessariamente enfraquecido pelos ataques frequentes que experimenta, seria ainda mais facilmente impressionável pela visão dos loucos e pela só idéia de achar-se entre eles. O Dr. Constant atribui o desenvolvimento e a evolução da doença à imitação, à influência das conversas das doentes entre si e aconselha a pô-las entre loucos ou segregá-las num pavilhão de hospital! Não é uma evidente contradição? e é isto que ele entende por tratamento moral?
Em nossa opinião, o mal se deve a uma causa inteiramente diversa e requer meios curativos completamente diferentes. Tem a sua fonte na reação incessante que existe entre o mundo visível e o invisível que nos rodeia, em cujo meio vivemos, isto é, entre os homens e os Espíritos, que mais não são que as almas dos que viveram e entre os quais há bons e maus. Esta reação é uma das forças, uma das leis da Natureza, e produz uma imensidão de fenômenos psicológicos, fisiológicos e morais incompreendidos, porque a causa era desconhecida. O Espiritismo nos dá a conhecer esta lei e, desde que os efeitos são submetidos a uma lei da Natureza, nada têm de sobrenatural. Vivendo no meio desse mundo, que não é tão imaterial quanto o imaginam, uma vez que esses seres, conquanto invisíveis, têm corpos fluídicos semelhantes aos nossos, sentimos a sua influência. A dos bons Espíritos é salutar e benéfica; a dos maus é perniciosa, como o contato das criaturas perversas na sociedade.
Em suma, dizemos que uma nuvem de seres invisíveis malfazejos abateu-se momentaneamente sobre Morzine, como ocorreu em muitas outras localidades; e não será com duchas nem alimentos suculentos que serão expulsos. Uns os chamam diabos ou demônios; nós os chamamos simplesmente maus Espíritos ou Espíritos inferiores, o que não implica uma melhor qualidade, embora seja muito diferente pelas consequências, considerando-se que a idéia ligada aos demônios é a de seres à parte, fora da Humanidade e perpetuamente votados ao mal, ao passo que eles são apenas as almas dos homens que foram maus na Terra, mas que acabarão por se melhorarem um dia. Vindo a essa localidade, fazem, como Espíritos, o que teriam feito se a ela tivessem comparecido em vida, isto é, o mal que faria um bando de malfeitores. Deve-se, pois, expulsá-los como se expulsaria uma tropa inimiga.
Está na natureza desses Espíritos a antipatia à religião, porque temem o seu poder, como os criminosos não simpatizam com a lei nem com os juízes que os condenam; e exprimem esse sentimento pela boca de suas vítimas, verdadeiros médiuns inconscientes, absolutamente certos quando dizem não passar de ecos. O paciente é reduzido a um estado passivo; está na situação de um homem dominado por um inimigo mais forte, que o constrange a fazer a sua vontade. O eu do Espírito estranho neutraliza momentaneamente o eu pessoal. Há subjugação obsessiva, e não possessiva.
Que absurdo! dirão certos doutores. Seja; mas nem por isso deixa de ser tido como verdade por grande número de médicos. Tempo virá, mais próximo do que se imagina, em que a ação do mundo invisível será reconhecida na sua generalidade e a influência dos maus Espíritos colocada entre as causas patológicas. Será levado em conta o importante papel desempenhado pelo perispírito na fisiologia e uma nova via de cura será aberta para uma imensidão de doenças consideradas incuráveis.
Se assim é, perguntarão, de onde vem a inutilidade dos exorcismos? Isto prova uma coisa: é que os exorcismos, tais como são praticados, não valem mais que os remédios, porque sua eficácia não está no ato exterior, na virtude das palavras e sinais, mas no ascendente moral exercido sobre os maus Espíritos. Os doentes não diziam: "Não precisamos de remédios, mas de padres santos." E os insultavam, dizendo que não eram bastante santos para ter ação sobre os demônios. Era a alimentação de batatas que os levava a falar assim? Não, mas a intuição da verdade. Em casos semelhantes a ineficácia do exorcismo é constatada pela experiência. E por quê? Porque consiste em cerimônias e fórmulas de que se riem os maus Espíritos, ao passo que cedem ao ascendente moral que lhe impõem; vêem que os querem dominar por meios impotentes e querem mostrar-se mais fortes. São como o cavalo assombradiço que derruba o cavaleiro inábil, ao mesmo tempo que se dobra quando encontra seu mestre.
"Numa dessas cerimônias - diz o Dr. Chiara - houve na igreja, onde haviam reunido as doentes, um tumulto horrível. Todas as mulheres caíram em crise simultaneamente, derrubando, quebrando os bancos da igreja e rolando pelo chão, em completa desordem com homens e crianças, que em vão se esforçavam para contê-las. Proferem juras horríveis, inacreditáveis. Interpelem os sacerdotes nos mais injuriosos termos."
Neste momento cessaram as cerimônias públicas de exorcismo, mas foram exorcizar em casa, a qualquer hora do dia e da noite; como não produzisse melhores resultados, renunciaram definitivamente a essa atividade.
Citamos vários exemplos da força moral em semelhantes casos; e, ainda que não tivéssemos sob os olhos um número suficiente de provas, bastaria lembrar a que exercia o Cristo, que, para expulsar os demônios, apenas ordenava que se retirassem. Comparai, no Evangelho, os possessos daquele tempo com os de hoje e vereis uma notável similitude. Jesus os curava por milagres, direis vós. Seja. Mas eis um fato que não considerareis miraculoso, por ter se passado entre os cismáticos:
O Sr. A..., de Moscou, que não havia lido o nosso relato, há poucos dias nos contava que, em suas propriedades, os habitantes de um vilarejo foram atingidos por um mal em tudo semelhante ao de Morzine: mesmas crises, mesmas convulsões, mesmas blasfêmias, mesmas injúrias contra os padres, mesmo efeito do exorcismo, mesma impotência da ciência médica. Um de seus tios, o Sr. R..., de Moscou, poderoso magnetizador, homem de bem por excelência, de coração muito piedoso, tendo vindo visitar aqueles infelizes, interrompia as convulsões mais violentas pela simples imposição das mãos, sempre acompanhada de fervorosa prece. Repetindo o ato, acabou curando quase todos radicalmente.
Este exemplo não é único. Como explicá-lo, senão pela influência magnética, secundada pela prece, remédio pouco usado pelos nossos materialistas, porque não se encontra na farmacopéia nem nas drogarias? Não obstante, poderoso remédio quando parte do coração e não dos lábios, sustentado numa fé viva e num ardente desejo de fazer o bem. Descrevendo a obsessão em nossos primeiros artigos, explicamos a ação fluídica que se exerce em tal circunstância e daí concluímos, por analogia, que teria sido um poderoso auxiliar em Morzine.
Seja como for, parece que o mal chegou a seu termo, embora as condições da região continuem as mesmas. Por que isto? É o que ainda não nos é permitido dizer. Mas, como será reconhecido mais tarde, terá servido à causa do Espiritismo mais do que se pensa, ainda quando não fosse senão para provar, por um grande exemplo, que aqueles que não o conhecem não estão preservados contra a ação dos maus Espíritos e a impotência dos meios ordinários empregados para os expulsar.
Ao terminar, queremos tranquilizar certos habitantes da região sobre a pretensa influência que alguns dentre eles teria podido exercer causando o mal, como dizem. A crença nos feiticeiros deve ser relegada entre as superstições. Que sejam de coração piedoso e que os que estão encarregados de os conduzir se esforcem por elevá-los moralmente. Não há meio mais seguro para neutralizar a influência dos maus Espíritos e de prevenir a repetição do que se passou. Os maus Espíritos só se dirigem àqueles a quem sabem poder dominar e não àqueles cuja superioridade moral - não dizemos intelectual - protege contra os seus ataques.
Aqui se apresenta uma objeção muito natural, que convém prevenir. Talvez perguntem: Por que nem todos os que fazem o mal são atingidos pela possessão? A isto respondemos que, fazendo o mal, sofrem de outra maneira a perniciosa influência dos maus Espíritos, cujos conselhos escutam, pelo que serão punidos com tanto mais severidade quanto mais agirem com conhecimento de causa. Não creiais na virtude de nenhum talismã, de nenhum amuleto, de nenhum signo, de nenhuma palavra para afastar os maus Espíritos. A pureza de coração e de intenção, o amor a Deus e ao próximo, eis o melhor talismã, porque lhes tira todo império sobre as nossas almas.
Eis a comunicação que a respeito deu o Espírito de São Luís, guia espiritual da Sociedade Espírita de Paris:
"Os possessos de Morzine estão realmente sob a influência dos maus Espíritos, atraídos para aquela região por causas que conhecereis um dia, ou, melhor, que um dia vós mesmos reconhecereis. O conhecimento do Espiritismo ali fará predominar a boa influência sobre a má, isto é, os Espíritos curadores e consoladores, atraídos pelos fluidos simpáticos, substituirão a maligna e cruel influência que desola aquela população. O Espiritismo está chamado a prestar grandes serviços; será o curador dos males, cuja causa antes não se conhecia e ante as quais a ciência continua impotente; sondará as chagas morais e lhes prodigalizará o bálsamo reparador; tornando os homens melhores, deles afastará os maus Espíritos atraídos pelos vícios da Humanidade. Se todos os homens fossem bons, os maus Espíritos se afastariam, pois saberiam da impossibilidade de os induzir ao mal. A presença dos homens de bem os faz fugir; a dos homens viciosos os atrai, ao passo que se dá o contrário com os bons Espíritos. Assim, sede bons, se quiserdes ter apenas bons Espíritos ao vosso lado." (Médium: Sra. Costel).
Novos Detalhes sobre os Possessos de Morzine
(6o artigo - Revista Espírita ago/1864)
Na Revista Espírita dos meses de dezembro de 1862, janeiro, fevereiro, março e maio de 1863, apresentamos um relato circunstanciado e uma apreciação da epidemia demoníaca de Morzine (Haute-Savoie), e demonstramos a insuficiência dos meios empregados para combatê-la. A despeito de o mal jamais ter cessado completamente, tinha havido uma espécie de interrupção. Vários jornais, bem como a nossa correspondência particular, assinalam o reaparecimento do flagelo com nova intensidade. O Magnetiseur, jornal de magnetismo animal, publicado em Genebra pelo Sr. Lafontaine, em seu número de 15 de maio de 1864, relata este caso:
“A epidemia demoníaca que, desde 1857, reina no burgo de Morzine e nos lugarejos vizinhos, situados entre as montanhas da Haute-Savoie, ainda provoca os seus estragos. O governo francês se inquieta com o caso, já que a Savoie lhe pertence. Enviou ao local homens especializados, inteligentes e capazes, inspetores de hospícios de alienados, etc., para estudar a natureza e observar a marcha da doença. Estes tomaram algumas medidas, tentaram o deslocamento e transportaram as moças doentes para Chambéry, Annecy, Evian, Thonon, etc. Contudo, o resultado dessas tentativas não foi satisfatório; apesar do tratamento médico que julgaram conveniente, as curas foram pouco numerosas; e quando essas infelizes retornaram à região, recaíram no mesmo estado de sofrimento. Depois de, inicialmente, ter atingido as crianças e as mocinhas, a epidemia estendeu-se às mães de família e às mulheres idosas. Poucos homens lhe sentiram a influência; todavia, custou a vida de um. Esse infeliz meteu-se no estreito espaço entre o fogão e a parede, de onde garantia não poder sair; ali ficou um mês, sem se alimentar; morreu de esgotamento e de inanição, vítima de sua imaginação impressionável.
“Os enviados do governo francês fizeram relatórios, num dos quais o Sr. Constant, entre outras coisas, declarava que o pequeno número de curas realizado naquela população era devido ao magnetismo por mim empregado em Genebra, em moças e senhoras que me haviam trazido em 1858 e 1859.
“Nossos leitores sabem que o flagelo, atribuído pelos bons camponeses de Morzine e, o que é mais lamentável, por seus guias espirituais, ao poder do demônio, manifesta-se naqueles que são tomados por convulsões violentas, acompanhadas de gritos, de perturbações do estômago e de gestos da mais impressionante ginástica, sem falar dos juramentos e de outros processos escandalosos, de que os doentes se tornam culpados, tão logo constrangidos a entrar numa igreja.
“Conseguimos curar vários desses doentes, que não sofreram nenhum ataque enquanto moravam longe das influências desagradáveis do contágio e dos Espíritos feridos de sua região. Mas em Morzine o horrível mal não deixou de fazer estragos entre essa infeliz população; ao contrário, o número de suas vítimas foi crescendo. Em vão prodigalizaram preces e exorcismos; em vão levaram os doentes para hospitais de várias cidades distantes; o flagelo, que em geral ataca mocinhas, cuja imaginação é mais viva, encarniça-se sobre a sua presa, e as únicas curas constatadas são as operadas por nós, das quais fizemos um relato em nosso jornal.
“Enfim, esgotados os meios, quiseram tentar um grande golpe. monsenhor Maguin, bispo de Annecy, há pouco anunciou que iria a Morzine, tanto para crismar os habitantes que ainda não haviam recebido esse sacramento, quanto para descobrir os meios de vencer a terrível doença. A boa gente do vilarejo esperava maravilhas dessa visita.
“Ela ocorreu sábado, 30 de abril, e domingo, 1o de maio. Eis as circunstâncias que a assinalaram:
“Sábado, lá pelas quatro horas, o prelado aproximou-se da aldeia. Estava a cavalo, acompanhado por grande número de eclesiásticos. Tinham procurado reunir os doentes na Igreja; alguns tinham sido forçados a ir. Logo que o bispo pisou em terras de Morzine, diz uma testemunha ocular, as possessas, sentindo a sua aproximação, foram tomadas das mais violentas convulsões. Em especial, as que estavam confinadas na igreja, soltavam gritos e urros, que nada tinham de humano. Todas as jovens que, em diferentes épocas, tinham sido atingidas pela doença, a apresentaram novamente, e viram-se diversas, que há cinco anos não eram atingidas, vitimadas pelo mais aterrador paroxismo, pelas mais terríveis crises. O próprio bispo empalideceu ao ouvir os urros que acolheram a sua chegada. A despeito disto, continuou a avançar para a igreja, malgrado as vociferações de algumas doentes, que haviam escapado das mãos de seus guardas para se atirarem à sua frente e o injuriarem. Apeou à porta do templo e aí entrou com dignidade. Mal acabara de entrar, a desordem redobrou; deu-se, então, uma cena verdadeiramente infernal.
“As possessas, cerca de setenta, com um único rapaz, juravam, rugiam, pulavam em todos os sentidos; isto durou várias horas. Quando o prelado quis fazer o crisma, o furor recrudesceu, como se fosse possível. Tiveram de arrastá-las para junto do altar; sete ou oito homens viram-se forçados a conjugar os seus esforços para vencer a resistência de algumas; os policiais prestaram auxílio. O bispo devia partir às quatro horas; às sete da noite ainda estava na igreja, onde não puderam vencer a resistência de três doentes; conseguiram arrastar duas, ofegantes, espuma na boca, blasfêmias nos lábios, até os pés do prelado. A última resistiu a todos os esforços; vencido de fadiga e de emoção, o bispo viu-se obrigado a lhe negar a imposição das mãos; saiu da igreja tremendo, transtornado, as pernas cobertas de contusões recebidas das possessas, enquanto estas se debatiam sob sua bênção.
“Partiu do vilarejo, deixando aos habitantes boas palavras, mas sem lhes ocultar a impressão de profundo estupor que havia experimentado em presença de um mal, que não podia prefigurar tão grande. Terminou confessando que não se tinha sentido bastante forte para conjurar a chaga que tinha vindo curar e prometendo voltar o quanto antes, munido de maiores poderes.
“Não fazemos hoje nenhuma reflexão, limitando-nos a relatar esses fatos deploráveis. Talvez no próximo número relatemos todo o incômodo que em nós eles provocaram.”
Ch. Lafontaine"
Eis o relato sucinto que o Courrier des Alpes fez de tais fatos, e que vários jornais reproduziram sem comentários:
“Em Annecy comenta-se muito um incidente, tão doloroso quanto imprevisto, que assinalou a excursão de monsenhor Maguin, nosso digno prelado. Todos conhecem a triste e singular doença que, há anos, aflige a comuna de Morzine, à qual não se sabe bem que nome dar; a Ciência aí se perde. Certo público caracterizou essa doença, que acomete principalmente as mulheres, chamando de possessos os que por ela são atingidos. Com efeito, muitos habitantes da comuna estão convencidos de que um sortilégio foi lançado sobre essa localidade.
“Lembra-se, também, que em 1862, um certo número de pessoas vitimadas por essa estranha doença, que reproduz todos os efeitos da loucura furiosa, embora não lhe tendo o caráter, foram espalhadas em diversos hospitais, situados em vários pontos da França, e de lá voltaram curadas. Este ano a doença ganhou outras pessoas e, desde algum tempo, vem tomando proporções alarmantes.
“Foi nestas circunstâncias que monsenhor Maguin, movido apenas pela caridade, fez a sua turnê pastoral a Morzine, e foi no momento em que administrava o sacramento da confirmação que, de repente, uma crise se apoderou de certo número desses infelizes que assistiam à cerimônia ou dela participavam. Deu-se, então, um terrível escândalo. Os detalhes dessa cena são muito confrangedores para serem relatados.
“Limitar-me-ei a dizer que a administração superior comoveu-se com esse triste caso e que um destacamento de trinta homens de infantaria já foi enviado ao local; sei de boa fonte que esse destacamento será duplicado e comandado por um oficial superior, encarregado de meticulosas instruções. Escusado dizer que outras medidas serão tomadas, tais, por exemplo, o envio de médicos especialistas, encarregados de estudar a doença. A força armada terá por missão proteger as pessoas.”
A Ciência aí se perde é uma confissão de impotência. Então, o que é que farão os médicos? Já não os enviaram, e muito capacitados? Dizem que vão mandar especialistas. Mas, como estabelecer sua especialidade numa afecção cuja natureza não se conhece, e na qual a Ciência se perde? Concebe-se a especialidade dos oculistas para as afecções dos olhos, dos toxicologistas nos casos de envenenamento. Mas aqui, em que categoria serão recrutados? Entre os alienistas? Muito bem, se for demonstrado que é uma afecção mental. Mas os próprios alienistas fracassaram; não estão de acordo quanto à causa nem quanto ao tratamento. Ora, já que a Ciência aí se perde, o que é uma grande verdade, os alienistas não são mais especialistas que os cirurgiões. É verdade que lhes vão agregar uma força armada, mas já empregaram esse expediente sem sucesso. Duvidamos muito que desta vez sejam mais bem-sucedidos.
Se, pois, a Ciência falha, é que não está com a verdade. Que há para admirar? Tudo revela uma causa moral, e enviam homens que só crêem na matéria; procuram na matéria e aí nada encontram. Isto prova sobejamente que não procuram onde é preciso. Se quiserem médicos mais especialistas, que os selecionem entre os espiritualistas, e não entre os materialistas; ao menos aqueles poderão compreender que possa haver algo fora do organismo.
A religião não foi mais feliz; usou suas munições contra os diabos, sem poder chamá-los à razão. Então os diabos são mais fortes, a menos que não sejam diabos. Seus constantes reveses, em casos semelhantes, provam uma de duas coisas: ou que ela não está com a verdade, ou que é vencida por seus inimigos.
O mais claro de tudo isto é que nada do que empregaram deu resultado e melhor resultado não obterão enquanto se obstinarem a não buscar a verdadeira causa onde ela está. Um estudo atento dos sintomas demonstra, como última evidência, que sua causa está na ação do mundo invisível sobre o mundo visível, ação que é a fonte de mais afecções do que se pensa, e contra as quais a Ciência falha pela razão de que combate o efeito e não a causa. Numa palavra, é o que o Espiritismo designa sob o nome de obsessão, levada ao mais alto grau, isto é, de subjugação e de possessão. As crises são efeitos consecutivos; a causa é o ser obsessor. É, pois, sobre este ser obsessor que se deve agir, como se age sobre os vermes nas convulsões por eles ocasionadas.
Sistema absurdo, dirão. Absurdo para os que nada admitem fora do mundo tangível, mas muito positivo para os que constataram a existência do mundo espiritual e a presença de seres invisíveis à nossa volta; sistema, aliás, baseado na experiência e na observação, e não numa teoria preconcebida. A ação de um ser invisível malfazejo foi constatada numa imensidão de casos isolados, tendo completa analogia com os fatos de Morzine, donde é lógico concluir que a causa seja a mesma, uma vez que os efeitos são semelhantes; a diferença está apenas no número. Todos os sintomas, sem exceção, observados nos doentes daquela localidade, o foram em casos particulares de que falamos. Ora, desde que libertaram os doentes atingidos pelo mesmo mal, sem exorcismo, sem medicamentos e sem polícia, o que se fez alhures poderia ser feito em Morzine.
Se é assim, perguntarão, por que os recursos espirituais empregados pela Igreja são ineficazes? Eis a razão.
A Igreja acredita nos demônios, isto é, numa categoria de seres de natureza perversa, e votados eternamente ao mal, por conseguinte, imperfectíveis. Com esta idéia, ela não procura melhorá-los. O Espiritismo, ao contrário, reconheceu que o mundo invisível é composto de almas ou Espíritos dos homens que viveram na Terra e que, depois da morte, povoam o espaço; nesse número os há bons e maus, como entre os homens. Dos que se regozijavam em vida em praticar o mal, muitos ainda se comprazem em fazê-lo após a morte; mas, pelo fato de pertencerem à Humanidade, estão submetidos à lei do progresso e podem melhorar-se. Não são, pois, demônios, como o entende a Igreja, mas Espíritos imperfeitos.
Sua ação sobre os homens se exerce, ao mesmo tempo, sobre o físico e o moral. Daí uma porção de afecções que não têm sede no organismo, loucuras aparentes refratárias a qualquer medicação. É um novo ramo da patologia, que se pode designar sob o nome de patologia espiritual. A experiência ensina a distinguir os casos desta categoria dos que pertencem à patologia orgânica.
Não nos propomos descrever o tratamento das afecções desse gênero, porque já foi indicado alhures. Limitar-nos-emos a lembrar que consiste numa tripla ação: a ação fluídica, que libera o perispírito do doente da opressão do perispírito do Espírito malévolo, o ascendente exercido sobre este último pela autoridade que sobre ele dá a superioridade moral, e a influência moralizadora dos conselhos que se lhe dá. A primeira não passa de acessório das duas outras; sozinha ela é insuficiente, porque, caso se consiga, momentaneamente, afastar o Espírito, nada o impede de voltar à carga. É a fazê-lo renunciar voluntariamente a seus maus propósitos que nos devemos empenhar, moralizando-o. É uma verdadeira educação a fazer, que exige tato, paciência, devotamento e, acima de tudo, uma fé sincera. Prova a experiência, pelos resultados obtidos, o poder deste meio; mas também demonstra que, em certos casos, é necessário o concurso simultâneo de várias pessoas, unidas na mesma intenção.
Ora, que faz a Igreja em semelhantes casos? Convicta de que trata com demônios incorrigíveis, não se ocupa absolutamente com a sua melhora; crê amedrontá-los e afastá-los por sinais, fórmulas e aparatos de exorcismo, de que eles se riem e se tornam mais excitados, redobrando a malícia, como sempre sucedeu quando tentaram exorcizar os lugares em que se produzem barulhos e perturbações. É fato confirmado pela experiência que os sinais e os atos exteriores nenhum poder exercem sobre eles, ao passo que se tem visto os mais endurecidos e perversos Espíritos cederem a uma pressão moral e voltarem aos bons sentimentos. Tem-se, então, a dupla satisfação de livrar o obsidiado e de reconduzir a Deus uma alma transviada.
Talvez perguntem por que os espíritas – já que estão convencidos da causa do mal e dos meios de o combater – não foram a Morzine para ali operar seus milagres? Em primeiro lugar, os espíritas não fazem milagres; a ação curativa que se pode exercer em semelhantes casos nada tem de maravilhoso, nem de sobrenatural; repousa numa lei da Natureza: a das relações entre o mundo visível e o mundo invisível, lei que, dando a razão de certos fenômenos incompreendidos, por falta de conhecimento, vem restringir os limites do maravilhoso, em vez de os alargar. Em segundo lugar, dever-se-ia perguntar se o seu concurso teria sido aceito; se não teriam encontrado uma oposição sistemática; se, longe de serem secundados, não teriam sido entravados pelos próprios que fracassaram; se não teriam sido insultados e maltratados por uma população superexcitada pelo fanatismo, acusados de feitiçaria junto aos próprios doentes e de agirem em nome do diabo, como se viram amostras em certas localidades. Nos casos individuais e isolados, os que se devotam ao alívio dos aflitos geralmente são auxiliados pela família e pela vizinhança, muitas vezes pelos próprios doentes, sobre o moral dos quais devem atuar, por meio de palavras boas e encorajadoras, que devem excitar a prece. Semelhantes curas não se obtêm instantaneamente. Os que as empreendem necessitam de calma e de profundo recolhimento. Nas circunstâncias atuais, essas condições seriam possíveis em Morzine? É mais que duvidoso. Quando vier o momento de deter o mal, Deus o proverá.
Aliás, os fatos de Morzine e sua continuação têm sua razão de ser, assim como as manifestações do mesmo gênero em Poitiers. Eles se multiplicarão, quer isolada, quer coletivamente, a fim de convencer da impotência dos meios até agora empregados para lhes pôr um termo, e para forçar a incredulidade a reconhecer, enfim, a existência de um poder extra-humano.
Para todos os casos de obsessão, de possessão e de quaisquer manifestações desagradáveis, chamamos a atenção sobre o que, a respeito, diz O Livro dos Médiuns, capítulo da obsessão; sobre os artigos da Revista relativos a Morzine e referidos acima; sobre nossos artigos dos meses de fevereiro, março e junho de
1864, concernentes à jovem obsedada de Marmande; enfim, sobre os nos 325 a 335 da Imitação do Evangelho. Aí encontrarão as instruções necessárias para se guiarem em circunstâncias análogas.
Allan Kardec
Fontes:
1. Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, ano V - 1862, Allan Kardec, tradução de Evandro Noleto Bezerra, 1a edição - 1o milheiro, Editora FEB, 2004
2. Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, ano VI - 1863, Allan Kardec, tradução de Evandro Noleto Bezerra, 1a edição - 1o milheiro, Editora FEB, 2004
3. Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, ano VII - 1864, Allan Kardec, tradução de Evandro Noleto Bezerra, 3a edição - 4,5o milheiro, Editora FEB, 2006
Versões para download:
http://www.opiniaoespirita.org/downloads/re_1862_feb.pdf
http://www.opiniaoespirita.org/downloads/re_1863_feb.pdf
http://www.opiniaoespirita.org/downloads/re_1864_feb.pdf
Notas do Editor deste site (Opinião Espírita):
(Clique nos números das notas para encontrar a localização do texto que gerou a nota)
[1] - Mais tarde Kardec reavaliaria a sua opinião sobre a possessão. Recomendamos ao leitor que leia o artigo Um caso de Possessão - Senhorita Júlia, na Revista Espírita de dez/1863. Nesse artigo, Allan Kardec escreve: "Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, embora parcial, de um Espírito encarnado por um Espírito errante..." Portanto, ao longo dos artigos sobre Morzine, é preciso observar com reserva o uso da palavra "subjugação" quando poderia ser na realidade "possessão". Os fenômenos de Morzine nos parecem ter sido casos de possessão, e não subjugação, como está expresso ao longo desses cinco artigos. Essa diferenciação, contudo, não atrapalha o entendimento, pois em sendo um caso ou outro, os meios de combate são os mesmos. A mesma reserva também deve ser observada em O Livro dos Médiuns, no capítulo sobre a Obsessão, que é anterior a dez/1863 e não foi revisado após isso.
[2] - Nota de Allan Kardec: Brochura in-8, Livraria de Adrien Delahaye, place de I'École-de-Médicine. Preço: 2fr.
[3] - "Ex oequo" significa "igualados", "equiparados".
[4] - Nota do Tradutor: A palavra paróquia (paroisse) não deve ser aqui entendida na sua acepção ordinária, de "circunscrição eclesiástica", mas como "unidade administrativa rural do Antigo Regime (Ancien Régime) francês."
[5] - "Ad rem" significa "pertinente".
[6] - Essa parece ser uma característica comum a todos os casos de obsessões, subjugações ou mesmo possessões já relatadas em todos os tempos. Apesar dos espasmos e das histerias, não é do nosso conhecimento que já tenha havido algum caso na história de alguém que tenha sido morto ou ferido gravemente por causa de uma ação espiritual direta; nem mesmo um relato que pudéssemos alegar que tivesse sido falsamente atribuído a espíritos. Não há, portanto, perigo físico real nas evocações com objetivo sério, inclusive nas evocações de maus espíritos, desde que se tenha por objetivo moralizá-los. Também os casos de assombrações de que se ouve falar não apresentam perigo real além do incômodo de ter objetos movidos ou quebrados, ou pequenos ferimentos, como arranhões e pequenas escoriações. Os perigos reais nas comunicações com os espíritos são as fascinações e mistificações, que podem nos levar à ruína física ou moral, ou mesmo ao ridículo. E esse é um perigo mais moral do que físico, mas nem por isso menos perigoso. Por isso que o estudo se torna fundamental e, ousamos dizer, mandatório, a qualquer um que queira se lançar a essa atividade, unido à prece e ao desejo de fazer o bem. Mas insistimos: não basta somente boas intenções; é preciso estudo prévio e sério das obras de Kardec, especialmente O Livro dos Médiuns. Allan Kardec também nos alertou sobre isso no final do 2o artigo nesta página.
[7] - Nota de Allan Kardec: Os Diabos de Morzine, Livraria Mégret, quai de l'Hôpital, 51, Lyon.
[8] - "Sui generis" significa "único(a) em seu gênero".
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