Allan Kardec Cepa

Opinião
Espírita

Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão,
em todas as épocas da Humanidade. (Allan Kardec)


Acontecimentos

<--Voltar

Nota do Editor: Nas décadas de 1850 e 1860, várias comunicações foram dadas por espíritos a respeito de acontecimentos que abalariam a Humanidade em futuro próximo. A maioria delas nunca foi publicada por Allan Kardec em vida, sendo isso feito pelos seus sucessores, 21 anos após a sua morte, com a publicação do livro Obras Póstumas, em 1890. Entendemos que a "tempestade anunciada" teve seu início no ano de 1914, com a explosão da Primeira Guerra Mundial, passou pelo seu período mais negro durante a Segunda Guerra Mundial, onde morriam assassinadas, em média, 23000 pessoas por dia nos seis anos que perdurou a guerra, e poderíamos marcar o seu fim com a reunificação do mundo após a queda do Muro de Berlim, em 1989. Não estamos dizendo com isso que já vivemos o paraíso na Terra, mas as disposições morais da Humanidade se modificaram já sensivelmente. Hoje, mesmo quando há guerras, toma-se geralmente o cuidado em preservar a população civil (há exceções), a crueldade foi proibida e quando eventualmente ocorre, é punida como crimes contra a humanidade (relembrem do caso dos prisioneiros iraquianos sendo maltratados por soldados americanos, que foram imediatamente punidos), e vários outros avanços decorrentes da reforma das instituições. Dizemos que a tempestade passou, mas que ainda resta uma chuva fina e que esperamos não se demore a dispersar.

Seguem abaixo, portanto, algumas comunicações que falam, entre outras coisas, desse período negro porque passaria a Humanidade e que também já haviam sido previstos nos Evangelhos e pelos profetas antigos (ver notas no final do texto).


Acontecimentos

(Em casa do Sr. Roustan; médium: Srta. Japhet)
7 de maio de 1856


Pergunta (a Hahnemann) — A comunicação há dias dada faz presumir, ao que parece, acontecimentos muito graves. Poderás dar-nos algumas explicações a respeito?

Resposta — Não podemos precisar os fatos. O que podemos dizer é que haverá muitas ruínas e desolações, pois são chegados os tempos preditos de uma renovação da Humanidade.

P. — Quem causará essas ruínas? Será um cataclismo?

R. — Nenhum cataclismo de ordem material haverá, como o entendeis, mas flagelos de toda espécie assolarão as nações; a guerra dizimará os povos; as instituições vetustas se abismarão em ondas de sangue. Faz-se mister que o velho mundo se esboroe, para que uma nova era se abra ao progresso.

P. — A guerra não se circunscreverá então a uma região?

R. — Não, abrangerá a Terra.

P. — Nada, entretanto, neste momento, parece pressagiar uma tempestade próxima.

R. — As coisas estão por fio de teia de aranha, meio partido.

P. — Poder-se-á, sem indiscrição, perguntar donde partirá a primeira centelha?

R. — Da Itália.



Acontecimentos

(Sessão pessoal em casa do Sr. Baudin)
12 de maio de 1856


Pergunta (ao Espírito de Verdade) — Que pensas de M...? É homem que venha a influir nos acontecimentos?

Resposta — Muito ruído. Ele tem boas idéias; é homem de ação, mas não é uma cabeça.

P. — Dever-se-á tomar ao pé da letra o que foi dito, isto é, que lhe cabe o papel de destruir o que existe?

R. — Não; pretendeu-se apenas personificar nele o partido cujas idéias ele representa.

P. — Posso manter com ele relações de amizade?

R. — Por enquanto, não; correrias perigos inúteis.

P. — Dispondo de um médium, diz M... que lhe determinaram a marcha dos acontecimentos, para, por assim dizer, uma data fixa. Será verdade?

R. — Sim, determinaram-lhe épocas, mas foram Espíritos levianos que lhe responderam, Espíritos que não sabem mais do que ele e que lhe exploram a exaltação. Sabes que não devemos precisar as coisas futuras. Os acontecimentos pressentidos certamente se darão em tempo próximo, mas que não pode ser determinado.

P. — Disseram os Espíritos que os tempos são chegados em que tais coisas têm de acontecer: em que sentido se devem tomar essas palavras?

R. — Em se tratando de coisas de tanta gravidade, que são alguns anos a mais ou a menos? Elas nunca ocorrem bruscamente, como o chispar de um raio; são longamente preparadas por acontecimentos parciais que lhes servem como que de precursores, quais os rumores surdos que precedem a erupção de um vulcão. Pode-se, pois, dizer que os tempos são chegados, sem que isso signifique que as coisas sucederão amanhã. Significa unicamente que vos achais no período em que se verificarão.

P. — Confirmas o que foi dito, isto é, que não haverá cataclismos?

R. — Sem dúvida, não tendes que temer nem um dilúvio, nem o abrasamento do vosso planeta, nem outros fatos desse gênero, porquanto não se pode denominar cataclismos a perturbações locais que se têm produzido em todas as épocas. Apenas haverá um cataclismo de natureza moral, de que os homens serão os instrumentos.



Precursores da Tempestade

(Grupo do Sr. Golovine; médium: Sr. L...)
Paris, 30 de janeiro de 1866


Permiti que um antigo dignitário da Táurida abençoe vossos dois filhos. Possam eles, sob a égide das respectivas mães, tornar-se inteligentes em tudo e ser para vós causa de reais satisfações! Desejo que sejam espíritos convictos, isto é, de tal modo se saturem da idéia de outras vidas, dos princípios de fraternidade, de caridade e de solidariedade, que os acontecimentos, que se precipitarão quando eles estiverem em idade de consciência e de razão, não os espantem, nem lhes enfraqueçam a confiança na justiça divina, em meio das provas por que tem a Humanidade de passar.

Por vezes, surpreende-vos o azedume com que os vossos adversários vos atacam. Segundo eles, sois loucos, alucinados, tomais a ficção pela realidade, ressuscitais o diabo e todos os erros da Idade Média.

Sabeis que responder a todos os ataques seria travar uma polêmica sem resultado. O vosso silêncio prova a vossa força e, se não lhes derdes ocasião de retrucar, acabarão calando-se.

O imprevisto é o que mais podeis temer. Se se desse uma mudança de governo, no sentido do mais intolerante ultramontanismo, certamente seríeis perseguidos, escarnecidos, condenados, expatriados. Mas, os acontecimentos, mais fortes que as maquinações em surdina, preparam no horizonte político um temporal bastante violento e, quando a tempestade estalar, tratai de estar bem abrigados, de ser bem fortes e muito desinteressados. Haverá ruínas, invasões, delimitações de fronteiras e, desse naufrágio imenso, que virá da Europa, da Ásia, da América, somente escaparão, ficai sabendo, as almas temperadas, os espíritos esclarecidos, tudo o que for justiça, lealdade, honra, solidariedade.

São perfeitas as vossas sociedades, tais quais se acham organizadas? Tendes aos milhões os vossos párias; a miséria enche incessantemente as vossas prisões, os vossos lupanares, e abastece os cadafalsos. A Alemanha assiste, como em todos os tempos, à emigração de seus habitantes às centenas de milhares, o que não faz honra aos seus governos; o Papa, príncipe temporal, espalha o erro pelo mundo, em vez do Espírito de Verdade, de que ele se constituiu o emblema artificial. Por toda parte a inveja. Vejo interesses que se combatem e nenhum esforço pelo erguimento do ignorante. Os governos, minados por princípios egoístas, pensam em fortificar-se contra a maré que sobe, maré que é a consciência humana, que afinal se insurge, após séculos de expectativa, contra a minoria que explora as forças vivas das nacionalidades.

Nacionalidades! Que a Rússia não encontre terrível escolho, um Cabo das Tormentas, nessa palavra. Bem-amado país, não esqueçam os teus homens de Estado que a grandeza de uma nação não consiste em ter fronteiras indefinidas, muitas províncias e poucas aldeias, algumas grandes cidades num oceano de ignorância, imensas planícies, desertas, estéreis, inclementes como a inveja, como tudo o que é falso e emite sons falsos. Pouco importa que o Sol não se esconda sobre as vossas conquistas, nem por isso haverá menos deserdados, menos ranger de dentes, todo um inferno ameaçador e de fauces escancaradas como a imensidade.

As nações, como os governos, têm o livre-arbítrio; como as simples individualidades, elas sabem dirigir-se pelo amor, pela união, pela concórdia. Entretanto, fornecerão à tempestade anunciada elementos elétricos apropriados a melhor as destruir e desagregar.

Inocente
Em vida, arcebispo da Táurida



A Nova Geração

(Grupo Villon; médium: Sr. G...)
Lyon, 30 de janeiro de 1866


A Terra freme de alegria; aproxima-se o dia do Senhor; todos os que entre nós estão à frente disputam porfiadamente por entrar na liça. Já o Espírito de algumas valorosas almas encarnadas agitam seus corpos até quase despedaçá-los. A carne interdita não sabe o que há de pensar, desconhecido fogo a devora. Elas serão libertadas, porque chegaram os tempos. Uma eternidade está a ponto de expirar, uma eternidade gloriosa vai despontar em breve e Deus conta seus filhos.

O reinado do ouro cederá lugar a um reinado mais puro; o pensamento será dentro em pouco soberano e os Espíritos de escol, que hão vindo desde remotas eras iluminar os séculos em que viveram e servir de balizas aos séculos vindouros, encarnarão entre vós. Que digo? Muitos se acham encarnados. A sábia palavra deles será uma chama destruidora, que causará devastações irreparáveis no seio dos velhos abusos. Quantos prejuízos antigos vão desmoronar em bloco, quando o Espírito, como uma acha de duplo gume, vier decepá-los pelos fundamentos.

Sim, os pais do progresso do espírito humano deixaram, uns, as suas moradas radiosas; outros, grandes trabalhos, em que a felicidade se junta ao prazer de instruir-se, para retomarem o bastão de peregrinos, que apenas haviam deposto no limiar do templo da Ciência, e daqui a pouco, dos quatro cantos do globo, os sábios oficiais ouvirão, apavorados, jovens imberbes a lhes retorquir, numa linguagem profunda, aos argumentos que eles julgavam irrefutáveis. O sorriso zombeteiro já não constituirá um escudo que valha e, sob pena de desmoralização, forçoso será responder. Então, o círculo vicioso em que se metem os mestres da vã filosofia mostrar-se-á completamente, porquanto os novos campeões levam consigo não só um facho, que é a inteligência desimpedida dos véus grosseiros, senão também muitos dentre eles gozarão desse estado particular, que é privilégio das grandes almas, como Jesus, e que dá o poder de curar e de operar essas maravilhas chamadas milagres. Diante dos fatos materiais, em que o Espírito se mostra tão superior à matéria, como negar os Espíritos? O materialismo será abatido em seus discursos por uma palavra mais eloqüente do que a sua e pelo fato patente, positivo e averiguado por todos, visto que grandes e pequenos, novos Tomés, poderão tocar com o dedo.

O velho mundo carcomido estala por toda parte; o velho mundo acaba e com ele todos esses velhos dogmas, que só reluzem ainda pelo dourado que os cobre. Espíritos valorosos, cabe-vos a tarefa de raspar esse ouro falso. Para trás, vós que em vão quereis escorar o velho ídolo1. Atingido de todos os lados, ele vai ruir e vos arrastará na sua queda.

Para trás, todos vós negadores do progresso; para trás, com as vossas crenças de uma época que se foi. Por que negais o progresso e vos esforçais por detê-lo? É que, desejando sobrepujar, sobrepujar ainda e sempre, condensastes o vosso pensamento em artigos de fé, clamando para a Humanidade: “Serás sempre criança e nós que temos a iluminação do alto, estamos destinados a conduzir-te.”

Mas, já tendes visto ficar-vos nas mãos as andadeiras da infância; e a criança salta diante de vós e ainda negais que ela possa caminhar sozinha! Será chicoteando-a com as andadeiras destinadas a sustentá-la que provareis a autoridade dos vossos argumentos? Não, e bem o sentis; mas, é tão agradável, a quem se diz infalível, crer que os outros ainda depositam fé nessa infalibilidade, em que nem vós mesmos acreditais!

Ah! que de gemidos não se soltam no santuário! É aí que, prestando-se ouvido atento, se escutam os cochichos dolorosos. Que dizeis, então, pobres obstinados? Que a mão de Deus se abate sobre a sua Igreja? Que por toda parte a imprensa livre vos ataca e pulveriza os vossos argumentos? Onde estará o novo Crisóstomo2, cuja potente palavra reduzirá a nada esse dilúvio de raciocinadores? Em vão o esperais; nada mais podem as vossas mais vigorosas e mais conceituadas penas. Elas se obstinam em agarrar-se ao passado que se vai, quando a nova geração, num impulso irresistível que a impele para a frente, exclama: Não, nada de passado; a nós o futuro; nova aurora se ergue e é para lá que tendem as nossas aspirações!

Avante! diz ela; alargai a estrada, os irmãos nos seguem. Ide com a onda que nos arrasta; necessitamos do movimento, que é vida, ao passo que vós nos apresentais a imobilidade, que é a morte. Os vossos santos mártires absolutamente não estão mortos, para que lhes imobilizeis o presente. Eles entreviram a nossa época e se lançaram à morte como à estrada que havia de conduzi-los lá. A cada época o seu gênio. Queremos lançar-nos à vida, porquanto os séculos vindouros, que divisamos, têm horror à morte.

Eis aí, meus amigos, o que os valorosos Espíritos que presentemente encarnam vão tornar compreensível. Este século não terminará sem que muitos destroços junquem o solo. A guerra mortífera e fratricida desaparecerá em breve diante da discussão; o espírito substituirá a força brutal. Depois que todas essas almas generosas houverem combatido, voltarão ao vosso mundo espiritual, para receberem a coroa do vencedor.

Aí está a meta, meus amigos. Por demais aguerridos são os campeões, para que seja duvidoso o êxito. Deus escolheu a nata dos seus combatentes e a vitória é alcançada para a Humanidade.

Rejubilai-vos, pois, todos vós que aspirais à felicidade e que desejais participem dela os vossos irmãos, como vós mesmos: o dia chegou! A Terra trepida de alegria, porquanto vai assistir ao começo do reinado da paz que o Cristo, o divino Mestre, prometeu, reinado cujos fundamentos ele desceu a assentar.

Um Espírito



Regeneração da Humanidade

(Resumo das comunicações dadas pelas Sras. M... e T... em estado sonambúlico)
Paris, 25 de abril de 1866


Precipitam-se com rapidez os acontecimentos, pelo que já não vos dizemos, como outrora: “Aproximam-se os tempos.” Agora, dizemos: “Os tempos são chegados.” Não suponhais que as nossas palavras se referem a um novo dilúvio, nem a um cataclismo, nem a um revolvimento geral. Revoluções parciais do globo se hão produzido em todas as épocas e ainda se produzem, porque decorrem da sua constituição, mas não representam os sinais dos tempos.

Entretanto, tudo o que está predito no Evangelho3 tem de cumprir-se e neste momento se cumpre, conforme o reconhecereis mais tarde. Não tomeis, porém, os sinais anunciados, senão como figuras, que precisam ser compreendidas segundo o espírito e não segundo a letra. Todas as Escrituras encerram grandes verdades sob o véu da alegoria e, por se terem apegado à letra, é que os comentadores se transviaram. Faltou-lhes a chave para lhes compreenderem o verdadeiro sentido. Essa chave está nas descobertas da Ciência e nas leis do mundo invisível, que o Espiritismo vem revelar. Daqui em diante, com o auxílio desses novos conhecimentos, o que era obscuro se tornará claro e inteligível.

Tudo segue a ordem natural das coisas e as leis imutáveis de Deus não serão subvertidas. Não vereis milagres, nem prodígios, nem fatos sobrenaturais, no sentido vulgarmente dado a essas palavras.

Não olheis para o céu em busca dos sinais precursores, porquanto nenhum vereis, e os que vo-los anunciarem estarão a enganar-vos. Olhai em torno de vós, entre os homens: aí é que os descobrireis.

Não sentis que um como vento sopra sobre a Terra e agita todos os Espíritos? O mundo se acha na expectativa e como que presa de um vago pressentimento de que a tempestade se aproxima.

Não acrediteis, porém, no fim do mundo material. A Terra tem progredido, desde a sua transformação; tem ainda que progredir e não que ser destruída. A Humanidade, entretanto, chegou a um dos períodos de sua transformação e o mundo terreno vai elevar-se na hierarquia dos mundos.

O que se prepara não é, pois, o fim do mundo material, mas o fim do mundo moral. É o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do orgulho, do egoísmo e do fanatismo que se esboroa. Cada dia leva consigo alguns destroços. Tudo dele acabará com a geração que se vai e a geração nova erguerá o novo edifício, que as gerações seguintes consolidarão e completarão.

De mundo de expiação, a Terra se mudará um dia em mundo ditoso e habitá-lo será uma recompensa, em vez de ser uma punição. O reinado do bem sucederá ao reinado do mal.

Para que na Terra sejam felizes os homens, preciso se faz que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que unicamente ao bem aspirem. Como já chegou esse tempo, uma grande emigração neste momento se opera entre os que a habitam. Os que praticam o mal pelo mal, alheios ao sentimento do bem, dela se verão excluídos, porque lhe acarretariam novamente perturbações e confusões que constituiriam obstáculo ao progresso. Irão expiar o seu endurecimento em mundos inferiores, aos quais levarão os conhecimentos que adquiriram, tendo por missão fazê-los adiantar-se. Substituí-los-ão na Terra Espíritos melhores que farão reinem entre si a justiça, a paz, a fraternidade.

A Terra, dissemo-lo, não será transformada por um cataclismo que aniquile de súbito uma geração. A atual desaparecerá gradualmente e a nova lhe sucederá do mesmo modo, sem que haja mudança na ordem natural das coisas. Tudo, pois, exteriormente, se passará como de costume, com uma única diferença, embora capital: a de que uma parte dos Espíritos que nela encarnam não mais encarnarão. Em cada criança que nasça, em lugar de um Espírito atrasado e propenso ao mal, encarnará um Espírito mais adiantado e propenso ao bem. Trata-se, portanto, muito menos de uma nova geração corporal, do que de uma nova geração de Espíritos. Assim, desapontados ficarão os que contem que a transformação resulte de efeitos sobrenaturais e maravilhosos.

A época atual é a da transição; os elementos das duas gerações se confundem. Colocados no ponto intermédio, assistis à partida de uma e à chegada da outra, e cada uma já se assinala no mundo pelos caracteres que lhe são próprios.

As duas gerações que sucedem uma à outra têm idéias e modos de ver inteiramente opostos. Pela natureza das disposições morais, porém, sobretudo pelas disposições intuitivas e inatas, torna-se fácil distinguir à qual das duas pertence cada indivíduo.

Tendo de fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por uma inteligência e uma razão, em geral, precoces, juntas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é sinal indubitável de certo grau de adiantamento anterior. Não se comporá tão-só de Espíritos eminentemente superiores, mas de Espíritos que, já tendo progredido, estão predispostos a assimilar as idéias progressistas e aptos a secundar o movimento regenerador.

O que, ao contrário, distingue os Espíritos atrasados é, primeiramente, a revolta contra Deus, pela negação da Providência e de qualquer poder acima da Humanidade; depois, pela propensão instintiva para as paixões degradantes, para os sentimentos antifraternais do orgulho, do ódio, do ciúme, da cupidez, enfim, a predominância de apego a tudo o que é material.

Desses vícios é que a Terra tem de ser expurgada pelo afastamento dos que recalcitram em emendar-se, visto que são incompatíveis com o reino da fraternidade e os homens de bem sofreriam sempre com o contacto dessas criaturas. Livre deles a Terra, os outros caminharão desembaraçadamente para o futuro melhor, que lhes está reservado neste mundo, em recompensa de seus esforços e da sua perseverança, enquanto uma depuração ainda mais completa não lhes abre o pórtico dos mundos superiores.

Com referência a essa emigração de Espíritos, ninguém pretenda que todos os Espíritos retardatários serão expulsos da Terra e relegados para mundos inferiores. Muitos, ao contrário, aí hão de voltar, porque muitos cederão ao império das circunstâncias e do exemplo; neles, a casca está mais estragada do que o cerne. Uma vez subtraídos à influência da matéria e dos prejuízos do mundo corporal, eles, em sua maioria, verão as coisas de maneira inteiramente diversa da que as viam quando vivos, conforme os numerosos casos que já tendes apreciado. Para isso, terão a ajudá-los os Espíritos bons, que por eles se interessam e que se esforçam por esclarecê-los e por lhes mostrar que errado era o caminho que trilhavam. Pelas vossas preces e exortações, podeis contribuir muito para que se melhorem, porque há perpétua solidariedade entre os mortos e os vivos.

Aqueles, conseguintemente, poderão voltar e se sentirão felizes, porque isso lhes será uma recompensa. Que importa o que tenham sido e feito, se animados de melhores sentimentos se encontram? Longe de se mostrarem hostis à sociedade, serão seus auxiliares úteis, porquanto pertencerão à geração nova.

Não haverá, pois, exclusão definitiva, senão dos Espíritos substancialmente rebeldes, daqueles que o orgulho e o egoísmo, mais do que a ignorância, tornaram surdos aos apelos do bem e da razão. Esses mesmos, porém, não estarão votados a perene inferioridade. Dia virá em que repudiarão o passado e abrirão os olhos para a luz.

Assim, orai por esses endurecidos, a fim de que se emendem enquanto ainda é tempo, visto que se aproxima o dia da expiação.

Infelizmente, a maioria, desconhecendo a voz de Deus, persistirá na sua cegueira e a resistência que virá a opor mascarará, por meio de terríveis lutas, o fim do reinado dos que a constituem. Desvairados, correrão à sua própria perda; provocarão destruições que darão origem a um sem-número de flagelos e de calamidades, de sorte que, sem o quererem, apressarão o advento da era de renovação.

E, como se não se operasse com bastante rapidez a destruição, os suicídios se multiplicarão em proporções inauditas, até entre as crianças. A loucura jamais terá atingido tão grande quantidade de homens que, antes mesmo de morrerem, estarão riscados do número dos vivos. São esses os verdadeiros sinais dos tempos e tudo isso se cumprirá pelo encadeamento das circunstâncias, como já o dissemos, sem que haja a mais ligeira derrogação das leis da Natureza.

Contudo, através da escura nuvem que vos envolve e em cujo seio ronca a tempestade, já podeis ver despontando os primeiros raios da era nova. A fraternidade lança seus fundamentos em todos os pontos do globo e os povos estendem uns aos outros as mãos; a barbárie se familiariza no contacto com a civilização; os preconceitos de raças e de seitas, que causaram o derramamento de ondas de sangue, se vão extinguindo; o fanatismo, a intolerância perdem terreno, ao passo que a liberdade de consciência se introduz nos costumes e se torna um direito. Por toda parte fermentam as idéias; percebe-se o mal e experimentam-se remédios para debelá-lo, mas muitos caminham sem bússola e se perdem em utopias. O mundo se acha empenhado num imenso trabalho de gestação que já dura há um século; nesse trabalho, ainda confuso, nota-se, todavia, que predomina a tendência para determinado fim: o da unidade e da uniformidade, que predispõem à confraternização.

Também aí tendes sinais dos tempos. Mas, enquanto que os outros são os das agonias do passado, estes últimos são os primeiros vagidos da criança que nasce, os precursores da aurora que o próximo século verá despontar, pois que então a geração nova estará em toda a sua pujança. Tanto a fisionomia do século dezenove difere da do décimo oitavo, sob certos pontos de vista, quanto a do vigésimo diferirá da do século dezenove, sob outros pontos de vista.

A fé inata será um dos caracteres distintivos da nova geração, não a fé exclusiva e cega que divide os homens, mas a fé raciocinada, que esclarece e fortifica, que os une e confunde num sentimento comum de amor a Deus e ao próximo. Com a geração que se extingue desaparecerão os últimos vestígios da incredulidade e do fanatismo, igualmente contrários ao progresso moral e social.

O Espiritismo é a senda que conduz à renovação, porque destrói os dois maiores obstáculos que se opõem a essa renovação: a incredulidade e o fanatismo; porque faculta uma fé sólida e esclarecida; desenvolve todos os sentimentos e todas as idéias que correspondem aos modos de ver da nova geração, pelo que, no coração dos representantes desta, ele se achará inato e em estado de intuição. Assim, pois, a era nova vê-lo-á engrandecer-se e prosperar pela força mesma das coisas. Tornar-se-á a base de todas as crenças, o ponto de apoio de todas as instituições.

Mas, daqui até lá, que de lutas terá ainda de sustentar contra os seus dois maiores inimigos: a incredulidade e o fanatismo que — coisa singular! — se dão as mãos para abatê-lo. É que os dois lhe pressentem o futuro e, em conseqüência, a ruína de ambos. Essa a razão por que o temem; já o vêem erguendo, sobre os destroços do velho mundo egoísta, a bandeira em torno da qual se reunirão todos os povos. Na divina máxima: Fora da caridade não há salvação, eles lêem a sua própria condenação, porquanto essa máxima é o símbolo da nova aliança fraternal proclamada pelo Cristo. Ela se lhes apresenta como as palavras fatais do festim de Baltazar4. Entretanto, deveriam bendizer essa máxima, porquanto os defende de todas as represálias da parte dos que os perseguem. Tal, porém, não se dá: uma força cega os impele a rejeitar a única coisa capaz de salvá-los.

Que poderão contra o ascendente da opinião que os repudia? O Espiritismo sairá triunfante da luta, ficai certos, porquanto ele está nas leis da Natureza, não podendo, por isso mesmo, perecer. Observai a multiplicidade de meios por que a idéia se espalha e penetra em toda parte; crede que esses meios não são fortuitos, mas providenciais. O que, à primeira vista, devera ser-lhe prejudicial é exatamente o que lhe auxilia a propagação.

Dentro em breve, surgirão campeões que em voz alta se proclamarão tais, entre os de maior consideração e mais acreditados, os quais, com a autoridade de seus nomes e de seus exemplos o apoiarão, impondo silêncio aos que o detratem, pois ninguém ousará tratá-los de loucos. Esses homens o estudam em silêncio e aparecerão quando for chegado o momento oportuno. Até lá, bom é se conservem afastados.

Dentro em pouco, também vereis as artes se acercarem dele, como de uma mina riquíssima, e traduzirem os pensamentos e os horizontes que ele patenteia, por meio da pintura, da música, da poesia e da literatura. Já se vos disse que haverá um dia a arte espírita, como houve a arte pagã e a arte cristã. É uma grande verdade, pois os maiores gênios se inspirarão nele. Em breve, vereis os primeiros esboços da arte espírita, que mais tarde ocupará o lugar que lhe compete.

Espíritas, o futuro é vosso e de todos os homens de coração e devotados. Não vos assustem os obstáculos, porquanto nenhum há que possa embaraçar os desígnios da Providência. Trabalhai sem descanso e agradecei a Deus o ter-vos colocado na vanguarda da nova falange. É um posto de honra que vós mesmos solicitastes e do qual é preciso vos mostreis dignos pela vossa coragem, pela vossa perseverança e pelo vosso devotamento. Felizes dos que sucumbirem nessa luta contra a força; a vergonha, ao contrário, esperará, no mundo dos Espíritos, os que sucumbirem por fraqueza ou pusilanimidade. As lutas, aliás, são necessárias para fortalecer a alma; o contacto com o mal faz que melhor se apreciem as vantagens do bem. Sem as lutas, que estimulam as faculdades, o Espírito se entregaria a uma despreocupação funesta ao seu adiantamento. As lutas contra os elementos desenvolvem as forças físicas e a inteligência; as lutas contra o mal desenvolvem as forças morais.



Acontecimentos

(Sociedade de Paris; médium: Sr. D...)
16 de agosto de 1867


A sociedade em geral, ou, a bem dizer, a reunião de seres, tanto encarnados como desencarnados, que compõem a população flutuante de um mundo, numa palavra — a Humanidade —, mais não é que uma grande criança coletiva que, como todo ser dotado de vida, passa por todas as fases que se sucedem em cada um, desde o nascimento até a mais avançada idade. Do mesmo modo que o desenvolvimento do indivíduo é acompanhado de certas perturbações físicas e intelectuais, peculiares, particularmente, a determinados períodos da vida, também a Humanidade tem suas crises de crescimento, seus transtornos morais e intelectuais. Atravessais uma dessas grandes épocas, que encerram um período e dão começo a outro. Participando simultaneamente das coisas do passado e das do futuro, dos sistemas que ruem e das verdades que se fundam, tende o cuidado, meus amigos, de colocar-vos do lado da solidez, da progressividade e da lógica, se não quiserdes ser arrastados ao sabor das ondas; tende o de abandonar palácios suntuosos na aparência, mas vacilantes em suas bases e que não tardarão a sepultar nas suas ruínas os infelizes que insensatamente não quiserem deles sair, a despeito dos avisos de toda sorte que lhes são prodigalizados.

Todas as frontes se anuviam e a calma aparente de que gozais apenas serve para acumular maior quantidade de elementos destruidores.

Algumas vezes, antes da tempestade que destrói os frutos dos suores de um ano, surgem precursores que permitem se tomem as precauções necessárias a evitar, tanto quanto possível, as devastações. Desta vez, assim não será. Parecerá que o céu, depois de estar sombreado, se aclara; as nuvens fugirão; em seguida, de súbito, todos os furores, por longo tempo comprimidos, se desencadearão com inaudita violência.

Ai dos que não hajam preparado para si um abrigo! Ai dos fanfarrões que forem ao encontro do perigo com o braço desarmado e o peito descoberto! Ai dos que afrontarem o perigo empunhando a taça! Que terrível decepção os espera! A taça que empunham não lhes chegará aos lábios, antes que eles sejam atingidos!

À obra, pois, espíritas, e não esqueçais que todos deveis ter prudência e previdência. Tendes um escudo, sabei servir-vos dele. Tendes uma âncora de salvação, não a desprezeis.



Acontecimentos

(Comunicação íntima dada ao Sr. C..., médium)
Paris, 23 de fevereiro de 1868


Ocupa-te desde já com o trabalho que tens esboçado sobre os meios de seres um dia útil aos teus irmãos em crença e de servires à causa da Doutrina, porque será possível que os acontecimentos que se desenrolarão não te deixem lazeres bastantes para te consagrares ao referido trabalho.

Esses próprios acontecimentos darão lugar a fases durante as quais o pensamento humano poderá produzir-se com absoluta liberdade. Nesses momentos, os cérebros em delírio, baldos de qualquer orientação sã, gerarão enormidades tais, que a notícia do próximo aparecimento da besta do apocalipse a ninguém espantaria e passaria despercebida. A imprensa vomitará todas as loucuras humanas, até se esgotarem as paixões a que ela terá dado nascimento.

Semelhante época será favorável aos espíritas. Eles se arregimentarão, prepararão seus materiais e suas armas. Ninguém pensará em molestá-los, por isso que eles a ninguém causarão embaraço. Serão os únicos discípulos do Espírito, os outros serão discípulos da matéria.



Allan Kardec


Fonte: Obras Póstumas - Minha Primeira Iniciação no Espiritismo - Diversas Comunicações - Editora FEB, tradução Guillon Ribeiro.
Versão de download: www.opiniaoespirita.org/downloads/obras_postumas.pdf



Notas do Editor do site Opinião Espírita:

  1. Alusão ao texto contido no livro de Daniel cap. 2.

  2. Sào João Crisóstomo, viveu de 349 a 407 e, por causa de sua inflamada retórica, ficou conhecido como a "Boca de Ouro" do Cristianismo.

  3. Ler, entre outras passagens, o cap. 24 do livro de Mateus.

  4. O Festim de Baltazar é uma alusão a uma história da Bíblia em Daniel cap. 5.

<--Voltar